Empresa familiar: a teoria e a prática em 180 anos de história
Um jovem executivo do Grupo Magalu e o líder da quarta geração da família Telles, fundadora da Ypióca, emocionam empresários
Palavras de Carlos Donzelli, membro do Conselho de Administração do Grupo Magazine Luiza (Magalu) e um especialista na gestão de empresas familiares, ao falar, quinta-feira, 9, para cerca de 100 empresários e executivos cearenses em evento promovido pela “Nosso Meio”, entidade dirigida pelo empresário Fernando Hélio, que incentiva as melhores iniciativas empresariais no Ceará e fora dele.
“As empresas que sobrevivem por longo tempo têm o propósito de servir bem. No lado interno do crachá de cada colaborador do Magazine Luiza, está escrito: ‘Faça aos outros o que quer que lhe façam’. Quando a empresa se desconecta desse propósito, as coisas começam a sair do controle.”
Fixando o olhar no empresário Everardo Telles, presidente do Conselho de Administração do Grupo Telles, que neste 2026 celebra 180 anos de plena atividade na agroindústria, Donzelli não escondeu a emoção de conhecer, pessoalmente, o líder da quarta geração da família que, no Século 19, fundou a Ypióca (vendida em 2012 à multinacional britânica Diageo, líder mundial de bebidas destiladas). Telles estava sentado bem à sua frente, ao lado da filha Aline, CEO da corporação, que estendeu seus tentáculos para estados do Norte, como o Tocantins, e do Nordeste, como o Rio Grande do Norte.
O tema da palestra de Carlos Donzelli foi “Conselho e Sucessão Familiar”, ao longo da qual ele – que está há 30 anos em posições de comando no Magalu – expôs várias opiniões, entre as quais as seguintes: 1) para perpetuar-se, a empresa tem de ser transparente e comunicar-se correta e eficientemente com os públicos interno e externo; 2) promover a transição suave entre as gerações e a gestão profissional; 3) cabe sempre ao líder da primeira geração transmitir às outras o ensinamento de como a empresa deve prosseguir; 4) é necessário que os sócios ou familiares controladores falem a mesma língua, pois, se essa comunicação mostrar divergência, a empresa estará ameaçada; 5) o objetivo da gestão é gerar caixa.
Donzelli disse: “Sem a definição do QUEM, não haverá COMO nem ONDE”, e acrescentou, com outras palavras, que é fácil jogar para debaixo do tapete os erros da má gestão; ao se levantar o tapete, porém, surgirá a poeira do lixo tóxico que contaminará a empresa e seus dirigentes.
Ele lembrou que toda empresa familiar precisa e precisará sempre de alguém que seja “o algodão entre cristais”, uma pessoa de confiança que promova a boa relação entre as gerações da família e seus profissionais. E de novo olhando para Everardo Telles, Donzelli disse:
“Estou aqui a imaginar quantas vezes uma empresa como o Grupo Telles, com 180 anos de vida, teve de ser reinventada para adaptar-se aos novos tempos, principalmente agora quando a tecnologia e a inovação desafiam os melhores gestores.” E finalizou:
“Não haverá negócio sustentável sem ganho de produtividade, e não haverá produtividade sem tecnologia.”
Em seguida, subiu ao palco, sob aplausos, a atração do evento. Everardo Telles e seus 80 anos fizeram um resumo do Grupo Telles, cuja história cabe perfeitamente nos objetivos do “Fundadores - a origem de um legado’, a boa ideia do Nosso Meio para propagar os melhores exemplos de empresas familiares.
Telles começou falando assim: “Deixem que eu me apresente. Sou cearense de Fortaleza, engenheiro agrônomo, pai de sete filhos. Comecei acompanhando meu pai, Paulo Campos Telles, nas visitas à fazenda Ypióca, lá em Maranguape. Depois, já formado, tomei conta da parte industrial da empresa e, mais tarde, fui para o comercial. Em 2021, vendemos a empresa-mãe (a Ypióca) e passamos a desenvolver outros negócios. Hoje, temos 7 empresas que dão emprego a 3.200 pessoas no Ceará, no Rio Grande do Norte e no Tocantins.
“Verticalizamos nossas empresas com o objetivo de garantir a alta qualidade de nossos produtos, algo que mantemos com muita dedicação. Nossas empresas não dependem de banco, somos líquidos e essa liquidez =e emprega na compra de ações de grandes empresas brasileiras. Temos um om colchão financeiro.
“Temos muito cuidado com os nossos colaboradores, aos quais oferecemos, periodicamente, cursos de atualização profissional, algo a que eu mesmo me dedico, pois tenho de estar, também, atualizado com as novas tecnologias.”
Para mostrar o grande caráter com o qual foi formado, Everardo contou “duas das muitas histórias do meu pai”. Na Fazenda Ypióca, havia uma escola, que ficava a boa distância da casa grande.
“Eu tinha muita preguiça de acordar para ir para a escola. Um dia, meu pai chegou a cavalo com uma jumenta arreada ao lado e me disse: ‘Esse animal é para você ir e voltar da escola’. E foi assim que eu aprendi a estudar, ensinamento que transmiti aos meus filhos, que são todos graduados, pós-graduados e com MBA.
“Eu dividi entre eles a empresa. Dei a cada um 14% do seu capital. Minha sucessão eu planejei há muito tempo. Ensinei a eles que um novo passo adiante tem de ter o tamanho exato das pernas. Um passo errado pode causar um grande prejuízo.”
A fala de Everardo Telles foram mediadas pelo professor César Bullara, da ISE Businees School, parceira da Nosso Meio. Ele quis saber do orador como ele fez para identificar e escolher os talentos de sua empresa. Com outras palavras, Everardo respondeu:
“Bem, todos os nossos colaboradores têm um plano de carreira. Eles começam como trainees e vão conquistando posições. Acima do conhecimento que devem ter, eles têm, também, de gostar das pessoas. Têm de gostar de gente, como eu gosto, como meus filhos gostam. Têm de saber relacionar-se. Isto deu muito certo e posso dizer que nosso conjunto de colaboradores é do melhor nível.”
O professor Cesar Bullara perguntou:
“O que o senhor considera que não deve ser mudado na sua organização?”
Everardo respondeu de bate-pronto:
“Primeiro, os fatores comportamentais; segundo, a coragem para enfrentar as dificuldades em qualquer situação; terceiro, a disciplina, e nisto sou exigente; quarto, a humildade (meu pai nunca andou de automóvel, sempre andou de caminhonete, porque podia dar carona a um pobre carregando um saco de milho as costas, algo que não podia fazer em um carro sem carroceria); e por último, este ensinamento que foi citado aqui: trate o outros como você gostaria de ser tratado.”
Telles foi demoradamente aplaudido pelo superlotado auditório.
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