Eleição: candidato dos sem nada, presidente dos com tudo
Na campanha eleitoral, a aliança é com os despossuídos; mas no governo, o contrato é com a elite
Começa hoje o segundo mês do segundo semestre deste ano, e à vista está a informação de que faltam dois meses e poucos dias para o primeiro turno da eleição presidencial, em torno da qual se movem todos os grupos de interesses da política, dos políticos, dos agentes econômicos e financeiros. Reflitamos: para eleger-se, o candidato a presidente celebra aliança com todos os estratos da sociedade, incluindo os sem nada – os sem-terra, os sem habitação, os sem prestígio e mais os núcleos religiosos de todos os credos, os artistas, os indígenas, os motoristas de caminhão, de táxi e de aplicativos, enfim, com todos os agrupamentos que não têm direto interesse no Tesouro Nacional. É do jogo eleitoral e faz parte dele.
Após a eleição, contudo, o eleito depara-se com outros quinhentos, e aí descobre que, para governar, tem, obrigatoriamente, de fazer alianças com os segmentos dos que têm tudo – bancos, indústrias incentivadas, frentes parlamentares para todos os gostos, donos de grandes jornais e de redes de televisão, associação dos servidores públicos, associação dos magistrados, dos caminhoneiros, dos petroleiros – e, finalmente, com os partidos políticos. Ou seja, com todos os que têm interesse direto no Tesouro Nacional. Dezenas de reuniões depois, o presidente, antes de tomar posse de suas graves tarefas, vê-se cercado, encurralado e emboscado pelas organizações que, há uns 30 anos, se apoderaram do poder e de suas inesgotáveis fontes de benesses.
Os grandes e poderosos grupos de interesse que agem em Brasília (a maior renda per capita do Brasil, maior do que a de São Paulo, está localizada no Lago Sul da capital federal, e isto é produto da ação escancarada dos que integram a elite das instituições públicas sediadas ali, incluindo as da magistratura; e vale lembrar que é impossível ao servidor público, em qualquer nível, construir patrimônio só com os seus vencimentos) tornaram o Orçamento Geral da União uma peça de ficção, e tanto é verdade que essa Lei de meios se mantém deficitária desde 2014.
Agora, atentemos todos para o fato de que os grandes partidos do Centrão optaram por ficar de fora da corrida presidencial. Por quê? É fácil e elementar a resposta: porque é muito melhor usar a polpuda verba do Fundo Eleitoral (R$ 5 bilhões, uma imoralidade) para eleger uma forte e numerosa bancada de senadores e deputados, do que compor uma arriscada coligação para a eleição do presidente da República.
Assim, fortalecidos no Congresso Nacional, esses partidos “peitarão”, como sempre o fizeram de uns tempos cá, o presidente eleito e com ele negociarão a ocupação de ministérios, de empresas públicas (Banco do Brasil, BNDES, Caixa, BNB, Basa, Petrobras, IBGE, Funasa, Codesvasf etc), além de vagas nos conselhos de administração e fiscal das estatais e de cargos comissionados, que remuneram no modo magnânimo.
Desse conluio pouco ou nada sabe a população, mesmo porque, agora e na campanha eleitoral pelo rádio e pela tevê, que será iniciada 45 dias antes da eleição, o debate não será sobre o que fazer para tirar o Brasil do fundo do poço em que se encontra, mas para dizer quem está mais ou menos encalacrado nos escândalos do Banco Master de Daniel Vorcaro e do INSS.
Neste momento, graças às investigações da Polícia Federal, já se sabe que até ministros do Supremo Tribunal, ex-ministros do governo, parlamentares, executivos do serviço público e familiares ligados ao presidente Lula e ao ex-presidente Jair Bolsonaro estão envolvidos nos dois casos. Tudo com a cara do Brasil de hoje, um país lamentavelmente algemado pela corrupção e pela impunidade – sem falar na ação do crime organizado, que parece haver ocupado posições de influência na Praça dos Três Poderes e, mais ainda, na Avenida Faria Lima, endereço do mercado financeiro brasileiro – é lá que opera a Bolsa de Valores B3.
A propósito: quem quiser saber mais do que se passa no Brasil de hoje deve, imediatamente, ler o livro “A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia”, de Joaquim Falcão, membro da Academia Brasileira de Letras, professor de Direito Constitucional e autor dos livros “A Favor da Democracia”, “O Supremo” e “O Supremo e o Processo Eleitoral”.
Ele diz que os três poderes da República se transformaram numa oligarquia que ameaça a democracia.
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