Água para irrigação no Ceará: o eterno dilema

Há grandes diferenças entre a irrigação e a rentabilidade de uma comodity e as de culturas de valor agregado

Escrito por
Egídio Serpa egdio.serpa@svm.com.br
Legenda: A irrigação com pivôs centrais (foto) consome mais água do que a tecnologia por gotejamento. A água precisa de ser bem utilizada.
Foto: Honório Barbosa / SVM
Um oferecimento de:

Em regiões que sofrem com a escassez de água, como é o caso de quase toda a geografia do Ceará, é necessário e até prioritário que sua utilidade se faça levando em conta o custo-benefício. Para isto, a tecnologia aplicada ao uso dos recursos hídricos evoluiu e criou, para a moderna e empresarial agricultura, a irrigação por gotejamento, por aspersão e por micro gotejamento (utilizada nas áreas de cultivo protegido sob estufas), reduzindo ao mínimo possível a irrigação por superfície (por meio de canais a céu aberto, o que causa a perda da água pela evaporação).  

Dito isto, abordemos uma questão que aflora por causa do explícito desejo de agricultores do município de Ocara, que querem implantar ali um polo produtor de milho, uma comodity. Naquela região, na qual se inclui Morada Nova, onde prosperam a carcinicultura e a fruticultura de alto valor agregado, passa o Eixão das Águas, cuja capacidade de vazão está sendo dobrada dos atuais 11 m³/s para 22 m³/s, graças a investimentos que fazem os governos estadual e federal. Isto quer dizer que, ao lado dos viveiros de camarão e das áreas da fruticultura, empreendimentos privados, está a água disponível para a irrigação, e é de parte dela que os milho cultores de Ocara desejam fazer uso. 

Como não temos água em excesso, mas no modo limitado, o estado, por seus organismos ligados aos recursos hídricos, deve cobrar pelo seu uso, e outorgá-la sob critérios e condições subordinadas aos caprichos da natureza. Isto deve saber, de antemão, quem já investiu ou quer investir nos diferentes ramos da agricultura cearense. 

Essa água, porém, destina-se, em primeiro lugar, ao consumo humano, e a prioridade é a população de Fortaleza e das cidades que integram a sua Região Metropolitana. A dessedentação animal vem em seguida. Só depois surge, segundo a Lei, a atividade econômica, que embute, em relação ao uso da água, o aspecto do custo e benefício. No caso em tela, há gritantes diferenças entre a irrigação e a rentabilidade de uma commodity como o milho e a das culturas de valor agregado, como o camarão e as frutas. Vejamos: 

No cultivo do milho irrigado por pivô central, o consumo médio de água (m³/ha/ano) varia de 5 mil m³ a 7 mil m³ para um faturamento anual de R$ 12 mil a R$ 18 mil, gerando 0,1 a 0,2 emprego; no milho irrigado por gotejamento, o consumo de água varia de 4 mil m³ a 5.500 m³, para uma receita de R$ 14 mil a R$ 20 mil, criando 0,1 a 0,2 emprego. 

No cultivo de uva de mesa, o consumo médio de água varia de 10 mil m³ a 12 mil m³ por hectare/ano, para um faturamento de R$ 100 mil a R$ 200 mil, criando até 3 empregos; no cultivo de manga, o consumo de água vai de 10 mil m³ a 14 mil m³ de água por hectare/ano, para uma receita de R$ 60 mil a R$ 100 mil, com a criação de 1,5 emprego; e na criação de camarão, os números são os seguintes: o consumo de água é de 15 mil m³ a 25 mil m³ por hectare/ano, para uma receita anual de R$ 150 mil a R$ 300 mil e a geração de 1,5 emprego. 

Como o Ceará tem pouca disponibilidade de água para sua atividade econômica, é essencial que o seu uso obedeça a critérios técnicos, observando-se o custo-benefício. Pelo Zoneamento Agrícola do país, elaborado pelo Ministério da Agricultura, são os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, nas regiões Central e do Cerrado, e Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, na Região Sul, que concentram o milharal brasileiro. É por isto que a avicultura cearense compra desses estados o milho de que precisa para a fabricação da ração de suas aves.  

Resumindo: o milho pode (e deve) ser produzido por gotejamento e até subsuperficial, o que reduz dramaticamente o consumo de água frente ao pivô central ou à inundação (como era no arroz antigo). O problema não é a eficiência do método de irrigação, mas sim a eficiência econômica do destino da água. E mais: A água usada para produzir 1 hectare de milho (que fatura R$ 15 mil/ano e gera 0,1 emprego) poderia irrigar área equivalente de fruticultura ou abastecer a carcinicultura, gerando receita de R$ 100 mil a 200 mil, além de vários empregos diretos e indiretos. 

Os produtores de milho de Ocara, que cultivam milho em sequeiro (dependendo da chuva), mas com alta produtividade graças a sementes selecionadas e orientação técnica de qualidade, estão sendo incentivados a trocar o sequeiro pela irrigação. Porém, será necessário observar – e isto cabe aos organismos do governo que cuidam da gestão dos recursos hídricos – a disponibilidade do insumo e a severa relação custo-benefício.   

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