Economia cearense exporta sem agregar valor

Dois industriais apontam o certo e o errado na política de atração de investimentos do governo do estado

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 08:23)
Legenda: Foto aérea das obras avançadas de construção do Data Center da chinesa ByteDance, dona da TikTok na ZPE do Pecém
Foto: Thiago Gadelha
Um oferecimento de:

Suscitou comentários com pontos de vista diferentes a análise de Fábio Feijó, secretário do Desenvolvimento Econômico do governo do Ceará, que sábado, aqui, refletindo sobre o Relatório da Unctad a respeito do investimento mundial em 2025, disse que o Ceará está deixando de competir com estados vizinhos para disputar com países a atração de capitais internacionais, citando entre eles o México, a Malásia e o Vietnã. Entre esses comentários, destacaram-se os de dois empresários industriais, com atuação em ramos diferentes dessa atividade, os quais transmitiram à coluna opiniões divergentes.  

O primeiro disse que o Ceará “deixou de disputar com estados vizinhos porque o Brasil e seu governo perderam a capacidade de investir por culpa da irresponsável política fiscal, cujo resultado pode ser visto no aumento da dívida pública e do seu serviço, nos juros altos da economia e no crédito quase inalcançável”. A saída, então, ele acrescentou, “é essa mesma, ou seja, buscar lá fora recursos que aqui não existem; na verdade, eles até existem, mas a um preço inviável, de tão caro, frustrando qualquer projeto de ampliação dos atuais ou de abertura de novos negócios”. 

O segundo industrial foi também objetivo na sua observação, ao dizer que “o governo do Ceará e seu secretário do Desenvolvimento Econômico fazem o certo, mas permitem o errado: estão corretos quando saem à procura de investimentos além das fronteiras nacionais, mas estão errados quando se sujeitam à vontade dos investidores”. E citou o caso do Data Center da chinesa ByteDance, dona do TikTok, que segue em acelerada construção na ZPE do Pecém. 

“É um grande investimento que coloca o Ceará no mapa do mundo da alta Tecnologia da Informação, mas o que esse DataCenter produzirá para o Ceará e os cearenses? Empregos? Alguém duvida de que serão técnicos e especialistas chineses que o operarão? E ainda vamos gerar energia renovável para o funcionamento dessa gigantesca máquina tecnológica, cujos serviços serão exportados, e com incentivos fiscais. E teremos de garantir água para refrigerar seus milhares de servidores, sistemas de armazenamento de dados e equipamentos de rede”, argumentou ele. 

Na opinião do primeiro industrial, “o governo do Ceará tem de atrair empresas que agreguem valor ao que nós já produzimos”. E, como um exemplo, ele citou as placas de aço da multinacional AcelorMittal, que tem uma moderníssima siderúrgica no Complexo do Industrial e Portuário do Pecém: 

“Só agora ela anuncia que fará investimento de R$ 25 milhões para estudar a possibilidade de instalação de uma unidade de laminação a quente, primeira etapa para implantação de uma laminadora a frio, da qual sairá o aço uado na fabricação de automóveis. Isto quer dizer que ainda aguardaremos um bom tempo para que isso se realize. Até lá, continuaremos a exportar uma commodity sem valor algum agregado. E tenho de fazer justiça à ArcelorMittal: ela é a maior exportadora do Ceará, e isto não é pouca coisa”, disse ele. 

O outro empresário, no seu longo comentário sobre a reflexão do secretário Fábio Feijó, lembrou o que acontece em Camaçari, na Bahia, onde a chinesa BYD montou, nos mesmos galpões onde operou a Ford, uma unidade industrial que, por enquanto, só monta os kits de peças que vêm prontos da China. 

“Lá, como aqui no Polo Automotivo de Horizonte, a indústria chinesa usa incentivos fiscais para montar carros elétricos fabricados na China, onde estão os empregos e onde está o seu núcleo tecnológico de criação. Há a promessa de que, em médio prazo, esse sistema CKD e SKD de montagem de automóveis seja extinto e substituído por fábricas de verdade, utilizando majoritariamente componentes nacionais. Da Bahia chegam notícias de que a mão de obra chinesa é maioria na unidade da BYD em Camaçari. Em Horizonte, na nossa vizinhança, os trabalhadores cearenses ainda são maioria. Em oito meses, a BYD de Camaçari montou e vendeu 100 mil automóveis elétricos fabricados na China. UM recorde!” 

Moral desta história: o Ceará e os cearenses temos todas as chances de, atraindo capitais estrangeiros, tornar nossa economia uma exploradora de matérias primas, beneficiando-as aqui mesmo e as exportando com valor agregado. Quando e se isto acontecer, estaremos imitando norte-americanos, europeus e chineses, e isto será muito bom. Ponto final. 

TAP ENGANA OS CEARENSES: VENDE GATO POR LEBRE 

Em processo rápido de privatização (Air France e Lufthansa estão em acirrada batalha para comprar 49% do seu capital e assumir a sua gestão), a TAP, maior empresa área de Portugal, decidiu tornar seus clientes cearenses passageiros de quinta categoria. Simplesmente, a TAP entregou à espanhola Wordl2Fly a operação dos seus voos diários e diretos de Fortaleza para Lisboa. 

Tudo estaria bem, se as aeronaves da empresa espanhola tivessem a mesma configuração de assentos que têm os A-330-300 da TAP. Os aviões da TAP têm classes Executiva com poltronas-leito, Economy Confort, com mais espaçamento entre as poltronas, e uma Econômica tradicional. Os da espanhola são A330-300, mas com poltronas configuradas de modo diferente. 

O que está acontecendo de 45 dias para cá, quando a World2Fly iniciou a operação dos voos da TAP? Acontece o seguinte: quem compra passagem de Executiva tem uma decepção quando embarca no avião, pois as poltronas são diferentes e sem o conforto das existentes nas aeronaves da TAP; quem compra passagem na Executiva Confort tem a mesma decepção, porque o produto vendido não é entregue. Os passageiros estão revoltados. Sábado, um importante empresário da indústria cearense, que já se irritara no voo de vida, revoltou-se no de volta:  

“Comprei uma coisa e me entregaram outra bem diferente”, reclamou ele.  

A pior notícia é a seguinte: toda essa situação permanecerá até o fim do próximo mês de outubro. Isso acontece porque a Airbus enfrenta atrasos na entrega de aeronaves e motores que afetam diversas companhias europeias, incluindo a própria TAP, cuja frota é pequena, tendo, pois, de lançar mão do afretamento de aeonaves de outras empresas. 

Esta coluna sugere à TAP que, em vez dos A330-300 da World2Fly, use seus modernos e confortáveis A321-XLR para ligar Fortaleza a Lisboa, e vice-versa. Ela já os utiliza nos seus voos Lisboa-Maceió. 

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