Cheguei aos 80 anos! E agora, meu Deus!

Um conselho deste novo octogenário: plante e regue, permanentemente, a semente da amizade. E renove, a cada dia, a fé em Deus,

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 07:24)
Legenda: Redação integrada (foto) do Sistema Verdes Mares, meu local de trabalho
Foto: José Leomar
Um oferecimento de:

Perdão por escrever hoje na primeira pessoa, mas este é um dia muito especial para este colunista. 

Cheguei aos 80 anos! E agora, meu Deus? Agora, sim, eu sei tudo – ou quase tudo – sobre a vida. Posso afirmar que, se eu soubesse – aos 20, 30, 40 anos – que as consequências só viriam depois, e não antes, não teria cometido os pecados, as loucuras e os erros que cometi, alguns dos quais muito perigosos. 

Mas, desde o dia 13 de agosto de 1956 – quando, aos 13 anos, sem um centavo no bolso, embarquei clandestinamente em um C-47 da FAB com destino ao Rio de Janeiro – tenho ciência de que minha vida está sob a proteção de Deus. 

O comandante do minúsculo e barulhento avião – versão militar do DC-3 – coronel Dorgal Borges, gaúcho casado com uma cearense, apiedou-se de mim e, em vez de entregar-me ao SAM, o temido Serviço de Assistência aos Menores, primeira escola carioca do crime, trouxe-me de volta, uma semana depois, à casa dos meus pais, de onde eu havia saído em direção ao Colégio Cearense, de cujo internato eu era um aluno muito disciplinado.

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Três anos depois, em maio de 1959, aos 16 anos, vocacionado para a profissão, iniciei minha carreira de jornalista como repórter de política da Rádio Dragão do Mar, onde fiz também radioteatro. No ano seguinte, já era colunista do jornal “O Estado”. No mesmo ano, ganhei um estágio de 30 dias na revista “O Cruzeiro”. Mais tarde, nos anos 70 do Século passado, fui repórter do “Jornal do Brasil” por 15 anos, da “Folha de S. Paulo” por 6, do “Diário de Pernambuco” por 9, do “O Povo” por 22, e agora, pela segunda vez, do Sistema Verdes Mares desde 2007 (na primeira vez, foram 10 anos). 

Cobri duas Copas do Mundo de Futebol, em 1994 nos EUA e em 1998 na França, e duas Olimpíadas – a de 1996 em Atlanta (EUA) e em 2000 em Sidney, na Austrália. 

Em 1965, entrevistei o senador norte-americano Robert Kennedy nos canaviais das Ligas Camponesas em Pernambuco. 

Em 1975, pelo “Jornal do Brasil”, viajei durante 17 dias e 17 noites de Brasília até Caracas, por terra, para mostrar a situação das estradas que ligam o Brasil à Venezuela, na época o país mais rico da América Latina (as rodovias brasileiras eram lastimáveis; as venezuelanas, perfeitas). 

Em janeiro de 1985, cobri a midiática viagem do presidente eleito da redemocratizada República do Brasil, Tancredo Neves, à Europa, aos EUA, ao México, ao Peru e à Argentina. Tancredo não assumiu o poder: morreu na véspera de sua posse. 

Nesse mesmo ano, em agosto, cobri o início do regime sandinista na Nicarágua, liderado pelo então democrata Daniel Ortega, hoje um ditador pior do que Somoza. 

Ainda em 1985, fiz, em setembro, a cobertura do discurso do presidente José Sarney na ONU, em New York, da qual parti às pressas para a Cidade do México, onde um terremoto, dois dias antes, matara 10 mil pessoas. 

Cobrindo missões empresariais cearenses fui à China, à Coreia do Sul, a Taiwan, ao Japão e de novo à Austrália, aos EUA, ao Canadá e a quase todos os países da Europa. 

A passeio, fui, de navio, a várias ilhas do Caribe. 

Convivi com alguns dos maiores jornalistas brasileiros e cearenses, de David Nasser a Odalves Lima; de Luciano Carneiro a Durval Ayres; de Clóvis Rossi a Tom Barros; de Ricardo Kotscho a Rogaciano Leite pai e filho; de Carlos Castelo Branco a Blanchard Girão, que descobriu a minha vocação; de Carlos Chagas a Rangel Cavalcante; de Wilson Figueiredo a Rodolfo Espínola; de Zózimo Barroso do Amaral a Lúcio Brasileiro e Adisia Sá; de Miriam Leitão a Gervásio de Paula; de Calazans Fernandes a Inácio de Almeida; de José Antônio do Nascimento Brito a Wilson Ibiapina; de Augusto Nunes a Edilmar Norões; de Willian Wack a Edmundo Maia; de Paulo Henrique Amorim a Fernando César Mesquita; de Ziraldo a Mino Castelo Branco; de Borjalo a Totonho Laprovítera; de Marcelo Pontes a Guto Benevides.. 

Ganhei em 1983, com Fernando Gabeira, o primeiro Prêmio BNB de Jornalismo por uma série de reportagens publicadas no “Jornal do Brasil” sobre a seca que castigou o Ceará, uma das quais mostrou, com foto de Delfim Vieira, o agricultor Chico Marcolino, de Apuiarés, preparando-se para comer, torrado, um calango. 

Bem antes, com o premiadíssimo fotógrafo Evandro Teixeira, do JB, fiz várias reportagens mostrando o inverso do drama nordestino: a tragédia das enchentes de 1974. 

Sou nome de música: em 1978, o inesquecível Dominguinhos, que se hospedava em minha casa quando vinha a Fortaleza, compôs e gravou o “Chorinho Pro Egídio Serpa”, que, no YouTube, pode ser visto e ouvido na execução do próprio autor e de dezenas de sanfoneiros. 

Minha vida profissional, da mesma maneira que a pessoal, nunca esteve na zona de conforto. Sempre houve um desafio a superar.

Em 1992, meu filho primogênito, jornalista José Oriá Serpa Neto, o Serpinha, morreu num acidente de automóvel. No velório, diante do seu corpo e do olhar de centenas de jovens seus colegas do “Diário do Nordeste” e da TV Verdes Mares, gritei: “Meu Deus, não quero saber por que isto aconteceu, mas para que isto aconteceu”.  

Quatro meses depois, inspirada por Deus, minha mulher, Helena, fundou o Grupo Um Novo Caminho, que começou com 22 jovens, no meu pequeno apartamento, e hoje é a Comunidade Católica Missionária Mariana Um Novo Caminho, onde a juventude atrai suas famílias para conhecer o maravilhoso amor de Deus, e com Ele formar novas famílias. 

Diariamente, como agora, louvo e agradeço a Deus pelo dom da minha vida, pela minha saúde, pela minha família, pelo meu trabalho, pela empresa que me dá emprego e por todas as pessoas que me ajudam a crescer na fé e a enfrentar as dificuldades da vida, e que são providência de Deus. 

Sou grato a Deus por todas as maravilhas que Ele me tem proporcionado ao longo destas oito décadas. 

A começar, agradeço e louvo a Deus pelos meus pais, José Oriá Serpa e Maria Alice Saraiva Serpa, pelos meus 12 irmãos, em cuja companhia sinto-me o homem mais feliz do mundo, pelos cunhados e sobrinhos que embalam esse sentimento de felicidade. 

Agradeço a Deus pela minha mulher, Helena, com quem, sob as bençãos divinas, convivo há 60 anos. Agradeço a Deus pelos meus filhos Serpinha, Guido, Manuela e Guilherme, pelos meus netos Letícia, Sophia, Ayrton, Samuel, Leandro e Rafael, pelo meu genro Fábio e pela minha nora Rita. E, de modo especial, agradeço a Deus pela Graça, essa presença forte e protetora que, há 50 anos, nos ajuda a superar os reptos diários da nossa casa.
 
Peço a Deus perdão pelos meus erros e pecados. Meu objetivo, nesta nova vida octogenária, é buscar a santidade, vivendo aqui na terra os ensinamentos de Jesus. 

Um conselho: plante e regue, permanentemente, a semente da amizade. Eu sei – e como sei – o que significam os amigos.

Aos meus amigos, minha eterna gratidão. Amém