Banco Master: Utopia de Morus, Baratária de Cervantes, sonho de Lima Barreto
O economista Célio Fernando apoia-se na literatura para refletir sobre o que se passa no Brasil de hoje, abalado pelo maior escândalo financeiro da história do país
O texto a seguir é do economista Célio Fernando, vice-presidente da Academia Cearense de Economia. Dizendo-se inspirado por esta coluna que, nos últimos dias, tem tratado do escândalo do Banco Master, algo que, inacreditavelmente, envolve ministros do Supremo Tribunal Federal, ele se apoia na literatura para analisar e refletir sobre o que se passa no Brasil neste primeiro terço do Século XXI.
Vale a pena a leitura, pois o texto é agradável, sofisticado, mas didático. Leia-o:
“Em 1516, Thomas Morus inventou uma ilha onde o ouro servia para fazer penicos e correntes. Chamou-a Utopia, o não-lugar. Escreveu que ‘onde tudo se mede pelo dinheiro, dificilmente a coisa pública será administrada com justiça’. Cinco séculos depois, o que mudou? Os penicos agora são de que material que o dinheiro público construiu?
“Um século após Morus, Cervantes criou outra ilha. Na Baratária, Sancho Pança recebe dos Duques um governo de fachada, montado para que a aristocracia risse enquanto os verdadeiros negócios continuavam nos bastidores. Sancho, o iletrado, governa com honestidade e senso comum. E é por isso mesmo que não pôde durar. ‘Eu não nasci para ser governador’, diz ao partir, a pé, sem ter roubado um centavo. Os Duques riem. O poder permanece intacto.
“Qual o nome brasileiro da Ilha Baratária? E quando, exatamente, os Duques pararão de se disfarçar e passarão a mostrar o poder diretamente?
“Em 1915, Lima Barreto fuzilou o idealismo. Policarpo Quaresma amava o Brasil com a ingenuidade de quem acredita que a pátria retribui. Não retribuiu. ‘O major caminhava para a morte, mas sua preocupação não era a morte, era o Brasil.’ Policarpo denunciou, insistiu, acreditou. Foi destruído.
“Há algo maior definindo o fim para os Policarpos de hoje: a CVM sem diretoria completa há dois anos, o Banco Central questionado pelo TCU, o Centrão no ápice do comando. Qual a origem do Banco Master? Qual a origem de cada um dos que operam o poder? E, pior, qual será o fim, em ano eleitoral?
“Gibbon escreveu que Roma não foi assassinada: ‘As causas da destruição se multiplicaram com a extensão das conquistas’. Toynbee foi mais direto: civilizações cometem suicídio. De Maduro a Trump, a ética global não está em declínio, está em liquidação. A polarização social da corrupção não é ideológica.
E o Brasil, nessa paisagem? Grande demais para ser ignorado, desorganizado demais para liderar, com três poderes operando numa faixa estreita de interesses que não alcança a sociedade mais desigual do continente.
Mas algo sem precedente acontece enquanto a velha corrupção se repete. Cada PIX deixa rastro. Cada movimentação produz dado. Supercomputadores e blockchain criam, pela primeira vez na história, a possibilidade de que toda verdade seja dita com a prova necessária.
“Não se trata de confiar na natureza boa dos homens, a ilusão generosa de Morus. Trata-se de tornar o esconderijo matematicamente impossível. Então por que não se faz? 1) Porque os Duques de Cervantes não querem transparência; 2) Porque os marechais de Lima Barreto não querem denúncias; 3) Porque o poder, há milênios, depende da opacidade.
Cultura ou educação, eis a questão. Sem cultura, não se sabe o que perguntar. Sem educação, não se sabe como. Sem ambas, não se pergunta nada. E o poder conta com esse silêncio. Morus foi decapitado. Cervantes morreu pobre. Lima Barreto morreu esquecido. Os três disseram a verdade ao poder. Os três pagaram por isto.
“Mas no Livro I da Utopia, Rafael Hitlodeu já advertia: ‘Se eu propusesse tais medidas aos reis, achas que me dariam ouvidos?’ Morus respondeu: ‘Certamente que não.’ Cinco séculos depois, a pergunta permanece. E continuamos a fazê-la. Talvez essa seja a única ilha que nos resta: a perigosa insistência de questionar.”
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