Banco Master: os três poderes juntam-se contra o Banco Central
Há em Brasília o alinhamento do Executivo, do Legislativo e do Judiciário para apontar a Autoridade Monetária como culpada pela liquidação do banco de Vorcaro
Nos filmes de mistério, cujo protagonista são famosos detetives –como Sherlock Holmes, criado pelo genial Ártur Conan Doyle – o primeiro suspeito do crime é o mordomo. Na misteriosa novela em que se transformou a bilionária fraude do Banco Central, que, nas palavras do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, “é o maior escândalo financeiro da história deste país”, o principal suspeito da liquidação da instituição fundada e dirigida pelo empresário Daniel Vorcaro é o Banco Central (BC), cuja equipe de fiscalização investigou, e segue investigando, pormenorizadamente, as suas operações fraudulentas que lesaram 1,6 milhão de pessoas físicas e jurídicas em todo o país.
Pelo que se lê, pelo que se vê e pelo que se ouve no rádio, na tevê e nos sites jornalísticos, alinharam-se, para acusar o BC, o Poder Legislativo com seus deputados e senadores; o Poder Executivo, principalmente com os ministros que trabalham em gabinetes do Palácio do Planalto; e o Poder Judiciário com, pelo menos, dois ministros do Supremo Tribunal Federal.
Esse alinhamento trabalha agora com um só objetivo: mostrar que foi a Autoridade Monetária, isto é, o BC, que falhou na preventiva tarefa de apurar e consertar o que acontecia e aconteceu com as operações do Banco Master. É uma maquinação política de alto poder, capaz de destruir toda a reputação de que goza hoje o BC do Brasil.
Para agravar esta suspeita, surgiu ontem a informação de que o presidente Lula aceitou a sugestão do seu ministro Fernando Haddad, que indicou o economista Guilherme Melo, atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, para uma diretoria do Banco Central. Melo é física e ideologicamente filiado ao PT e tem posição favorável à imediata redução da taxa de juros, e isto está assustando o mercado, que teme pela perda de credibilidade do BC. Este fato, aliado ao ajuntamento dos três poderes, poderá deteriorar a imagem da Autoridade Monetária, e aí a vaca irá para o brejo.
Guilherme Melo tem um bom currículo profissional, com sólida formação acadêmica em universidade dos Estados Unidos, mas já se posicionou publicamente, assinando manifesto de críticas ao Banco Central, quando este era presidido por Roberto Campos Neto, e defendendo a redução da taxa básica de juros Selic, que hoje segue no patamar de 15% ao ano, o que torna o juro real no Brasil um dos maiores do mundo.
(A ata da última reunião do Copom, divulgada ontem, anuncia que, na sua próxima reunião, o Comitê de Política Monetária do BC começará um ciclo de redução da taxa de juros, e as apostas indicam uma baixa inicial de 0,50 ponto percentual).
O BC é um organismo eminentemente técnico e, até aqui, posiciona-se com a rigidez exigida para o êxito de sua missão, que é a de salvaguardar a moeda, livrando-a dos efeitos da inflação. Se presidente e seus diretores vêm sustentando uma política monetária contracionista diante de uma inflação que só agora começa a dar sinais de queda. Por sua vez, o governo mantém sua política fiscal expansionista, gastando mais do que arrecada, e para isto conta com o apoio do Congresso Nacional, que acaba de praticar mais um ato contra o equilíbrio das contas públicas.
Acreditem! Ontem, terça-feira, 3, o Parlamento brasileiro aprovou proposta de aumento de vencimentos para os seus funcionários e, de quebra, a criação de 17 mil novos cargos na estrutura da administração pública federal, a um custo de R$ 4,3 bilhões. Isto é mais injeção na veia da irresponsabilidade fiscal. O país não tem mais dinheiro para investir, apenas para sustentar sua máquina, que segue crescendo, porque este é um ano eleitoral.
Outra informação que ontem balançou a política em Brasília e o mercado financeiro em São Paulo foi a de que o BC se recusa a fornecer detalhes da reunião que tiveram, no ano passado, o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, cuja esposa e filhos são donos de escritório de advocacia com contrato de prestação de serviço ao Banco Master ao custo de R$ 3,6 milhões por mês, durante 33 meses.
Ao mesmo tempo, está crescendo a pressão sobre o presidente do Senado, David Alcolumbre, para que instale uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para apurar os responsáveis pelas fraudes praticadas pelo Banco Master, que lesou, também, fundos de Previdência de vários estados, incluindo o de Roraima, que é a base política de Alcolumbre.
Ontem, a Polícia Federal prendeu Deivis Marcon Antunes, presidente do Rio Previdência, fundo de pensão dos funcionários públicos do estado do Rio de Janeiro. Esse fundo investiu R$ 1 bilhão no Banco Master na compra de Certificados de Depósitos Bancários falsos.
O prejuízo do Fundo de Previdência de Roraima, terra natal de David Alcolumbre, foi de R$ 400 milhões.
A resistência de Alcolumbre à proposta de abertura de uma CPMI está alicerçada no argumento de que esse escândalo já está sendo apurado pela Polícia Federal e passará a ser investigado, também, pela CPI da Câmara dos Deputados que apura outro escândalo, o do INSS, no qual estão envolvidos, também, o Banco Master e o seu dono, Daniel Vorcaro, que prestará depoimento na quinta-feira depois do carnaval.
Este colunista já escreveu aqui, e o repete agora: o escândalo do Banco Master tem 99% de chance de terminar em pizza, porque implicados nele estão importantes e conhecidas personalidades com assento no Palácio do Planalto, na Câmara dos Deputados, no Senado Federal e no Supremo Tribunal Federal. E todas elas estão hoje congregadas no que, neste período de pré-carnaval, pode ser chamado de “Escola de Samba Unidos do Banco Master”, cujo samba enredo ensina “Como ganhar dinheiro, enganando os trouxas, impunemente”.
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