Banco Master: há um forte cheiro de pizza no ar
No STF, buscam-se filigranas jurídicas para que a Compliance Zero tenha o mesmo fim da Lava Jato
Centro de excelência do serviço público brasileiro, a Polícia Federal e seus competentes e corajosos agentes estão a desvendar e a exibir, quase diariamente, com imagens fortes – reprisando o que já o haviam feito em março de 2014 na Operação Lava Jato – a putrefata atividade de personalidades dos três poderes desta República Federativa, que deixaram de lado o interesse da coletividade e juntaram no seu bolso, desavergonhadamente, a pecúnia da corrupção. O último episódio envolvendo o senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado, é só mais um. Virão outros.
Ensina a Bíblia que a carne é fraca, e por isto mesmo não resiste aos apelos demoníacos. Mas, além da carne, há o espírito, e este, se regado com a força da fé, suporta e repele as tentações do demônio.
Em todos os núcleos da sociedade humana, há, como sempre houve, desde o Gênesis, os bons e os maus exemplos. Quando um agente da Lei cumpre seu ofício de identificar, perseguir e prender alguém que a feriu pela prática de qualquer crime, ele se sente premiado, e essa premiação torna-se maior quando o criminoso sofre a punição da Justiça. Quando, todavia, isto não acontece, ou seja, quando a Justiça joga no lixo todas as claras provas do crime, o policial sente-se traído e apunhalado; em algumas vezes, até ameaçado porque ousou além do que deveria ousar.
Neste momento, a Operação Compliance Zero – desencadeada em novembro do ano passado pela Polícia Federal, por meio da qual foi revelado o que o ex-ministro da Fazenda, o petista Fernando Haddad, chamou de “o maior escândalo financeiro da história do Brasil”, que são as fraudes do já extinto Banco Master, de Daniel Vorcaro – enfrenta uma ventania de proa. E ela vem de uma ala da própria Polícia Federal, cujo diretor geral, Andrei Rodrigues, que está no cargo por indicação pessoal do presidente da República, não gostou de não ter sido avisado com antecedência sobre a execução de mais uma etapa da operação, a que descobriu a íntima relação do senador Jaques Wagner com Daniel Vorcaro, o dono do Master. O presidente Lula também só soube do evento pela imprensa.
Este é um detalhe importante, mas há outro igualmente relevante: no Supremo Tribunal Federal (STF), que tem três dos seus ministros citados nas conversas do dono do Banco Master, há uma ala que tenta repetir as filigranas jurídicas que levaram à extinção da Lava Jato em 2021. Essa ala, da qual faz parte o ministro Gilmar Mendes, digladia-se com outra ala, liderada pelo ministro André Mendonça, relator do Caso Master no STF, que quer aprofundar ainda mais as investigações, entendendo que há muito ainda a ser apurado.
Estamos muito perto de uma eleição presidencial que, como as duas anteriores, estão, ideologicamente, polarizadas pelas extremas direita e esquerda. A Operação Compliance manchou, há um mês, a biografia do presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, que liderava as pesquisas de segundo turno; agora, ela mancha a história, até então imaculada, do senador Jaques Wagner, estrela de primeira grandeza da constelação petista e, digamos assim, amigo do peito do presidente Lula.
No Palácio do Planalto acendeu a luz de perigo, pois há hoje o temor de que o envolvimento de Wagner no escândalo do Banco Master poderá respingar na candidatura de Lula, o que as próximas pesquisas indicarão, ou não. Tudo o que o PT não deseja neste instante nem desejará nos próximos três meses é alguma surpresa que possa sair das novas investigações da Compliance Zero. Esta, aliás, é uma investigação que já se provou democrática, uma vez que tem apanhado, com a mão na botija, políticos de vários partidos, além de altas autoridades, como ex-ministros do governo e ministros atuais do STF.
Acompanhando a marcha dos acontecimentos, está a população que, atônita, boquiaberta, sem acreditar no que se revela (nunca se imaginou que ministros do STF pudessem ter relações próximas e interesseiras com criminosos do colarinho branco), aguarda que, pelo menos desta vez, os culpados sejam punidos.
Se acontecer agora como aconteceu em 2021 com os criminosos da Lava Jato – que hoje seguem livres, lépidos e fagueiros, gozando as delícias do resultado da corrupção que praticaram – aí será melhor fechar o país para um necessário balanço moral.
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