Adão Linhares: o Nordeste redefinirá o futuro da indústria do Brasil

Diante do powershoring, o especialista assegura: a geografia nordestina é a ideal para localizar empresas consumidoras ultra eletrointensivas de energia. E energia limpa.

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 04:28)
Legenda: As energias renováveis, principalmente eólica e solar, abundantes no Nordeste, garantirão a neoindustrialização do Brasil
Foto: Thiago Gadelha / SVM
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Atenção!! Elaborado pelo engenheiro Adão Linhares Muniz, especializado em energia, o texto a seguir é uma reflexão sobre os desafios e as boas perspectivas que se abrem para a região do Nordeste diante da transição energética. Linhares aborda o conceito de powershoring e aponta esta parte do território brasileiro como a ideal para a neoindustrialização de baixo carbono, atraindo indústrias consumidoras intensivas de energia. E energia renovável.  

Pela oportunidade do tema, por sua importância e pela alta credibilidade do autor, esta coluna publica, nas linhas seguintes, a íntegra da reflexão de Adão Linhares: 

“A Estratégia do Powershoring - O mundo vive uma reorganização de suas cadeias produtivas, impulsionada pela urgência da transição energética. Nesse novo cenário geopolítico e econômico, surge o conceito de powershoring: a realocação estratégica de indústrias, especialmente as de consumo intensivo de energia, para regiões que oferecem energia limpa, abundante e a custos competitivos. 

“O Brasil, e em particular sua região Nordeste, está posicionado de forma única para se tornar um líder global neste movimento, catalisando uma nova onda de industrialização sustentável. Este relatório apresenta uma análise aprofundada de como a expansão da infraestrutura de transmissão de energia, unificando de forma mais robusta os subsistemas elétricos Nordeste e Sudeste/Centro-Oeste, é a pedra angular para a concretização da estratégia de powershoring no país.  

“A análise detalha como a modernização da rede não apenas fortalece o Sistema Interligado Nacional (SIN), mas também cria o ambiente necessário para atrair uma nova classe de consumidores ultra eletrointensivos — como data centers e a cadeia de hidrogênio verde — e viabilizar a descarbonização de setores industriais críticos. A discussão aborda, ainda, o desafio regulatório de classificar esses novos consumidores e a sinergia indispensável com a infraestrutura logística, como os portos estratégicos e a Ferrovia Transnordestina.  

“A Nova Espinha Dorsal Energética e o Vetor do Powershoring - O pilar central desta transformação é o projeto de expansão da capacidade de transmissão entre as regiões Nordeste e Sudeste, detalhado no "Estudo de Expansão das Interligações Regionais – Parte III" da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).  

“Este projeto, que prevê um monumental bipolo em corrente contínua de alta tensão (HVDC), é o que torna a estratégia de powershoring uma realidade tangível para o Brasil. Conforme detalhado pela EPE, a capacidade de exportação de energia do Nordeste será drasticamente ampliada, passando dos atuais 13 GW para cerca de 24 GW até 2033, permitindo a integração de até 60 GW de nova geração renovável 

“A tecnologia HVDC-VSC é crucial para integrar as fontes intermitentes (eólica e solar) que são a base da vantagem competitiva do Nordeste, oferecendo estabilidade e controle preciso do fluxo de energia [3] [4]. Essa infraestrutura é a ponte que conecta a oferta de energia limpa e barata à demanda de indústrias globais que buscam descarbonizar suas operações, o cerne do powershoring. 

“Os Novos Atores: Consumidores Eletrointensivos e Ultra Eletrointensivos - A estratégia de powershoring atrai um novo perfil de consumidor de energia, cuja demanda massiva exige uma reavaliação do arcabouço regulatório. Esses novos projetos, como data centers e plantas de hidrogênio verde, são classificados como "ultra eletrointensivos".  

“Até o momento, o Brasil não possui uma definição formal ou um estatuto consolidado para essa categoria, ao contrário de países como Portugal, que já implementou o "Estatuto do Cliente Eletrointensivo". Esse estatuto português oferece um modelo maduro, definindo critérios claros de elegibilidade (consumo anual, grau de eletrointensidade, exposição ao comércio internacional) e oferecendo benefícios como reduções tarifárias e garantias para contratos de energia renovável, em troca de compromissos com a eficiência energética. 

“O Debate Regulatório no Brasil - A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), por meio da Consulta Pública 23/2024, iniciou o debate para criar regras específicas para esses novos consumidores. O objetivo é evitar uma "corrida do ouro" especulativa pela capacidade da rede, garantindo que apenas projetos maduros e com real compromisso de investimento avancem. 

“As propostas em discussão incluem:  

“• Exigência de Garantias Financeiras: Para assegurar a seriedade dos pedidos de acesso à rede.  

“• Critérios de Maturidade: Exigência de licenças ambientais e contratos firmes (de posse de terreno, água e energia) antes da solicitação de acesso, como defendido por desenvolvedores de projetos de hidrogênio verde como a Fortescue.  

“• Flexibilização Proporcional: Associações como a Brasscom (data centers) e a Abeeólica defendem garantias proporcionais à capacidade contratada e ao real impacto na necessidade de expansão da rede.  

“A criação de um marco regulatório claro e estável é o passo decisivo para destravar os investimentos bilionários do powershoring, oferecendo a segurança jurídica que esses projetos de longo prazo demandam. 

“Vetores da Neoindustrialização Verde - A combinação de energia abundante, infraestrutura de transmissão e um futuro marco regulatório claro posiciona o Nordeste como o local ideal para a neoindustrialização de baixo carbono do Brasil. Hubs de Data Centers Data centers são consumidores ultra eletrointensivos por natureza. 

“A sua localização no Nordeste é estratégica devido à proximidade com cabos submarinos de fibra óptica e, principalmente, ao acesso à energia renovável para cumprir suas metas globais de sustentabilidade.  

“A aprovação da conexão de grandes data centers diretamente à rede básica no Ceará é um exemplo prático do powershoring já em andamento.  

“A Economia do Hidrogênio Verde - O Nordeste é um dos locais mais competitivos do mundo para a produção de hidrogênio verde (H2V). O governo brasileiro, por meio do Plano de Transformação Ecológica, vê o H2V não como uma commodity de exportação, mas como um insumo para adensar a cadeia produtiva nacional. 

A visão estratégica é usar o hidrogênio barato para produzir localmente aço verde, fertilizantes verdes e outros produtos de maior valor agregado, internalizando a industrialização. 

“Queremos aproveitar a vantagem de ter um dos hidrogênios mais baratos do mundo para adensar a cadeia produtiva, fabricar painéis, turbinas e eletrolisadores e, em vez de exportar todo o hidrogênio, empregá-lo na produção de fertilizantes verdes, aço de baixo carbono e outros bens, alongando essa cadeia no país.” (Rafael Dubeux, Coordenador do Plano de Transformação Ecológica) 

“Descarbonização da Indústria de Base - Para os setores de cimento e aço, o powershoring representa uma oportunidade de sobrevivência e competitividade. A migração de plantas ou a construção de novas unidades no Nordeste permitiria o acesso direto à energia renovável e ao hidrogênio verde, viabilizando a produção de "cimento verde" e "aço verde" e atendendo às crescentes exigências de mercados internacionais por produtos de baixo carbono.  

“Iniciativas como o fundo alemão de R$ 150 milhões para descarbonização desses setores reforçam essa tendência.  

“Sinergia Logística: A Conexão Fim a Fim - A estratégia de powershoring só é completa com uma infraestrutura logística que conecte eficientemente os recursos, a produção e os mercados.  

“• Portos Estratégicos - Pecém (CE) e Suape (PE) estão se transformando em complexos industriais-portuários, com mais de R$ 4 bilhões em investimentos para se tornarem hubs de H2V e suportar as novas indústrias.  

“• Ferrovia Transnordestina - Com 1.753 km, a ferrovia é o eixo que conectará o interior produtivo (agrícola e industrial) aos portos, viabilizando o transporte de insumos e o escoamento da produção de forma eficiente e de baixo carbono. 

“Análise Conclusiva: Da Infraestrutura Física à Regulatória - A expansão da interligação elétrica Nordeste-Sudeste transcende uma obra de infraestrutura. Ela é a viabilizadora da estratégia de powershoring, que pode levar a uma profunda neoindustrialização verde do Brasil, com o Nordeste em seu epicentro.  

“A sinergia entre energia renovável abundante, transmissão robusta, logística integrada e um mercado consumidor global ávido por produtos sustentáveis cria uma janela de oportunidade histórica. Contudo, a materialização plena desse potencial depende de um passo crucial: a construção de uma infraestrutura regulatória sofisticada.  

“A definição de um estatuto claro para os consumidores eletrointensivos e ultra eletrointensivos, inspirado em modelos de sucesso como o de Portugal, é fundamental para oferecer a segurança jurídica necessária para atrair os investimentos de longo prazo.  

“Ao fazer isso, o Brasil não estará apenas construindo linhas de transmissão, mas pavimentando o caminho para se tornar uma potência industrial verde, transformando seu potencial energético em desenvolvimento econômico, inovação tecnológica e justiça social.” 

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