Cientistas anunciam novas técnicas para observar o universo usando ideia de Einstein

Não se trata de uma tempestade solar que deixará o mundo sem internet durante um ano

buracos negros
Legenda: Concepção artística de buracos negros colidindo e deformando o tecido do espaço-tempo ao atingirem pulsares
Foto: Reprodução/Aurore Simonnet para o NANOGrav

Nesta última quinta feira (29), cientistas divulgaram importantes descobertas para Astronomia. Não é algo muito fácil de entender, mas tentarei ser o mais didático possível. Deu pra ver a reação dos jornalistas que esperavam algo mais fácil de explicar para seu público. A equipe responsável pelo anúncio utilizou termos muito técnicos então tentarei ser o mais didático possível. 

A primeira coisa que os meus leitores devem ter em mente é a real expectativa da descoberta. Não é algo que vá ter uma aplicação direta no seu dia a dia. Não se trata de uma tempestade solar que deixará o mundo sem internet durante um ano como a fake news que tem circulado nos últimos dias. Contudo, a descoberta anunciada essa semana representa o limite atual do que sabemos sobre o universo.

Me recordo de ter ganhando um Atlas do Universo ainda no ensino médio nos anos 2000. Era cheio de figuras belas e algumas figuras confusas da nossa galáxia. Abaixo eu trago a melhor imagem que temos atualmente da nossa galáxia. Para entendê-la imagine que você é um turista no espaço com um celular capaz de tirar uma foto panorâmica. A sua foto sairia mais ou menos assim. 

Legenda: Via-Láctea pela sonda GAIA
Foto: Reprodução/GAIA/ESA

As manchas claras são bilhões de estrelas e as manchas escuras, poeira a qual não conseguimos ver através dela. Aliás, não conseguíamos. Agora podemos usar outros espectros além do visível. No meu Atlas do Universo já havia uma versão dessas em outros espectros. Eram os espectros de rádio e infravermelho. É como você usar um raio x pra ver através da galáxia. Inclusive já existe uma versão dessas em raio x também.

Há até uma versão em microondas que é muito curiosa porque para onde olhamos no universo muito além da Via-Láctea, observamos o mesmo espectro. Isso ficou conhecido como radiação cósmica de fundo

O que foi anunciado essa semana foi uma outra forma de ver além da nossa galáxia. Agora é possível usar ondas gravitacionais. A vantagem das ondas gravitacionais é que elas atravessam tudo. Se não fosse Albert Einstein, não saberíamos nem que essas ondas existiam. Einstein percebeu que a gravidade afeta o tempo de funcionamento de relógios. Então, o que precisamos é observar relógios precisos.

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Na Astronomia existem estrelas chamadas de pulsares porque elas emitem um pulso que conseguimos ver daqui. Esses pulsares funcionam como os relógios mais precisos do universo. Utilizamos telescópios do experimento chamado NANOGrav, observamos os pulsares durante 15 anos e aplicando a teoria de Einstein foi descoberto que o universo também possui uma radiação em ondas gravitacionais de fundo.

Essas ondas ocorrem quando vários super buracos negros (supermassivos) colidem. Isso mostra que nos confins do universo existem imensos buracos negros com pelo menos 44 milhões de quilômetros de diâmetros.

O que poucos sabem, não foi anunciada apenas uma grande descoberta, mas duas. Logo após a apresentação do NANOGrav foi vez de outro experimento, o chamado ICE Cube. Literalmente, significa cubo de gelo e trata-se de um conjunto de detectores de neutrinos na Antártica. Me recordo da primeira vez que eu ouvi falar de neutrinos. Seria uma partícula muito leve, mais leve até mesmo do que um elétron.

Foi proposta por Wolfgang Pauli em 1930. Ele percebeu que durante o processo de radiação beta, uma pequena quantidade de massa parecia sumir. Pauli supôs que o sumiço dessa massa devia a uma partícula muito difícil de detectar que ficou conhecida como neutrino. Hoje sabemos que os neutrinos viajam pelo espaço sideral e atravessam a Terra. Usando o detector do ICE Cube na Antártica, foi apresentado um mapa de onde vem os neutrinos.  

Legenda: Via-Láctea observada por diferentes técnicas: Ondas de rádio, visível, raios gama e neutrinos
Foto: Reprodução/ICE Cube

Para a surpresa dos cientistas, a nossa galáxia quase não emite neutrinos e os que foram observados vinham de lugares muito distantes do universo. 

Ver essa evolução foi muito empolgante para mim. Pude acompanhar com o passar dos anos novas técnicas para enxergar além da poeira cósmica. Quando olhamos o universo de maneira diferente, descobrimos novas propriedades. Antes eram apenas as ondas eletromagnéticas. E agora, as ondas gravitacionais e os neutrinos vieram complementar nossa visão do universo consistindo em uma verdadeira Astronomia multi mensageira.  



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