Filmes e séries podem ajudar a entender ideias extremistas na política

O problema de quando o escapismo das produções de super-herói e das fantasias apocalípticas é levado para a realidade

Legenda: "Batman Begins", de Christopher Nolan: soluções extremistas que só cabem na ficção
Foto: Divulgação

Nossos cientistas políticos teriam muito a ganhar se maratonassem filmes ou séries de super-herói ou de fantasia. Pode ser Marvel ou DC, ao gosto do freguês, até mesmo "Velozes & Furiosos" ou algum genérico.

Mais do que ninguém, devem estar exaustos diante do material de análise que nossa realidade histérica oferece, minuto a minuto. A ideia, contudo, não é desopilar vendo raios cósmicos, tripas alienígenas e roupas extravagantes. Digamos que Hollywood oferece ao observador político um complemento de leitura.

O que se vê tela algo que é ou o modelo, ou o espelho (possivelmente, as duas coisas) de uma visão de mundo que encontra adeptos por toda parte. E ela é particularmente popular em certo segmento que inclui lideranças políticas, intelectuais de mentirinha e seguidores exaltados. No Brasil, sem esforço encontramos exemplos, diariamente, nas redes sociais e, aqui e acolá, em manifestações de rua. 

Falo de gente que escolhe como quer compreender o mundo, preferindo uma forma que não exiga muito esforço. O modelo eleito é ultrassimplificado, binário, ao limite da estupidez, mas pretensamente divertido. Ao invés de uma realidade complexa, matizada e com tons de cinza, tudo preto no branco, ou preenchido de cores fortes e chapadas. Um mundo dividido entre heróis e vilões, com mocinhos e mocinhas indefesas pelo meio.

A diversão de eliminar os inimigos

Os problemas, claro, precisam ser resolvidos no braço ou na bala. Eliminar o inimigo é não só permitido. Eis o ponto: é também divertido. O outro, nesse caso, é alguém movido por impulsos pouco razoáveis, é mal porque é o vilão e é vilão porque é mal. Simples assim.

Claro, o maniqueísmo não é uma exclusividade do universo ficcional dos super-heróis e de outros da cultura pop, tampouco inerente a eles. Quem lê quadrinhos, por exemplo, sabe que essa doença antiga, de tempos remotos da nona arte, há muito foi superada por seus melhores autores. No entanto, Hollywood está longe de captar a complexidade dos quadrinhos e preferiu apostar numa rentável versão dos tempos simplórios dos quadrinhos anabolizada e mais violenta, temperada com memes e piadinhas.

Não a toa, um autor subversivo como o inglês Alan Moore ganha uma úlcera a cada adaptação de seu trabalho. "V de Vigança", um quadrinho anarquista (não confundir com bagunça, mas à ideologia contra o estado) e antiautoritário, foi traduzido para o cinema como uma obra quase motivacional. E uma série como "Game of Thrones" foi, temporada a temporada, se tornando menos adulta. 

"Se você se diverte com uma dieta constante de programas de vigilantes, por exemplo, quando aparece um presidente que desrespeita o império da lei ou faz justiça com as próprias mãos, em vez de ficar indignado, você vai achar que é 'ok'. Já vimos isso milhares de vezes. Já foi normalizado no cinema e na TV", explicou o crítico cultural norte-americano Peter Biskind.

O escapismo no lugar errado

Biskind fez uma leitura da era Trump a partir dos shows mais populares das últimas décadas. "The Sky is Falling: How vampires, zombies, androids, and superheroes made america great for extremism" (algo como "O céu está caindo: como vampiros, zumbis, androides e super-heróis tornaram a América ideal para o extremismo") trata disso, da ascensão simultânea do discurso extremista, na política e no entretenimento.

Ele mapeia extremismo de direita, de esquerda e obras que manifestam uma visão de centro. Há exemplos clássicos, como o contraditório personagem Batman, que com certa conivência das autoridades se habilita a percorrer caminhos que a lei não permitiria. O modelo de Biskind é oportuno para observar obras mais despretensiosas, como o recente "O Esquadrão Suicida", de James Gunn, em que um grupo de americanos super-poderosos invade uma ilha latino-americana, uma caricata república de bananas, e resolve tudo de forma espetacularizada e onde, claramente, a vida dos nativos importa menos do que a dos "protagonistas".

Legenda: "O Esquadrão Suicida", de James Gunn: ele minar os inimigos é autorizado e divertido
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Ninguém precisa estragar a diversão de tais filmes abraçando a paranoia de que eles infectarão a audiência com suas visões politicamente problemáticas. Importa menos saber quem veio primeiro, se a galinha ou o ovo da serpente, do que entender o processo de retroalimentação dessas duas dimensões.

Não há determinismo aqui. Mas é importante para se entender a que lugar pertencem certas ideias e comportamentos. O escapismo, afinal, não deveria ser exportado para o território da política, como se vê nas falas de caricatas de  lideranças políticas e ideológicas Twitter afora. 

Fim da sessão

A ideia de Biskind certamente não é mais popular, pois pisa o calo de uns e dessacraliza aquilo que a paixão dos fãs coloca em altares. É, contudo, um convite a um olhar mais crítico para o que consumimos, na política e nos momentos de lazer, de preferência tentando trazer menos o modelo da fantasia para o real.

Não faltará quem reclame de "tanta problematização". De fato, não é o que há de mais divertido na vida, mas nem tudo se resolve com um pouco sexo convencional e muita porrada, como certas séries e filmes. Produções desse tipo estão cada vez mais longas. Mas uma hora eles acabam e, ainda que os olhos demorem um pouco a se acostumar, uma vida sem efeitos especiais está à espreita.



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