A promessa certa para 2022 é fazer diferente dos burros

Mudar é a palavra de novo começo de ano, mas exige disposição de agir, às vezes, contra nós mesmos

Legenda: O animal teimoso, com outros nem tanto, na arte do caricaturista francês J.J. Grandville
Foto: Reprodução

Olhando para o meu próprio umbigo, 2021 foi um ano de mudanças sutis, porém definitivas. A tatuagem desejada há 25 anos finalmente marcou a pele. Não venci o receio da dor, fiz com medo e tudo. Os óculos de que fugir por quase quatro décadas chegaram também. O astigmatismo e a miopia venceram.

Baixei a guarda de teimosias antigas — e fui feliz. Comi açaí, bebi chope, passei uma noite ouvindo forró. Sim, sou chato para um monte de coisas. Minha última leitura do ano e a primeira deste são a mesma: "Vento Vadio — As crônicas de Antônio Maria". Virei a página claro. Antes eu detestava crônica, só não dizia abertamente, pois em literatura é exigido uma etiqueta de leitor cultivado.

Detestava a afetação de quem exulta o lirismo, quem repete encantamentos por madrugadas, paixões, boêmia; desejava o mal a quem usa a última palavra da moda a vir com definição de verbete (resiliência e cia.); ou escreve em arremedos novecentistas (missivas, cizânias), com gula de admiração e elogios. Sim, sou chato.

Os livros de crônicas que possuo haviam todos sido rigorosamente ganhos. O do Bom Maria, comprei. Achei bonita a capa, li elogios de outros chatos no Twitter, a escritora Socorro Acioli falou sobre no Instagram e Jeff Bezos me fez um preço camarada ao voltar do espaço.

Legenda: "Vento vadio", coleção de crônicas de Antônio Maria, publicada pela Todavia
Foto: Reprodução

Na contracapa, aspearam o Luis Fernando Verissimo. Comparando-o aos gigantes do gênero, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, todos eles contemporâneos do cronista pernambucano, Verissimo avalia que "Maria era o mais completo, para não dizer o melhor e puxar briga. Ele fazia a crônica lírica e literária dos outros, mas fazia humor superior". Não sou eu, recém-convertido, quem vou vender melhor a palavra do cronista.

Em 2021, neste espaço, mirei muitas vezes no ensaio e, algumas vezes, acertei involuntariamente a crônica. Na primeira vez que percebi que era aquilo que tinha escrito, fiquei um tanto constrangido, menos pela qualidade, mais por ser avesso ao gênero. Mas aquele foi o ano de mandar ao inferno certas coerências caducas. Vinde a mim as crônicas!, de preferência as boas. 

Para 2022, pensando no reino do meu umbigo e na República Federativa do Brasil, quero mais é mudanças. Do tipo que contrariam nossas disposições ranzinzas e as certezas ancoradas não sabemos onde, nem por qual razão. E, fundamental, transformações dispostas a mandar a cobrança alheia cuidar da própria vida.

"Você não gosta disso. Você costuma fazer é aquilo. Você é assim, é de outro jeito" — disparam contra nós gente querida. Nessas horas, mais se assemelham àqueles resenhistas que veem filmes procurando as mancadas do continuísta. Gente assim não manja de cinema, porque deixa de olhar nos olhos do filme, para reparar se ele vem com a roupa puída. Você vai ouvir quem não te olha nos olhos?

Espero ir à contramão dos burros (refiro-me aos animais, claro, mas não só a eles). Desempancar mais. É assim que as histórias avançam, nos filmes, nas crônicas, na vida.