Ofereceram-me um salário maior para um cargo inferior. Devo aceitar?

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: Sentir medo é legítimo e até importante para evitarmos atitudes impulsivas.
Foto: Shutterstock

Quando surge uma nova oportunidade, acompanhada de vantagens como salário mais alto, maior flexibilidade de horário e perspectivas de crescimento na carreira, a decisão parece óbvia: aceitar e seguir em frente.

No entanto, quando isso implica assumir um cargo inferior ao atual, a dúvida inevitavelmente se instala. Aceitar ou não, eis a questão!

O primeiro pensamento sempre é referente à jornada da carreira: isso sinalizará ao mercado um declínio profissional? Continuarei sendo competitivo se tomar essa decisão? Depende!

Você pode comunicar isso ao mercado e ser visto como um profissional que sabe muito bem o que deseja para a sua carreira.

Mas, antes de apresentar algumas reflexões importantes para essa tomada de decisão, quero destacar que nem sempre a hierarquia é o único parâmetro para medir evolução profissional.

Em muitos casos, aceitar um cargo com escopo diferente pode abrir portas estratégicas que um movimento linear ascendente não traria. Já pensou sobre isso?

Pensar dessa forma exige mudança de perspectiva e nem sempre é fácil!

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Sentir medo é legítimo e até importante para evitarmos atitudes impulsivas, mas sair de uma mentalidade fixa para uma mentalidade de crescimento exige coragem para deixar a zona de conforto e avaliar as possibilidades racionalmente.

O primeiro passo é identificar o que realmente está sendo um fator impeditivo para o “sim”, até mesmo porque o motivo pode ser: “estou feliz onde estou e vejo perspectivas de crescimento aqui!”.

Mas, se este não é o caso, pense sobre “por que não?”. Responder esta pergunta será libertador e o colocará em contato com o que realmente está acontecendo, sem rodeios ou subterfúgios.

Muitos podem ser os motivos para a recusa de uma proposta como esta, e abaixo trago os mais comuns. Será que você se identifica com algum deles?

Por que recusamos?

1. Apego à posição: olhar a hierarquia como indicador de crescimento impede que excelentes oportunidades sejam perdidas. Imagine que hoje você atua como pleno na área de tecnologia no Brasil e recebe uma oportunidade como Júnior em uma empresa internacional. Será que não vale a pena?

2. Avaliação do mercado: muitos profissionais têm medo de desvalorizar o seu ‘passe’ ou de serem vistos como pessoas sem consistência e um plano claro de carreira. Isso pode acontecer, entretanto não é uma regra. Dependendo dos motivos que o levaram a esta decisão, sua imagem ficará incólume.

3. Desvalorização do currículo: o currículo é uma ferramenta de Storytelling que conta a história da sua vida profissional e para que os elementos dessa história sejam bem estruturados, de modo que os porquês de cada momento profissional precisam ficar claros (incluir principais resultados alcançados, o que aconteceu em cada transição profissional etc.). É comum encontrar currículos que se limitam apenas a datas de admissão, demissão e principais atribuições. Isso está ultrapassado e não reflete o que realmente aconteceu em cada desafio.

4. Arrependimento: no lugar de começar pelo ‘e se?’, inicie pelo ‘por que?’. Depois, pergunte-se: ‘e se?’. Vou explicar! Pensar sobre a tomada de decisão, bombardeando a mente com perguntas, tais como: “E se der errado?”; “E se eu me arrepender?”; “E se eu não for bem recebido?”; nos dará suposições que não têm base racional, e isso pode prejudicar uma avaliação mais profunda. Inicie se perguntando: “por que é uma possibilidade?” e depois de explorar todos os motivos, pense no plano B: “e se?”.

5. Crenças e sabotadores: muitas vezes não é o mercado nem a hierarquia que pesam na decisão, mas as próprias crenças que carregamos. Medo de julgamento, perfeccionismo ou necessidade de aprovação podem se transformar em barreiras invisíveis. Reconhecer esses sabotadores é essencial para que a escolha seja feita a partir de critérios racionais e alinhados ao propósito, não por insegurança ou pressão externa.

Se você conseguiu identificar os fatores que podem estar pesando contra a proposta, sejam eles externos, como o mercado e a hierarquia, ou internos, como crenças e sabotadores, já deu um passo importante rumo a uma decisão mais consciente.

A partir daqui o exercício deixa de ser apenas sobre o que pode impedir e passa a ser sobre o que pode impulsionar. É hora de olhar para o futuro e ponderar três aspectos fundamentais antes de dizer sim ou não.

Não caia na armadilha de deixar o acaso decidir por você, acreditando que se algo der errado é porque não era para acontecer. Decisões estratégicas pedem clareza e intencionalidade.

O que considerar antes de decidir?

1. Propósito e momento de vida: este movimento está em sintonia com seus objetivos pessoais e profissionais? Às vezes, uma decisão que parece “retrocesso” é, na verdade, um reposicionamento alinhado ao que você realmente valoriza. Vale a pena se apegar a uma posição hierárquica? Quais são as perdas e ganhos dessa decisão e quem será impactado se você aceitar ou recusar?

2. Aprendizado e visibilidade: a nova posição oferece acesso a competências, networking ou experiências que você não teria no cargo atual? Isso pode ser um investimento estratégico de médio prazo. O que preciso fazer para que este investimento retorne, trazendo-me benefícios superiores aos atuais?

3. Narrativa de carreira: como você contará essa escolha no futuro? Se for capaz de explicar de forma coerente o motivo da decisão, o mercado enxergará clareza de propósito em vez de perda de status. Se ao explicar para si mesmo, enganchar em algum ponto, precisa repensar porque deseja fazer isso.

Perceba que não existe uma fórmula pronta. A resposta está menos no cargo em si e mais na coerência da escolha com seus valores, objetivos e estratégia de carreira. O que importa não é se o título é maior ou menor, mas se a decisão expande suas possibilidades e o aproxima da vida profissional que deseja construir.

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda! Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram: @delaniasantosds. Aproveite para se inscrever no canal do YouTube: @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!

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