Não somos fantasia de carnaval

Performar travestis, pessoas negras e indígenas como fantasias de carnaval pode alimentar estereótipos que reforçam lugares de subalternidade e discriminação

Escrito por
Dediane Souza producaodiario@svm.com.br
Foto: Ismael Soares

Fortaleza está em clima de festa! Sob a nova gestão na Secretaria da Cultura de Fortaleza, o Ciclo Carnavalesco de 2025 homenageia o grande artista Ednardo e o seu Pavão Mysteriozo, com a promessa pública de uma folia mais descentralizada e diversa para a cidade. É pensando nesse mote que proponho refletirmos brevemente sobre como tratamos as pessoas negras, transexuais, travestis e indígenas no contexto do carnaval, especialmente na produção das nossas fantasias.

Importantes intelectuais como Lélia Gonzalez e Roberto DaMatta já refletiram sobre a capacidade do carnaval brasileiro de apresentar certo aspecto subversivo e desafiar algumas hierarquias e normas estabelecidas para raça, classe e gênero, por exemplo, apesar das suas raízes cristãs. Em que outro período do ano sairíamos às ruas completamente cromados de glitter sem causar o estranhamento alheio? Poderia um Pikachu, um astronauta ou a atriz Fernanda Torres tomarem uma gelada às 10h da manhã, em plena segunda-feira do Conjunto Ceará? No carnaval essa é uma cena possível.

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Reconhecer a magia do carnaval e a sua irreverência não significa ignorar, no entanto, que a festa é parte e reproduz sistemas de sociabilidade presentes no resto do ano. É por isso que assistimos ao longo da história a transformação de grupos sociologicamente minoritários em fantasias, arremedados por grupos hegemônicos que adicionam um aspecto paródico a modos de vida que lhes são alheios.

Mesmo quando há a nobre intenção de homenagem, performar travestis, pessoas negras e indígenas como fantasias de carnaval pode alimentar a manutenção de estereótipos que reforçam lugares de subalternidade e discriminação, então tenhamos cuidado.

Vejamos o caso de nós, mulheres pretas, travestis e transexuais brasileiras, que fazemos parte de um contingente de mulheridades marcado por opressões que envolvem a tríade gênero, raça e classe. Trabalhamos durante séculos nas lavouras escravocratas ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras e prostitutas. Provavelmente seremos nós as que venderemos as latinhas de cerveja, que faremos a limpeza, a segurança e os cabelos das foliãs brancas do bloquinho. Fomos vulnerabilizadas economicamente, sofremos pela violência doméstica, pela solidão afetiva e estamos alijadas dos espaços de representação e participação social, mas vem o carnaval e… vráhhh, viramos fantasias. É mole? 

Sueli Carneiro e Lélia Gonzalez observaram com perspicácia o fenômeno da “mulata tipo exportação”, que cria força na folia momina e confunde os menos atentos, fazendo-os acreditar em uma falsa democracia racial. Coisa parecida acontece quando outras minorias historicamente discriminadas viram fantasia. Para entender isso, basta nos fazermos algumas perguntas: depois da quarta-feira de cinzas, querem as pessoas brancas, heterossexuais e cisgênero vestir as nossas dores? O quão divertido seria experimentar, para além da nossa estética, o extermínio sistemático, o racismo e travestifobia? Como será viver mais de 360 dias por ano no país com o maior número de assassinatos de travestis no mundo? 

“Dediane, viraremos fiscal de fantasia agora”? Eu mesma não!

Se me virem pelos Pinhões ou na Domingos Olímpio, não me venham problematizar nada. Só penso que o carnaval é uma das manifestações culturais de maior expressão no país e que nosso modo de ocupá-lo é uma estratégia de visibilidade, tanto para denunciar quanto para reforçar um sistema de opressão, de modo que podemos ter um olhar mais atento e fazermos escolhas que caminhem por uma avenida de mais respeito às identidades, à história e às subjetividades das pessoas.

A criatividade é amiga íntima do carnaval brasileiro e podemos, sim, reinventar as nossas fantasias sem recorrer à estigmatização de travestis, pessoas negras, povos ciganos e indígenas.

Sigamos com alegria, aproveitando a festa e, sempre que pudermos, nos lembremos de fortalecer os corres por uma sociedade de respeito à diversidade, porque não somos fantasias!