Análise: Fortaleza de Enderson é o oposto de Ceni. O medo de perder é maior que a vontade de ganhar

Se o torcedor se acostumou antes a ver um time que corria riscos e jogava em busca da vitória, a partida contra o Bahia foi uma decepção, com uma clara demonstração de time que jogou mais para não perder que para ganhar

Enderson Moreira, técnico do Fortaleza
Legenda: O técnico do Fortaleza, Enderson Moreira, não tem conseguido implementar uma mentalidade vencedora no Fortaleza
Foto: THIAGO GADELHA

Desde que Rogério Ceni assumiu o comando do Fortaleza, uma frase o acompanhou. "Improvável ganhar se não assumimos a possibilidade de perder". Ceni acredita tanto neste pensamento que o tem como um verdadeiro mantra. Tanto que esta frase é a foto de WhatsApp do ex-goleiro. Pois bem. O Fortaleza que o torcedor se acostumou a ver entre 2018 e 2020 é o oposto do que ele vê hoje, sob comando de Enderson Moreira, em que o medo de perder é maior que a vontade de ganhar.

A derrota do Fortaleza para o Bahia, na semifinal da Copa do Nordeste, vai muito além dos pênaltis. Não se trata somente das quatro penalidades convertidas pelos baianos, contra as duas dos cearenses. Mesmo que tivesse vencido nas cobranças da marca da cal, a crítica sobre o Tricolor ocorreria, porque a atuação foi péssima. Simples assim.

Postura

Jogadores do Fortaleza deixam gramado do Castelão
Legenda: Fortaleza enfrentou dificuldades financeiras na temporada 2020
Foto: Thiago Gadelha/SVM

A postura apresentada na Arena Castelão durante os 90 minutos do empate em 0 a 0 no tempo normal foi desanimadora. O Fortaleza jogou com mais medo de perder que com vontade de ganhar. O próprio Enderson, com outras palavras, deixou escapar isso na entrevista coletiva, ao explicar a estratégia para montar o plano de jogo.

"O que a gente buscou foi neutralizar algumas ações do Bahia", disse ele, ao justificar a escalação com três volantes.

Numa semifinal de Nordestão, atuando em casa, o Fortaleza viu o Bahia se impor e ser superior o jogo inteiro. Por outro lado, se limitou a tentar contra-atacar quando possível (sem sucesso). Na metade final do 2º tempo, fez cera para levar o jogo para os pênaltis, assumindo uma postura de quem não queria tentar resolver a parada no tempo normal, algo que o Bahia tentou.

Pegando um recorte mais amplo, o Leão do Pici fez mais partidas ruins que boas. Conseguiu resultados positivos, mas levou pressão de times como 4 de Julho, Caxias, Ypiranga, CSA. A melhor atuação na temporada foi justamente na vitória por 2 a 1 sobre o Bahia, na fase de grupos.

Mentalidade

"O Fortaleza precisa virar a página Rogério Ceni. É preciso seguir em frente". Concordo 100%. Mas uma comparação com o maior treinador da história do clube é inevitável quando foi ele o principal responsável por trazer uma mentalidade vencedora e que contagiou a todos do clube, e que é tão divergente com a mentalidade do atual treinador.

Repito essa palavra: mentalidade. O futebol é cruel com quem não tem mentalidade vencedora.

Não tiro a razão do torcedor, que se acostumou a ver um time que também foi derrotado em vários momentos, mas assumia riscos e jogava para tentar vencer. A minha dúvida é se Enderson é capaz de entregar isso.