Em novo álbum, Selvagens à Procura de Lei supera mágoas e retoma conexão com Fortaleza
Lançado nesta sexta-feira (21), ‘Pivete’ é o segundo álbum da nova formação da banda, anunciada no ano passado.
Quando anunciou o lançamento do primeiro disco da nova fase da banda Selvagens à Procura de Lei, que entrou em hiato e foi reformulada entre 2024 e 2025, o músico Gabriel Aragão – único membro da formação original – não amenizou o impacto das turbulências com os antigos membros em suas composições: “Y”, álbum lançado em maio do ano passado, foi mesmo um típico álbum de término, nascido da raiva, da dor e “do sentimento de traição”.
Quem escuta o álbum, nomeado com uma letra que indica caminhos distintos, não tem dúvidas do propósito do vocalista e compositor. Tão diretas que possuem um didatismo exagerado, muitas das canções poderiam ser mensagens de áudio enviadas aos ex-parceiros de banda, com quem Gabriel dividiu a rotina por 15 anos.
Como ocorre em todo término, porém, a fase do “luto” parece ter sido superada. Se “Y” tem como principal mote a importância de saber a hora de mudar a rota, o álbum “Pivete”, lançado nesta sexta-feira (21), foca na sensação de pertencimento que há em entender que existe para onde voltar.
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Um resgate às raízes fortalezenses do grupo desde a fotografia de capa, que tem como cenário a histórica Praça dos Leões, no Centro da capital cearense, o trabalho demonstra que o grupo, hoje formado por Gabriel Aragão – vocalista e único membro da formação original –, Jonas Rio (baixo), Plínio Câmara (guitarra) e Matheus Brasil (bateria), parece ter encontrado sua nova voz, olhando menos para o passado e mais para o futuro.
Com letras e inspirações que resgatam a essência indie dos SAPDL, mas com arranjos mais pesados, fruto da bagagem dos novos músicos e da inspiração no grunge dos anos 1990, o novo álbum deixa de lado os desencontros e desentendimentos públicos que causaram a ruptura da formação original da banda em 2024 e foca em ser um álbum conceitual, que conta a história de um homem do nascimento à velhice.
Várias das 20 faixas de “Pivete” contam com participações especiais, com nomes como Ailton Krenak, Claudine Albuquerque, Makem, Tatá Aeroplano, Arnaldo Baptista e Rodger Rogério, entre outros nomes importantes da cena artística cearense e brasileira.
Em entrevista à coluna, Gabriel explica que “Pivete” nasce de um desejo de fazer um disco para Fortaleza – coincidentemente, e de forma bem-vinda, no ano em que a Capital completa 300 anos.
“Eu queria muito fazer um disco conceitual para a cidade – tipo quando a gente escuta o ‘Clube da Esquina’ e a gente sabe que é uma parada muito bonita, de jovens daquela época que moravam ali. É uma carta de amor para a terra natal deles, ao mesmo tempo é uma galera, todo mundo participando. Então, era uma vontade de fazer, nesse sentido, uma carta de amor para a cidade, juntar a galera e tirar essa foto daquele momento”, explica.
A fotografia de capa, feita por Igor de Melo e com design de Juvenal Joaquim, demorou quase um mês para ser tirada. Com inspiração em capas de discos clássicos, como “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” (1967), dos Beatles, e “Tropicália ou Panis et Circenses” (1968), que reúne ícones do movimento tropicalista, ela reúne personalidades e elementos que remetem à arte cearense.
O artista conta que muitas músicas de “Pivete” já estavam prontas antes mesmo de “Y” ser lançado. O disco lançado no ano passado, no entanto, atropelou o projeto que deveria ser, segundo ele, o quinto álbum de estúdio do Selvagens.
Por isso, passadas as turbulências, o artista retomou algumas das letras, decidiu regravar algumas de seu projeto solo – “Loka América” e “Cidade Baixa” – e foi compondo as demais canções com os colegas de banda entre um show e outro. “Queria tirar tudo e colocar para fora, sem me preocupar em decisões de mercado”, relata.
Inspirado por seus “heróis dos anos 60 e 70”, Gabriel sugeriu aos novos parceiros de banda um disco mais analógico, extenso e com “sujeirinhas” de gravação: guitarras gravadas no hotel e trechos de voz da demo entraram em versões finais de algumas músicas, contrariando a lógica de músicas excessivamente produzidas.
A produção do álbum, mais uma vez, contou com a parceria com o baterista e produtor Matheus Brasil, também responsável pela produção de ‘Y’.
Lançar um novo disco apenas um ano e três meses depois do último, segundo Gabriel, faz parte de uma estratégia criativa: lançar um álbum por ano, não para atender demandas da indústria, mas para evitar lapidar demais a identidade do que for criado.
O destaque de “Pivete” talvez seja justamente essa produção pensada para parecer um registro ao vivo, o que pode render boas apresentações para os fãs. Se no trabalho anterior as letras não foram um destaque, mesmo na “reorganização” da banda é possível perceber que há um alinhamento sonoro interessante entre os músicos, que passa das referências para a execução e foi aperfeiçoado após quase 40 shows e mais de um ano de ensaios.
Além do peso da guitarra e da bateria, o retorno de um olhar mais político e menos autocentrado fez bem à banda. O entendimento de que bons álbuns exigem um trabalho intenso e coletivo, também. Talvez o momento mais bonito do disco seja justamente a última frase, quando Rodger Rogério encerra “Cidade Baixa” com a frase entoada no refrão: “Nós estamos aí”.
O recado do refrão não é à toa, ainda que já tenha sido cantado por Gabriel outras vezes, após o lançamento de seu disco solo, “Rua Mundo Novo” (2023). Agora sim, a nova banda está presente.
Veja a setlist do álbum:
- “Lido Brabo”
- “Presença”
- “Loka América”
- “Quem Eles São?” (part. André Frateschi)
- “Menino De Ouro” (part. Soledad)
- “Amanhã Tu É Outro”
- “Eu Não Moro Mais Aqui”
- “Pivete”
- “Guerra” (part. Ailton Krenak)
- “Cascadura”
- “Manual do Jogo Da Vida” (part. Moisés Loureiro)
- “Trem Doido” (part. Tatá Aeroplano)
- “Revoada”
- “Você Ama Me Odiar”
- “Hey Tatá” (part. Tatá Aeroplano)
- “Tipo Mara Hope” (part. Silvero Pereira)
- “Dia De Rua” (part. Leo Suricate)
- “Gira Gira” (part. Claudine Albuquerque)
- “Trem Doido Reprise” (part. Arnaldo Baptista)
- “Cidade Baixa” (part. Rodger Rogério, Nayra Costa, St. Petersburg Studio Orchestra)
Nova turnê deve passar pelo Ceará em breve
Apesar de “Pivete” ter sido lançado nesta sexta-feira, os Selvagens já estão na estrada com o trabalho há mais de uma semana. A turnê começou com um evento especial em Fortaleza: a primeira audição pública do disco, no último dia 12, na Hifive Discos e Bar. O primeiro show ocorreu na última sexta-feira (14), em Belo Horizonte (MG), seguido por uma audição em São Paulo nesta semana.
O próximo show será na noite de hoje, no Sesc Guarulhos, celebrando o lançamento oficial do álbum. Nos próximos meses, a banda deve passar por Araruna (PB), João Pessoa (PB), Brasília (DF), Goiânia (GO) e Quixeramobim (CE), mas ainda não há datas previstas para a capital cearense. No entanto, fazer show em Fortaleza “é prioridade”, afirma Gabriel Aragão.
A ideia, segundo o vocalista, é fazer um show aberto, gratuito, para que todos os fãs possam comparecer. Para que isso ocorra, a banda está em negociação com um equipamento público e busca uma data ainda neste semestre.
“Está nessa parte de campanha, então tudo fica um pouco embaçado, assim. Mas, caso não role isso, eu tenho um plano B assim, de fazer por conta própria”, afirma Gabriel. “Não rolando, a gente faz de um jeito ou de outro”, completa.
Questionado pela coluna sobre a possibilidade de algum show alusivo aos 15 anos do primeiro álbum do Selvagens à Procura de Lei, “Aprendendo a Mentir” (2011), Gabriel destaca que a banda tem focado principalmente no novo trabalho, mas diz não descartar a possibilidade. “Você acabou de me dar uma ideia boa”, ri.
Além dos shows de “Pivete”, a banda também deve fazer shows em homenagem aos 80 anos de Belchior, um projeto iniciado ainda na pandemia, mas que não havia tomado forma ainda, segundo Gabriel. O primeiro show do tributo também será neste fim de semana, no Sesc Mogi das Cruzes (SP).