‘Baile do Beco’ leva reggae, rap, forró de favela e protagonismo feminino à Praia de Iracema
Segunda edição do projeto será realizada no Centro Cultural Belchior e tem acesso gratuito.
Criado por artistas da cena fortalezense, o Baile do Beco ganha nova edição na noite desta sexta-feira (17), durante a programação do Festival Bora Fortaleza, na Praia de Iracema. Com discotecagem e apresentações musicais que contemplam diferentes gêneros musicais que fazem sucesso na Capital, como o reggae, o rap e o forró de favela, o projeto se destaca pelo line-up quase inteiramente feminino e focado em artistas de bairros periféricos, muitas vezes são pouco valorizados localmente.
A festa começa com um set de reggae da DJ PretaBelzinha e segue com a DJ Angel History, que apresenta o melhor do “forró de favela”, e a DJ Negona, que agita o baile com um set de funk proibidão.
Depois, o rap toma conta com o “Set das Piores”, apresentação que reunirá oito artistas da cena de Fortaleza – Cabulosa, Felina, Dona, Lany Bandida, Pretassa, Zabeli, Souma e DJ Nayma – para uma sessão de grime ao som de beats de boombap, funk e drill. Entre a discotecagem e o Set das Piores, o MC da ZL sobe ao palco para uma breve apresentação.
A ideia de contratar apenas um MC homem para o evento surge quase como uma brincadeira, mas também ecoa como protesto: enquanto muitos festivais de rap enchem seus line-ups de rappers homens e contratam, no máximo, uma rapper mulher, o Baile do Beco faz o contrário.
“Não é para ser violento, é para ser crítico mesmo, sabe? É para fazer a galera pensar, para fazer os homens também pensarem”, pontua Helen de Sá, produtora, maquiadora e idealizadora da Produtora Princesinha de Favela, responsável pelo projeto.
Após o Baile do Beco, que começa às 18h, a festa segue no Centro Cultural Belchior com o DJ Carlos do Complexo (RJ), que encerra a programação desta sexta-feira. Ele se apresenta por volta das 21h.
Momento oportuno para quem deseja conhecer novos talentos da música cearense, o baile tem como premissa a valorização da cultura produzida em territórios como Grande Bom Jardim, Jangurussu e Serrinha, entre outros.
“Para fazer essa curadoria, a gente pensa o território, em quem são as meninas que estão produzindo nos territórios. Inclusive, a gente está trabalhando e iniciando essa pesquisa, fazendo esse mapeamento, para também conhecer novas artistas que, muitas vezes, não entendem como chegar nesse circuito, como chegar nos editais, como chegar nos coletivos”, destaca Helen.
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A produtora destaca que, mais do que “furar a bolha” e chegar a novos públicos, o baile tem como intuito fortalecer a cena local de artistas mulheres, negras e periféricas, focando na profissionalização dessa cena e no público fiel da cultura produzida diariamente nos territórios.
“Às vezes, esse desejo de furar as bolhas e chegar em espaços que muitas vezes não são espaços feitos para nós, que são espaços que a gente tem que abrir mão da nossa identidade para chegar neles… Eu penso que a gente também pode olhar por um outro viés, de a gente fortalecer a nossa bolha”, aponta.
“Existe um circuito periférico, um circuito negro artístico e cultural muito potente em Fortaleza, muito potente no Ceará, que tem total condição de disputar [espaços]. A gente não precisa simplesmente tentar chegar em lugares que muitas vezes nos discriminam, são violentos com a gente”, conta.
A primeira edição do baile ocorreu na estreia do Festival Bora, em julho do ano passado. Nesta segunda edição, que repete a parceria com o Instituto Iracema, o evento segue com o objetivo de resgatar a cultura dos bailes de beco das periferias da Capital e reunir todos os ritmos “que fazem a alegria da favela”, segundo Helen de Sá.
Baile deve ganhar edições fora do festival
O Baile do Beco faz parte do selo “A Pior Resenha que Tem”, outro projeto idealizado por Helen e as demais integrantes da Princesinha de Favela. Segundo a artista, tanto o nome do selo quanto o título “Set das Piores” nasceu como uma forma de ressignificar violências sofridas pelas integrantes do coletivo.
“‘A Pior Resenha que Tem’ vem desse pensamento de que somos as ‘piores’, a sociedade pode nos ver como piores, mas aí a gente vai e ressignifica isso”, comenta.
Após o evento desta sexta-feira, Helen conta que a ideia é ampliar o Baile para levá-lo a outros eventos. “A gente entende que é um projeto piloto, né? Mas é um projeto que a gente está investindo bastante, acreditando muito”, comenta.
“Tenho certeza que essa edição vai ser um sucesso, e espero que a gente consiga levar para os equipamentos, que a gente consiga levar para os festivais e, quem sabe, rodar o Brasil, né?”, projeta.
Princesinha de Favela: de projeto de beleza à produtora multicultural
Hoje um projeto focado em diversas linguagens artísticas, a produtora Princesinha de Favela começou como uma forma de nomear o trabalho que Helen de Sá, na época com 24 anos, fazia no mercado da moda e da beleza.
Já trabalhando como maquiadora, ela começou a chamar amigas do bairro Serrinha para modelar para fotos que divulgassem seu trabalho e, ao mesmo tempo, impulsionassem outras mulheres de seu território.
“As minhas amigas queriam ser modelos e eu, maquiadora. Então [pensei] ‘vamos fazer o nosso portfólio e vamos colocar essas fotos’”, lembra Helen. O primeiro ensaio foi em uma ocupação onde hoje funciona uma Areninha e fez tanto sucesso que outras meninas começaram a procurá-la para pedir para modelar. Assim, a artista percebeu que tinha um projeto precioso nas mãos.
“Eu não estudei para ser produtora, me descobri produtora, me tornei produtora na marra, na tora, porque a gente fazia o que tinha que fazer”, brinca Helen. “Não foi nada planejado, não foi: ‘ai, vamos ganhar dinheiro com isso’, não. A gente pensou ‘a gente tem que fazer por nós e pelas nossas’”, completa.
A produtora conta que entrar no mercado de música e eventos veio também como estratégia para se apropriar de outras oportunidades profissionais. “Infelizmente, em Fortaleza tem essa questão de que é muito difícil você viver só sendo artista”, comenta.
“Se eu pudesse, eu seria só maquiadora. Eu amo, eu tenho muito prazer nisso, mas a gente entende que a gente também tem que se utilizar de recursos e que a gente também precisa se apropriar desses espaços, que são também espaços de decisão, espaços de você montar a equipe, como no caso do Baile do Beco, uma equipe totalmente de mulheres, mulheres negras e mulheres periféricas”, destaca.
Confira a programação completa da segunda edição do Baile do Beco:
- 18h – DJ Preta Belzinha
- 18h40 – DJ Angel History
- 19h20 – DJ Negona
- 20h – MT da ZL
- 20h20 – Set das Piores
Serviço
Baile do Beco
Quando: Sexta-feira, 17 de janeiro
Horário: A partir das 18h
Onde: Centro Cultural Belchior (R. dos Pacajus, 123 - Praia de Iracema)
Gratuito
Mais informações: @produtoraprincesinhadefavela e @festivalborafortaleza