Quando tristeza, dor e medo só conseguem ser expressos sob a forma de raiva

Escrito por
Alessandra Silva Xavier ceara@svm.com.br
Foto: Shutterstock

Quando a capacidade de amar e ser amado, se sentir seguro e confortável consigo, de confiar nos próprios pensamentos, experimentar confiança no ambiente, ser capaz de autoria e expressão dos próprios pensamentos, não se sentir ameaçado diante da alteridade, lidar com fragilidades, vergonhas, perdas, poder sentir-se estável e versado em acomodar as emoções e a diversidade de afetos; podemos sentir, conviver e expressar a complexidade psíquica que nos constitui.

Entretanto, para desenvolvermos a capacidade de transitar em meio a intensidades de experiências que as relações nos oferecem, é preciso termos desenvolvido a capacidade de conter, elaborar, refinar e oferecer destinos múltiplos ao vivido. Quanto mais inseguros, sob maior tensão e com menos recursos psíquicos estivermos, mais reféns dos impulsos estaremos.

Veja também

Enquanto emoção primária básica e necessária para a sobrevivência, a raiva pode ser para muitas pessoas, a emoção prioritária de expressão ao longo da vida; tristeza, medo, angústia, solidão, frustração, insegurança, vergonha, excitação, passam sem elaboração pelas funções psicológicas, sem nomeação e consequentemente possibilidade de integração e expressão e são vividas apenas enquanto raiva.

O lidar com a raiva acarreta implicações éticas, estéticas, psíquicas e civilizatórias.

A raiva é imprescindível para a sobrevivência, quando se torna apta a empregá-la em atividades socialmente aceitas como: esporte, trabalho, ciência e artes, auxiliando no desenvolvimento da cultura e da sociedade.

Quando constitui a única emoção disponível para o sujeito, e a única que integra o seu repertório emocional, amiúde relacionada a padrões culturais no expressar e legitimar emoções, a falhas no desenvolvimento emocional que permita integrar emoções, a modelos familiares na forma de resolver conflitos e expressar afetos, adoecimentos psíquicos (depressão, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno de ansiedade, TDAH, transtornos de personalidade), ou fatores neurológicos, os danos podem ser imensos para o sujeito e para a sociedade.

Todas as pessoas sentem variadas emoções; e aqueles que costumam expressar somente raiva, não é porque não sintam outras coisas, é porque a raiva virou a única emoção para expressar e condensar todas as outras.

Infelizmente, existe um padrão cultural que associa raiva à força, poder, que os conflitos são ganhos por "quem fala mais alto", que os problemas são "resolvidos na força", que a raiva é uma forma de expressar a dor e obter domínio e controle sobre os outros, de obter o que se deseja e de fugir da fragilidade e das perdas, o que demarca aspectos culturais e históricos de opressão e violência nas relações intra e interpessoais.

Então, diante do medo, da impotência, da angústia, muitas pessoas não conseguem diferenciar o que estão sentindo e por uma série de fatores, desde o convívio com pessoas que sempre expressaram raiva enquanto forma de expressão emocional e resolução de conflitos, poucos recursos emocionais para lidar com as emoções e baixa autoestima, até questões mais graves de sofrimento psíquico podem transbordar continuamente inseguranças e dor em contínuas e constantes expressões de raiva.

Consequentemente, a raiva nessas situações, evidencia um distanciamento emocional, onde a pessoa não consegue lidar com a emoção subjacente e acarreta dificuldades nas relações familiares, no ambiente de trabalho, na própria saúde mental e em problemas físicos como hipertensão, questões cardíacas, musculares, gastrointestinais e psicossomáticas.

Enquanto parte de mecanismos de defesa podemos expressar uma emoção no seu oposto, ou seja, ao sentirmos fragilidade, podemos como forma de proteção, expressar raiva ou agressividade para aparentarmos uma falsa proteção diante da vulnerabilidade. A raiva contínua, fragiliza os laços consigo, com os outros, com a capacidade de pensar, criar, amar e viver.

Assuntos Relacionados