Quando as mulheres viram cárceres e prisioneiras de si

Preste atenção porque é que você julga ou se ofende com o comportamento de outra mulher

Escrito por
Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Mulheres são estimuladas a atacarem as mulheres que se diferenciam
Foto: Shutterstock

Sobre o corpo feminino são construídos inúmeros desejos e projetos de domínio e controle. Representante do que aciona o desejo e a falta, ao longo da história é geralmente sobre ele que incidem discursos de opressão, discriminação tentando conter, dominar, silenciar, subjugar, seja sob a forma de discursos científicos, religiosos, educativos, morais, políticos ou artísticos. 

A sexualidade feminina é muitas vezes equiparada à origem do mal e àquilo que se deve evitar e proteger, alimentada pelo poder do patriarcado, do racismo estrutural e pelo jogo de poder econômico e político.

Desta forma, estes discursos perduram transgeracionalmente e não é incomum serem incorporados pelas mulheres em seus processos educativos, de socialização e produção identitária.  Assim, passam a aceitar, reproduzir e agir como se o próprio corpo, a própria existência e a própria sexualidade fossem realmente portadoras de todo o terrível que a misoginia propõe. Desta forma, muitas mulheres atacam outras mulheres, oprimem os discursos de libertação de outras mulheres, submetem-se a posições inferiores em trabalhos, na família, silenciam corpos, desejos, ideias. 

Ao silenciar a possibilidade de existir e produzir autonomia, pensamento crítico e voz definham e adoecem. Silenciadas e culpadas pela impossibilidade do desejo, da diversidade, resta escolher e contentar-se com o que escolheram para elas.

Desenvolvem-se assim, em inúmeros casos, em um contexto de mágoas, choros implodidos, tristeza, raiva contida, com o sonho esgarçado do que poderia ter sido e não foi. 

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Ao aceitar tais posições, a violência, muitas vezes, é o vivido que desesperança e adoece, porque começa a quebrar a ideia de amor e respeito por si. Silenciada, submissa, aceita as traições, os gritos, a negação ao trabalho, o lugar de impotente e que não pode discordar, pensar, nem questionar. A que não pode expor o corpo, a que para ser respeitada tem que negar o feminino, a que precisa fazer do sacrifício o pão de todo dia e com ele passar fome para alimentar a família com sua pele e alma, a que só pode existir se receber o alvará do patriarcado.

Estimuladas a atacarem as mulheres que se diferenciam, que se libertam, que defendem os direitos das mulheres, identificam-se com o opressor e tornam-se carcereiras e prisioneiras de si, e passam a reproduzir nos processos educativos e identificatórios a cobrança para que outras mulheres assim se comportem, construindo um ciclo de apagamento e sofrimento, muitas vezes sem a percepção do que lhes faz mal.

Muitas mulheres viram inquisidoras de outras mulheres, comentam sobre atos, roupas, comportamento, ideias, geralmente com malícia que pode ser guardiã de inveja e apropriação do olhar patriarcal.

Preste atenção porque é mesmo que você julga, se sente ofendida com o comportamento de uma mulher que age diferente de você? O que é mesmo que lhe envergonha, o que lhe incomoda, o que lhe faz culpa? Qual o sentido? A quem serve? O que alimenta sua atitude? O que não admite em si e nos outros e de onde vem isso? Você se permite conhecer seu corpo, seus desejos? Já imaginou outras vidas possíveis para você? Consegue ter tempo para você? Assume cobranças para si e se submete a vozes que lhe impõe posturas que, na verdade, não lhe pertencem? Quais os senhores a que se submete e procura agradar e o que ganha com isso? E o que ganha, lhe satisfaz existencialmente?
   
Manter redes de afeto com outras mulheres, estudar, buscar desenvolver um pensamento crítico, apropriar-se da história e da política, refletir criticamente sobre a vida, valorizar o que de bom possuir e usufruir disso para obter autonomia e independência, assumir a responsabilidade pelo próprio desejo, aprender a dizer não, colocar limites, fortalecer-se em coletivos e movimentos que não façam do feminino um erro ou vergonha, apoiar o processo de libertação de outras mulheres, desafiar o senso comum, desconfiar das falas misóginas, identificar em quais partes da pele e da alma o patriarcado respira, se alimenta e vive. Questionar, se o que nos limitamos, temos vergonha, é verdadeiramente nosso, ou uma resposta aos senhores que habitam nossos pensamentos e nos julgam em gestos e ideias para alimentar seu poder às custas do sangue das mulheres.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.