‘Pirão e cinturão’, o que dizer do ditado e ideia difundidos ao longo de gerações?

O que esse roteiro revela é uma associação profunda entre prazer e dor, submissão e recompensa

Escrito por
Alessandra Silva Xavier ceara@svm.com.br
Legenda: A existência de leis, regras, limites não é o campo da violência
Foto: Shutterstock

Os ditados populares guardam roteiros, narrativas culturais que podem alimentar referências sobre o modo de ser e agir, como marcadores de uma sabedoria popular onde através da oralidade são perpassados valores e regras de conduta que remonta a origens anteriores à escrita. Tais ditados são repassados de geração a geração, sintetizando valores e experiências de vida fáceis de assimilar como os presentes em provérbios.

Um dos ditados muito comuns envolve: "Quem come do meu pirão, prova do meu cinturão ". Frequente nos ambientes familiares, é utilizado na relação pais e filhos mas também entre casais e até em ambientes de trabalho.

A ideia difundida por trás de tal frase, que por vezes pode soar engraçada (mas é sempre bom lembrar o que Freud  nos recorda sobre os chistes, as piadas, que estes escondem a verdade do inconsciente), designa processos presentes de longa data nas relações interpessoais que envolvem situação de dependência ou cuidado. Assim, o que esse roteiro revela é uma associação profunda entre prazer e dor, submissão e recompensa. 

Quem se alimenta e se beneficia dos cuidados, do alimento irá em igual medida ser alvo do cinturão, do chicote e da violência. E não estamos falando das regras necessárias e organizadoras da vida e do aparelho psíquico, falamos da banalização da violência.

A mesma que tolera que crianças apanhem, espancamento, "defesa da honra", a justeza de castigos físicos a quem não se submete ou não é subordinado o suficiente para aceitar que ao ser beneficiado com o "pirão", por gratidão deve aceitar sem contestação a violência, o cinturão.

E a quem geralmente se coloca na posição de provedor e dono do cinturão? Quem são os que irão temer o açoite? Quais gêneros ficarão em posição de submissão e quais os desejos de controle? A quê ou quem crescerei acreditando que só receberei algo se aceitar o chicote?

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Nessa equação, desconsidera-se a capacidade de divergir, a incompatibilidade entre educação e violência, e associa-se de forma nefasta e quase naturalizada que amor e violência, cuidado e sofrimento estão interligados, tornando aquele que é dependente, que se beneficia de casa, alimento ou proteção, refém e psiquicamente disponível a aceitar o castigo, a ameaça e violência, pois seria merecedor. A existência de leis, regras, limites não é o campo da violência. Nem a de dependência chancela para castigos físicos, assédio, exploração, maus-tratos.

Essa associação pode levar a usar a recusa do pirão como ataque ao cinturão, e a consequentes dificuldades de se "alimentar das coisas boas do mundo" ou “anorexia emocional”, na recusa e no medo dos afetos pelo temor da violência que pode abranger. Além disso, perpetua transgeracionalmente a repetição do ditado, pois aquele que temia o cinturão,  muitas vezes cresce almejando tornar-se o dono do cinto para ameaçar aqueles a quem oferece o “pirão”.

É claro que existe a ambivalência dos afetos e que não somos sempre disponíveis e amorosos, e aqueles a quem amamos não estão totalmente protegidos dos nossos sentimentos hostis.

No entanto, poder desenvolver a experiência do cuidado, ao receber a proteção, a comida, o amor e garantir um ambiente tranquilo e estável para crescer e ser, poderia arrefecer o costume com a fúria e o ódio nas relações e diminuir a expectativa da espera pelo pior, e das ansiedades diante das figuras de autoridade. Será que "quem come do meu pirão,  prova do meu coração " não diria de uma relação mais afetuosa entre cuidado e proteção.

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