Juro real perto de 9% ao ano: uma janela que pode estar se fechando
Poucos países do mundo pagam tanto quanto o Brasil para quem empresta dinheiro ao governo. Hoje, descontada a inflação, a taxa básica de juros está perto de 9% ao ano. A pergunta que todo investidor deveria fazer é: por quanto tempo?
Vamos aos números. Em 16 de setembro, o Banco Central cortou a Selic para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte seguido desde março, quando a taxa estava em 15%, o maior patamar em quase duas décadas.
Enquanto isso, o IPCA, a inflação oficial medida pelo IBGE, acumulou 4,22% nos 12 meses até agosto. É aqui que entra o juro real. Se o dinheiro rende 13,75% e os preços sobem 4,22%, o ganho de verdade, aquele que aumenta o seu poder de compra, fica perto de 9% ao ano, antes do imposto.
O mercado acredita que esse número vai diminuir. No Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com economistas, a projeção é de Selic em 13,50% no fim deste ano, 12% no fim de 2027 e 10,5% no fim de 2028.
Mas atenção: projeção não é garantia. É estimativa, e muda toda semana. Na última edição, a previsão para dezembro caiu de 13,75% para 13,50% de uma vez.
Se os cortes vierem, quem tem dinheiro no Tesouro Selic ou em CDB que paga um percentual do CDI vai sentir. O CDI é a taxa que os bancos usam entre si e costuma andar colado na Selic, um pouquinho abaixo dela. Quando a Selic cai, o rendimento cai junto.
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Isso quer dizer que é hora de abandonar o feijão com arroz? Não. Eu continuo com a maior parte do meu dinheiro em Tesouro Selic e CDB, e continuo achando que esse é o caminho certo para a maioria das pessoas, principalmente para a reserva de emergência.
Mas vale entender que existe outro tipo de título, que trava a taxa no dia da compra. Pense como um contrato de aluguel de 10 anos assinado pouco antes de os aluguéis da rua começarem a baixar. Quem assina agora garante o valor, mesmo que o mercado caia depois.
Na renda fixa, esse "contrato" aparece nos títulos prefixados e nos atrelados à inflação, como o Tesouro IPCA+, que paga a inflação do período mais uma taxa fixa.
No início de setembro, por exemplo, havia prefixado pagando perto de 14% ao ano e Tesouro IPCA+ pagando perto de 8% acima da inflação. Essas taxas mudam todos os dias.
E aqui mora o cuidado. O preço desses títulos sobe e desce no caminho, o que o mercado chama de marcação a mercado. Quem leva até o vencimento recebe o combinado.
Quem precisa vender antes pode sair no prejuízo. Por isso, reserva de emergência nunca deve ficar em título de vencimento longo ou com grande oscilação.
Para quem já tem a reserva pronta e um objetivo distante, como a aposentadoria, colocar uma parte do dinheiro em títulos assim pode ser uma forma de diversificar. Uma parte, não tudo.
Janela aberta não é convite para pular de olhos fechados. É convite para olhar com calma, conferir o seu prazo e decidir com a cabeça fria. Quem aprende não depende de palpite.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.