Black Friday antecipada: a armadilha que pode destruir seu 13º salário
Os shopping já instalaram os banners e começaram os "descontos progressivos". Estamos em outubro e o comércio cearense já quer convencer você de que precisa gastar o dinheiro que ainda nem recebeu.
E aqui vai uma verdade incômoda: 67% dos nordestinos que compraram na Black Friday 2024 ainda estão pagando as parcelas, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Essa antecipação não é coincidência. É estratégia cirúrgica. Os varejistas sabem que outubro é quando você começa a sonhar com o 13º, fazer contas mentais, planejar quitação de dívidas. É neste momento de vulnerabilidade psicológica que eles atacam.
Os três gatilhos que derrubam sua resistência
Primeiro, a urgência fabricada. "Últimas peças", "Só até domingo". O cearense, criado na cultura do "é melhor garantir", cai direto. A FGV mostra que 89% das "promoções limitadas" de outubro se repetem com preços menores na Black Friday real de novembro.
Veja também
Segundo, o desconto ilusório. Aquela TV que custava R$ 2.000 agora está "50% off" por R$ 1.500. Detalhe: em setembro ela custava R$ 1.400. O Procon-CE registrou 1.247 denúncias desta prática só em 2024.
Terceiro, a comparação social. "Todo mundo aproveitando". É o mesmo mecanismo que faz o fortalezense pagar R$ 200 numa camisa na Beira-Mar sendo que custa R$ 40 na José Avelino.
A matemática cruel do parcelamento
João, vendedor do Centro, ganha R$ 2.800. Vê um celular de R$ 3.000 por "apenas 12x de R$ 250". Parece caber no orçamento, certo? Errado.
Com a Selic a 15%, se investisse os mesmos R$ 250 mensais num CDB, teria R$ 3.197 ao final de um ano. Compraria à vista com sobra.
Mas parcelando, compromete 9% da renda mensal. Se qualquer emergência acontecer, precisará do rotativo do cartão a 450% ao ano.
A estratégia dos três baldes
Seu Francisco, comerciante há 30 anos na José Avelino, me ensinou: "Dinheiro é que nem água. Se não botar em balde separado, escorre todo pro mesmo ralo".
Balde 1 - Limpeza (50%): Metade do 13º vai direto para quitar dívidas. Prioridade para cartão de crédito. Não adianta investir rendendo 15% ao ano se você deve a 450%.
Balde 2 - Proteção (30%): R$ 840 para reserva de emergência. Pode ser no Nubank, CDB do BNB ou até poupança. O importante é separar.
Balde 3 - Respiro (20%): Sim, você pode gastar um pouco. R$ 560 para o almoço especial, presente das crianças, roupa nova. Mas é 20%, não 120% como muitos fazem.
O alerta final
Dona Francisca, feirante da Parangaba, resume tudo: "Black Friday pra mim é todo dia que não devo nada pra ninguém". Ela fatura R$ 4.000 vendendo frutas, tem R$ 15.000 guardados e nunca parcelou nada.
Se você está pensando "mas aquela promoção é boa", faça o teste das 72 horas. Espere três dias. Se ainda achar necessário, compre à vista. Se não tiver o dinheiro, você tem a resposta: não era promoção, era armadilha.
O 13º salário é conquista trabalhista histórica. Não deixe a ansiedade fabricada do comércio transformar seu prêmio em prisão. Seu janeiro de 2026 agradece as decisões de outubro de 2025.
A melhor Black Friday é aquela em que você mantém seu saldo no preto.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.