Público jovem e vendas online fazem demanda por brechós crescer 50% em Fortaleza
Uma mudança nas tendências de consumo de gerações mais jovens tem impulsionado o mercado de brechós de Fortaleza. O movimento segue o nacional, com mais de 2 milhões de buscas online pelos estabelecimentos.
A procura por brechós no Ceará cresceu 50% no último ano, entre novembro de 2024 e outubro de 2025, conforme dados do levantamento realizado pela Descarbonize Soluções.
Na procura por itens com mais personalidade e exclusivos, os consumidores das novas gerações aderem ao mercado de segunda mão com mais afinco, destaca Luciana França, professora e pesquisadora do curso de Moda da Universidade de Fortaleza (Unifor).
“A moda está passando por um momento de transformação. Dentro disso, está a valorização de uma moda com mais identidade e personalidade. Antes o motivo era o preço, hoje é a busca por algo com identidade e personalidade, que não se encontra nas peças de primeira mão”, explica.
Diversidade de negócios
Além de uma procura maior pelos consumidores, o mercado ganha força com uma diversidade maior de estabelecimentos.
“Há uma diversidade que atende várias demandas de vestuário, desde o look de trabalho até a festa de formatura. São lojas bem preparadas, com atendimento acolhedor, e os brechós online estão cada vez mais rápidos na entrega”, aponta.
A especialista também chama atenção para um diferencial do mercado de segunda mão de Fortaleza, com a reunião dos estabelecimentos em feiras.
É o caso da feira colaborativa Bem Vintage, que reúne brechós em praças de Fortaleza mensalmente. A proposta surgiu com a constatação de que as feiras da Capital não abrangiam brechós, explica Monique Parente, idealizadora do negócio.
“Em várias capitais do Brasil há espaços voltados para a moda circular, e em Fortaleza não tinha. Comecei o movimento com seis brechós, e hoje participam de 25 a 30 brechós por edição”, lembra.
A empreendedora pretende migrar o evento para um local maior, que possa comportar até 50 estandes de negócios de revenda. Sem clima de concorrência entre as empresas, Monique ressalta que o modelo é importante para alcançar outros públicos.
O público maior é jovem; eles procuram peças únicas e com estilo, têm a cabeça mais aberta e uma relação diferente com a cultura do consumo estabelecida, valorizando a moda de segunda mão.
MODA CIRCULAR E SUSTENTÁVEL
A alta adesão aos brechós também vai ao encontro da necessidade de tornar o consumo mais sustentável.
A Fashion Revolution, campanha global para aumentar a conscientização sobre as questões socioambientais da indústria da moda, defende a compra de itens de segunda mão como uma ferramenta para romper a 'lógica do excesso'.
A busca por sustentabilidade é o que motiva as gerações mais jovens a comprar roupas usadas no brechó Susclo, que opera no Centro desde 2019, explica Thayná Mello, proprietária do negócio.
São mais de 300 peças 'garimpadas' pela curadoria por semana. Antes da operação física, o brechó vendia apenas no meio digital, que segue responsável por 30% do faturamento.
Thayná Mello aponta que o empreendimento investe em uma curadoria detalhada, quebrando a visão negativa do público sobre adquirir itens usados. No último ano, as vendas do negócio triplicaram e chegaram a quase 3 mil itens comercializados por mês.
“Muitas pessoas tinham preconceito de comprar em brechó, achavam que tinha uma energia ruim ou não confiavam nas peças, achavam que a qualidade ia ser ruim. E isso mudou com a profissionalização e estruturação dos brechós”, comenta a empreendedora.
O Susclo também deve chegar a outros nichos da moda sustentável, como o upcycling, que consiste em utilizar peças aparentemente perdidas para criar novos produtos.
“Já existe no mercado pessoas que fazem trabalhos excelentes de upcycling, então a ideia seria ter alguns parceiros para personalização, de peças que já não são mais usáveis, estão manchadas ou descosturadas, e podem ser revitalizadas”, explica.
DIVERSIDADE DE NICHOS
A venda online também impulsiona o crescimento de brechós de Fortaleza. Com loja física no bairro Aldeota, o Desengavetta Brechó tem mais de 80% do faturamento fruto das vendas pelo site e sobretudo redes sociais.
“Nos últimos anos, tivemos um crescimento médio anual entre 35% e 40% nas vendas, além de um aumento constante no número de novos clientes chegando, principalmente pelo digital”, comenta Maria Paula, idealizadora do Desengavetta.
Com cinco anos de atividade, a empresa tinha apenas uma funcionária até 2024. Agora, são nove pessoas envolvidas em toda a operação.
Além dos itens de moda feminina, que seguem com predominância de vendas, a empresa aposta na oferta de itens masculinos e infantis. Os nichos também receberam páginas específicas nas redes sociais.
“Também temos visto um crescimento muito legal em peças de grife, além de calçados e acessórios. A ideia de expansão e investimento é abraçar também o mercado de luxo”, projeta a empreendedora.
Para se desenvolver no mercado de produtos de segunda mão, os estabelecimentos devem investir em uma comunicação que minimize os preconceitos e se alinhe com as movtivações dos consumidores, defende Cláudia Buhamra, professora de marketing da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Outro aspecto fundamental é a apresentação do ponto de venda físico e a disposição dos produtos. "É comum encontrarmos roupas e acessórios empilhados como mercadorias sem importância. A diferença entre mercadoria e produto é a valorização dada a ele no ponto de venda para que a oferta se torne convidativa", destaca.
A especialista acrescenta que o boom do segmento segue relacionado à queda nos preços.
"Os brechós são uma oportunidade de adquirir boas peças de vestuário e acessórios a preço atrativos e em ótimas condições. O surgimento de brechós chiques tornou mais popular o acesso a marcas de luxo a preços convidativos", aponta.