Quais cidades do CE tiveram mais mortes no trânsito em 2025? Veja ranking

Quatro municípios registraram 14% de todos os óbitos ocorridos no Estado no período.

Escrito por Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
14 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: As maiores taxas de mortalidade a cada 100 mil pessoas são registradas nas metrópoles do interior do estado.
Foto: Divulgação.

As mortes no trânsito subiram em 2025 no Ceará, segundo dados do Ministério da Saúde. O crescimento foi puxado, principalmente, por centros urbanos populosos do Estado. O resultado é influenciado por fatores estruturais, comportamentais e de gestão, além da concentração da frota de veículos nessas localidades. 

Ao todo, 1.936 pessoas perderam a vida nas vias e nas estradas cearenses no ano passado. O número é o mais alto em oito anos e se aproxima ao pico de 2017, quando ocorreram mais de 2 mil óbitos.  

No cenário mais recente, o ranking de municípios com mais vítimas no período é formado por: 

  • Fortaleza - 155 óbitos
  • Juazeiro do Norte - 59
  • Sobral - 39
  • Caucaia - 24

Embora a lista corresponda a quatro das cinco cidades mais populosas do Estado, conforme o Censo Demográfico 2022, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a análise proporcional revela que o risco viário não está ligado apenas ao tamanho do município.

Ao avaliar a taxa de mortalidade a cada 100 mil indivíduos, a cidade da região do Cariri registrou o maior índice do ranking no ano passado: 20,62 óbitos. Com uma população quase nove vezes maior, Fortaleza possui um indicador mais de três vezes menor: 6,38 mortes.

Sobral aparece logo depois, com 19,20 vítimas a cada 100 mil habitantes, demonstrando uma concentração das mortes em metrópoles do Interior do Ceará. Apesar de mais elevadas que o da Capital e de Caucaia (9,55), as taxas das localidades estão dentro da média do Estado no período, que é 22,01. 

Os altos índices de mortalidade nos municípios do interior podem ser reflexo do afrouxamento da fiscalização e estrutura urbana inadequada resultante do crescimento desordenado. É o que explica ao Diário do Nordeste o presidente da Comissão de Trânsito, Tráfego e Mobilidade Urbana da Ordem dos Advogados do Brasil - Secção Ceará (OAB-CE), Daniel Siebra.

A gente observa que na Capital tem uma concentração maior de campanhas de educação, a fiscalização é mais eficiente, a sinalização também. [...] O trânsito de Juazeiro é muito complicado porque Juazeiro foi uma cidade que foi crescendo desordenadamente, então tem ruas estreitas, ruas largas.”
Daniel Siebra
Presidente da Comissão de Trânsito da OAB-CE

A influência dos fatores é reforçada pela professora da Universidade de Fortaleza (Unifor) e especialista em Engenharia de Transportes, Camila Bandeira, que detalha como o desenho urbano e as políticas públicas de trânsito interferem no comportamento da população, podendo, por exemplo, estimular condutas de direção imprudente. 

“Todas as medidas que são feitas, tanto para reduzir velocidade, como também para diminuir o fluxo de veículos, têm um efeito imediato na redução das mortes no trânsito. Por outro lado, também tem a questão das ações de fiscalização, das ações educativas. Quando reduz essas ações, o reflexo é imediato: [a população entende] então agora eu vou poder correr, vou poder passar um sinal vermelho.”

Outro aspecto relacionado, segundo Daniel, é o volume da frota: quanto mais veículos circulando nas vias, maior é o risco de acidentes. Essa relação é confirmada pelo ranking de letalidade no trânsito, que reflete exatamente a ordem das cidades com mais automóveis no Estado, de acordo com o Ministério dos Transportes.

Até dezembro de 2025, Juazeiro do Norte somava oficialmente uma frota de 157 mil veículos. Na prática, porém, Daniel afirma que o volume circulante é superior: por ser a principal metrópole do Cariri cearense, a cidade absorve diariamente o trânsito de diversas localidades vizinhas

“Quanto mais veículos na via, maiores as chances de acidentes, principalmente se a gente considerar que o aumento nessa frota se dá quase na maioria por motocicletas”, ressalta, fazendo referência ao fato de a frota cearense ser majoritariamente composta por motos. 

Maioria no trânsito, motociclistas são as principais vítimas no Estado.
Legenda: Maioria no trânsito, motociclistas são as principais vítimas no Estado.
Foto: Thiago Gadelha.

Para reduzir a mortalidade, Camila ressalta a importância da promoção de políticas públicas que incentivem a redução do volume de veículos, por meio da expansão do transporte coletivo e incentivo a meios mais sustentáveis, como bicicletas.

“É preciso investir na expansão do sistema cicloviário, das calçadas, das faixas exclusivas e dos corredores de transporte público, porque tudo isso está relacionado”, destaca. 

Fortaleza reduziu mais de 40% das mortes no trânsito

Embora ocupe a primeira posição no ranking de municípios com mais vítimas no trânsito, 2025 foi o período em que a Capital registrou o menor número de óbitos em acidentes em uma década. Em comparação ao recorde de 2016 — quando houve 368 mortes nas vias alencarinas —, Fortaleza reduziu a taxa de mortalidade em cerca de 42% no ano passado.

Ao Diário do Nordeste, a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) explica que a cidade lidera os números absolutos por possuir a maior frota do Ceará, o que eleva a exposição ao risco. Segundo o Ministério dos Transportes, até dezembro do ano passado, o município abrigava 32% de todos os veículos do Estado. 

Mesmo com o impacto gerado pela frota, a queda na mortalidade não ocorre por acaso. Camila explica que as reduções — assim como eventuais aumentos — derivam da combinação de fatores estruturais, comportamentais e de gestão.

Segundo ela, o resultado fortalezense reflete diretamente os investimentos do município em segurança viária.

No momento em que você conduz de uma forma prudente, tem uma infraestrutura adequada e segue as normas, é para os números serem realmente muito baixos, porque nenhuma morte no trânsito é aceitável."
Camila Bandeira
Professora da Unifor especialista em Engenharia de Transportes

Somente em 2025, segundo a AMC, Fortaleza implantou 143.984,03 m² de sinalização horizontal, 1.908,82 m² de sinalização vertical e 22 novos semáforos. Além disso, foram instaladas lombadas, travessias elevadas, faixas de retenção em cruzamentos, readequação de velocidades, implantação de sentidos únicos e a ampliação e manutenção da malha cicloviária, que atualmente conta com cerca de 503 km.

Especialista defende que políticas de redução de velocidade máxima em vias contribuem para segurança viária em grande centros urbanos.
Legenda: Especialista defende que políticas de redução de velocidade máxima em vias contribuem para segurança viária em grande centros urbanos.
Foto: Fabiane de Paula.

Apesar do avanço do índice na Capital, a especialista em Engenharia de Transportes alerta que, para mantê-lo baixo, é necessário garantir um trabalho contínuo, e critica algumas iniciativas adotadas pelo Município, como a instalação de faixas exclusivas para motocicletas em algumas vias

"Quando a Prefeitura cria uma faixa azul de prioridade para as motos, está dando um sinal contrário em relação à segurança. Os estudos mostram que essa faixa não aumenta a segurança a longo prazo porque ela gera uma falsa sensação de segurança para o motociclista. No momento em que ele sai dessa infraestrutura protegida, ele vai querer ter o mesmo comportamento fora dela. E o que vai acontecer? Possíveis acidentes”, argumenta.

Juazeiro do Norte investe em fiscalização educativas 

Para reduzir a quantidade de vítimas na cidade do Cariri, o Departamento Municipal de Trânsito (Demutran) afirma que desenvolve diversas ações de conscientização e de prevenção a sinistros de trânsito, entre elas palestras educativas mensais em escolas, empresas e instituições do município. 

O órgão destaca que também realiza blitzes educativas em pontos estratégicos da localidade, onde o fluxo de pessoas é mais intenso. Somente em 2026, mais de 2,3 mil condutores foram impactados pelas fiscalizações realizadas nas vias juazeirenses. 

No setor da engenharia, a Administração está executando intervenções no tráfego de Juazeiro do Norte, como a implantação e revitalização da sinalização viária vertical e horizontal. As ações incluem ainda a instalação de rotatórias, alterações de sentido de circulação das vias e a readequação das vagas de estacionamento. 

Segundo o Demutran, as medidas visam à “melhoria da organização do espaço viário, da mobilidade urbana e da segurança de condutores e pedestres”.

Caucaia busca dados para basear ações de prevenção 

Quarto no ranking de mortalidade, o município da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) frisa, por meio da Autarquia Municipal de Trânsito (AMT), que tem como objetivo permanente alcançar a meta de morte zero no trânsito.

Para isso, monitora continuamente os indicadores de acidentes e utiliza informações estatísticas para direcionar ações de engenharia, fiscalização e educação voltadas à preservação da vida no trânsito.

“As ações se baseiam na premissa de que cada vida importa e que a segurança no trânsito depende de todos que fazem parte dele”, destaca a instituição. 

Entre as principais medidas desenvolvidas por Caucaia, o órgão destaca:

  • Intensificação da fiscalização em corredores de maior fluxo e em pontos críticos; 
  • Reforço e ampliação da sinalização horizontal e vertical, implantação de dispositivos de segurança viária e manutenção da rede semafórica;
  • Uso de estudos de engenharia de tráfego para readequação da circulação, melhorias na mobilidade e aumento da segurança em vias com maior histórico de sinistros;
  • Desenvolvimento contínuo de campanhas de educação para o trânsito em escolas, empresas e comunidades.

Procurada pelo Diário do Nordeste para detalhar suas ações preventivas, a Prefeitura de Sobral não deu retorno até a publicação desta matéria.

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