O Ceará atingiu em 2025 o maior número de mortes no trânsito desde 2017, conforme dados do Ministério da Saúde (MS). Ao todo, 1.936 pessoas morreram nas vias urbanas e rodovias cearenses, no último ano. O índice interrompe uma sequência de oscilações e consolida uma tendência de alta no Estado.
Neste ano, um balanço parcial mostra que 350 pessoas faleceram em acidentes no território cearense até abril, segundo a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). Um dos casos mais recentes aconteceu no último sábado (4), quando três romeiros morreram após o ônibus em que estavam tombar na CE-456, na zona rural de Canindé.
Outro sinistro envolvendo um coletivo também marcou 2026. Em junho, sete jovens integrantes de um time de basquete de Juazeiro do Norte faleceram na CE-187, em Tauá. Eles voltavam para casa, na região do Cariri, após competirem em um torneio esportivo em Sobral. O acidente foi o mais letal do Estado para ocupantes de ônibus nos últimos 12 anos.
Esses episódios ilustram na prática o cenário no Ceará. A série histórica do MS revela que o índice de mortalidade do ano passado ficou atrás somente de 2017, quando foram registrados 2.017 óbitos. Ao todo, nesse período de oito anos, 16.808 vidas foram perdidas no trânsito cearense.
O que causa o aumento dos óbitos no trânsito?
O crescimento das mortes é resultado de uma combinação de fatores estruturais, comportamentais e de gestão. É o que analisa ao Diário do Nordeste a professora da Universidade de Fortaleza (Unifor) e especialista em Engenharia de Transportes, Camila Bandeira.
A gente tende a olhar para esses números como números, mas não são números, são pais de família, são filhos, são netos, são sobrinhos, são pessoas que perdem a vida em mortes totalmente evitáveis.”
Mais que um indicador, para a docente, o fenômeno aponta para uma falha e para um afrouxamento nas políticas públicas de trânsito seguro no Ceará. “A população precisa desse trabalho contínuo. Não é só o trabalho punitivo pela multa, pela fiscalização, é você ver que a cidade está abraçando essa causa.”
Essa falta de constância se reflete diretamente nas vias e estradas: embora medidas tenham sido adotadas nos últimos anos, a prioridade irregular da gestão pública em relação ao problema transmite um sinal de relaxamento aos condutores, segundo a professora. Na prática, esse recuo elevaria a imprudência no trânsito, resultando no aumento da letalidade.
“Você afrouxa a política, então você dá um aviso muito claro à população: olha, isso não é mais importante. Então vou poder avançar um sinal, vou poder exceder a velocidade, vou ser mais imprudente”, exemplifica.
Da mesma forma que esses elementos contribuem para a alta dos óbitos, também podem atuar para reduzi-los, segundo Camila.
“A pessoa que morre num acidente de trânsito morre de uma maneira totalmente evitável. Se você conduz de uma forma prudente, se você tem uma infraestrutura adequada, se você segue as normas do trânsito, então é para ser realmente números muito baixos, porque nenhuma morte no trânsito é aceitável.”
Outro fator que também está diretamente ligado à questão é o tamanho da frota de veículos do Estado, como explica o presidente da Comissão de Trânsito, Tráfego e Mobilidade Urbana da Ordem dos Advogados do Brasil - Secção Ceará (OAB-CE), Daniel Siebra.
Quando a gente fala em crescimento de mortes no trânsito, muito está relacionado com o aumento da frota de veículos. Quanto mais veículos na via, maiores as chances de acidentes, principalmente se a gente considerar que o aumento nessa frota se dá quase na maioria por motocicletas.”
Sob essa perspectiva, embora o número de óbitos em 2025 quase tenha alcançado os índices de letalidade de oito anos atrás, o cenário recente se diferencia por registrar 135% mais veículos nas vias, segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).
Como o volume de mortes não acompanhou o crescimento expressivo da frota, a situação do ano passado se mostra relativamente menos aguda do que o pico de 2017.
O advogado ainda aponta que a falta de fiscalização e de conscientização da população contribui para o aumento das mortes. “E também a questão da embriaguez ao volante, que, apesar de termos leis duras e rígidas, se não tiver fiscalização, não vai adiantar nada”, acrescenta.
Quem são as principais vítimas do trânsito no Ceará?
Motociclistas lideram com folga o ranking de óbitos nas vias do Estado, de acordo com o Ministério da Saúde. A categoria representa 40% das mortes registradas entre 2017 e 2024. Para Camila, a estatística é uma consequência de elementos como modelos modernos de trabalho e a fuga de passageiros do transporte público.
“A moto hoje é o meio de trabalho para inúmeras pessoas através dos aplicativos de entrega. Esses motociclistas trabalham sob pressão e acabam descontando isso na velocidade para cumprir prazos e compensar a remuneração precária. Eles estão no limite do tempo para ganhar um valor muito baixo e, nesse cenário, a moto acaba se tornando um prato cheio para os acidentes”, aponta.
Logo em seguida, estão os pedestres, que são 12% das vítimas do Ceará. O número reflete diretamente a vulnerabilidade do grupo, que é considerado a parte mais vulnerável do sistema de mobilidade, conforme detalha a professora. “O pedestre está totalmente desprotegido, nem capacete usa.”
“Falando da questão da estrutura urbana, do desenho urbano, é algo que a gente precisa realmente priorizar: são calçadas adequadas, travessias bem sinalizadas, semáforos com tempo para pedestre, travessias seguras em que o motorista realmente diminua a velocidade, que priorize o pedestre”, exemplifica.
Por fim, o top 3 é fechado pelos ocupantes de automóveis, que são 7% das mortes. A ordem não surpreende Daniel. “São os mais vulneráveis no trânsito que estão sofrendo mais as consequências desse trânsito caótico, dessa quantidade de veículos que só cresce e de uma fiscalização que é insuficiente”, analisa.
Para reverter o cenário, Camila ressalta a importância de políticas públicas que incentivem a redução da frota de veículos nas ruas, por meio de transporte coletivo e sustentável, como ônibus e bicicletas. “É preciso investir na expansão do sistema cicloviário, das calçadas, das faixas exclusivas e dos corredores de transporte público, porque tudo isso está relacionado.”
Onde estão concentrados os óbitos no trânsito do CE?
Apesar de os dois acidentes recentes, um envolvendo romeiros e outro jovens esportistas, terem acontecido em áreas rurais cearenses, as mortes no trânsito do Estado tendem, historicamente, a ocorrer em grandes centros urbanos. Segundo o MS, quatro das cinco cidades mais populosas do Ceará são responsáveis por 20% das fatalidades registradas entre 2017 e 2025.
Para Daniel, o índice não é uma coincidência, mas uma consequência. “A concentração de óbitos em grandes centros urbanos é o reflexo da alta densidade demográfica e da grande quantidade de veículos”, explica.
Embora o ano de 2025 represente um pico geral de óbitos no Estado, o cenário especificamente nas rodovias federais cearenses foi de recuo. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) enviados ao Diário do Nordeste apontam que as BRs registraram queda de 7,6% no número de mortes e de aproximadamente 13,3% na quantidade de acidentes em comparação a 2024.
A reportagem também procurou o Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran-CE) para solicitar o balanço estatístico das vias sob jurisdição estadual — onde ocorreram os graves acidentes citados nesta matéria —, mas o órgão não enviou resposta até a publicação deste material.
Para a PRF, mesmo com a redução registrada nas rodovias federais, os índices gerais no Ceará seguem "alarmantes". A corporação reforça que o cenário exige a manutenção de ações contínuas e integradas de fiscalização e educação entre todas as forças de trânsito do Estado para frear a tendência de alta.
“Essa queda ainda não é vantajosa, porque tem muita gente morrendo. Caiu o número de acidentes, mas os acidentes são mais letais, ou seja, estão morrendo uma ou duas pessoas em um único acidente, e isso é ruim. Então, redução de acidente eu nunca consigo comemorar, a grande verdade é essa. O ideal seria que não morresse ninguém”, destaca o chefe do Núcleo de Comunicação Social (Nucom) da corporação, Lucas Mourão.