Fuga de passageiros enfraquece ônibus de Fortaleza e incha vias públicas com transportes individuais
A ida ao Centro de Fortaleza se tornou um clique em uma loja online. O saque no banco virou um pix. O trabalho agora é de casa – ou, se presencial, “compensa mais” ir de carro por aplicativo, para não atrasar. Nesses movimentos, o transporte coletivo enfraquece: em 2015, 1 milhão de pessoas andavam de ônibus todo dia em Fortaleza. Hoje, são pouco mais de 513 mil.
A menor demanda também reduz a frota. Há dez anos, 1,8 mil veículos rodavam na capital cearense, caindo para 1,2 mil em 2025. Os dados são do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Ceará (Sindiônibus), e alertam para uma realidade perigosa, catalisadora das mudanças climáticas: a individualização do transporte motorizado.
Nesta reportagem especial, o Diário do Nordeste mostra quais motivos têm tirado os passageiros do transporte coletivo, quais os impactos ambientais dessa mudança e o que as empresas e o poder público têm feito – e precisam fazer – para fortalecer uma mobilidade mais sustentável.
Na contramão do clima
A migração da população para transportes próprios ou por aplicativo em detrimento de modais coletivos leva o Brasil à contramão do combate às mudanças climáticas. Um estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT) comparou as emissões de gases poluentes por automóveis, motocicletas e ônibus urbanos e rodoviários.
Enquanto um ônibus urbano com capacidade para 70 passageiros emite, em média, 0,24 kg de gás carbônico (CO₂) por quilômetro útil, um automóvel com ocupação média de duas pessoas emite 1,49 kg – seis vezes mais –, e uma moto emite 0,52 kg, mais que o dobro do ônibus.
Isso significa que quando esse ônibus percorre 100 km, a emissão é de 126 kg de CO₂. Para transportar a mesma quantidade de pessoas em carros individuais, no dia a dia, seriam necessários 35 veículos, gerando uma emissão de 782,25 kg de CO₂.
Dimas Barreira, presidente do Sindiônibus, é categórico: “a única maneira que você tem de se locomover e deixar uma pegada de carbono menor do que se estiver de transporte coletivo é se for a pé ou de bicicleta”. Ele analisa que “a utilização coletiva de recursos é muito eficiente” quando se fala de mitigar a emissão de gases poluentes.
é a idade média da frota de ônibus de Fortaleza, segundo a Empresa de Transporte Urbano (Etufor).
Se de um lado “uma política ambientalmente alinhada e inteligente deveria estimular as pessoas a aderirem ao transporte coletivo”, do outro o que acontece é uma redução drástica do uso e uma tendência a “encarecer o transporte coletivo e lentificar a renovação de frota”, como observa o gestor.
Um estudo do Sindiônibus feito neste ano indicou que, em 2010, os veículos do transporte coletivo urbano de Fortaleza emitiam 15 toneladas de material particulado por ano. Em 2025, a emissão está abaixo de 2 toneladas, “e pode reduzir com a renovação da frota”.
Dimas compara que um veículo antigo, de antes dos anos 2000, polui o mesmo que 50 ônibus novos. Na capital cearense, ainda circulam veículos de gerações antigas. “Precisamos avançar e substituir, ficar só os ônibus a partir de 2012, o que já é uma mudança fantástica em termos de emissões”, frisa.
A renovação, contudo, esbarra na questão financeira.
“De cerca de 330 linhas que temos em Fortaleza, apenas 80 são equilibradas. As outras são deficitárias financeiramente, existem porque precisam atender a cidade”, estima o presidente do Sindiônibus.
O déficit financeiro pela perda de passageiros, que o subsídio municipal não consegue cobrir integralmente, gera um círculo vicioso: “pra ter mais oferta e garantir um transporte de qualidade, precisamos de recursos. Sem isso, a espera fica muito longa, a ocupação fica dramática nos horários de pico e as pessoas não querem usar”, sintetiza Dimas.
A flagrante queda nos passageiros de ônibus não é particular de Fortaleza. Pesquisas da CNT feitas em 2017 e em 2024 para mapear a mobilidade urbana mostraram o aumento expressivo do uso de modais privados nas grandes cidades.
Em 2017, 49% da população brasileira usava transporte coletivo para deslocamento, e 50% individual. Sete anos depois, a reedição da Pesquisa CNT de Mobilidade Urbana mostrou a perda total desse equilíbrio.
Em 2024, apenas 32% usavam veículos coletivos, e 68%, particulares.
Fernanda Rezende, diretora executiva interina da confederação, destaca que oito em cada dez viagens coletivas em cidades como Fortaleza ocorrem por ônibus, único meio de transporte para parte da população. Por outro lado, problemas como “falta de conforto, atrasos, preço da passagem e tempo de viagem excessivo” afastam quem tem a opção de “fugir”.
4 horas de ônibus por dia
Apesar disso, o ônibus segue como única alternativa para a maior parte da população. A reportagem conversou com alguns usuários em um dos horários de pico da manhã, em um terminal de integração de Fortaleza, e constatou: a maioria dos passageiros embarca em vários ônibus diariamente e nunca pensou sobre a relação entre transporte coletivo e meio ambiente.
Os relatos também mostram que, ainda que houvesse essa consciência ambiental, a maioria optaria de qualquer maneira por deixar o sistema de transporte coletivo. A explicação está nas principais queixas dos usuários: a longa espera pelos ônibus e a lotação que enfrentam no ir e vir do trabalho.
“Pego dois ou três ônibus por dia, fazendo integração. Mas demora demais, espero até meia hora durante a semana. Já chego atrasada, tenho que sair de casa uma hora antes. Nunca tinha pensado nisso do meio ambiente, acho que ajudaria mesmo. Mas mesmo assim eu teria meu transporte, é muito mais rápido e confortável”, confessa.
Ter o próprio veículo é “sonho distante” para a cuidadora Maria Rosane Ferreira, 33, que mora na Barra do Ceará e trabalha na Cidade 2000 – bairros situados em extremos opostos da cidade, distantes cerca de 16 km. De moto, o percurso levaria cerca de 35 minutos. De carro, 40 minutos. De ônibus, até duas horas.
“Meu ônibus passa de meia em meia hora. Sábado é pior, são 40 minutos. Tanto é lotado como é pouco. Se eu perder, me atraso, e a patroa não entende, né? Pego dois pra ir e dois pra voltar. Não tem como fazer diferente, eu já acordo 6h. E na parada (ponto de ônibus), preciso esperar uns dois passarem, porque não dá pra entrar”, narra.
Os passageiros de longa distância, como Rosane, e os que usufruem da integração ou da gratuidade – como idosos e estudantes – são considerados “deficitários”, como explica Dimas Barreira, presidente do Sindiônibus. E são eles que ainda permanecem no sistema coletivo.
“Eles são boa parte dos 500 mil que ainda transportamos em dia útil. Não se pagam. Quem sustenta essa conta é quem paga inteira em curtas distâncias. Mas o que está acontecendo? Os aplicativos competem com a gente por ele. Se for pra escolher entre ônibus e app numa curta distância, ele vai de aplicativo”, observa.
O custo de vida hoje tá muito caro, quem recebe um salário não dá pra praticamente nada. Ainda mais pra quem tem três filhos como eu. A gente não anda de ônibus por opção, é porque precisa.
E aí é que mora um ponto-chave do problema da mobilidade. “Quando tiramos do sistema só os superavitários, o valor médio da passagem tende a subir. Com isso, há dificuldade de sustentar o sistema, o serviço começa a se precarizar, ter linhas com menos oferta. O que acelera o processo de perda. É um problema complexo”, pondera Dimas.
A demora nos ônibus, a falta de um acesso mais prático aos coletivos e, sobretudo, a necessidade de economizar o dinheiro da passagem levaram Adriano Soares, 35, a entrar nas estatísticas de quem largou o transporte público por um individual – mas num “cenário ideal” para uma mobilidade mais sustentável.
Seja na própria, seja em uma do Bicicletar – sistema de bicicletas compartilhadas de Fortaleza –, o personal trainer percorre até 22 km por dia sobre duas rodas. É, hoje, o principal meio de transporte dele. Os planos, por outro lado, são os de ter o próprio veículo motorizado.
Antes de usar a bike, eu usava ônibus. A desvantagem é que, como moro longe da avenida, o ônibus demorava muito. Às vezes tinha que subir pra avenida, caminhar uns 12 minutos, pra pegar o transporte. E em horário que não é de pico demorava mais ainda a passar, ocasionando atrasos.
“Tô me planejando pra comprar um carro ou uma moto. Sempre carrego muitas coisas, vai trazer um conforto melhor pra mim. Só não sei pela questão do trânsito, porque vou demorar mais”, confessa.
Embarque individual
Ao contrário de Adriano, a “fuga” dos passageiros, em geral, tem sido para os transportes por aplicativo. Foi o caso da administradora Najla Freire, 39, ainda em 2018. Os motivos para largar o ônibus, além de logísticos – por não ter disponibilidade de linhas que fizessem o percurso direto do qual necessitava –, incluem a falta de segurança urbana e viária.
“Antes, eu usava ônibus todo dia, mas mudei de trabalho e não tinha acesso viável por ônibus nem metrô. Não penso em mudar pra outro tipo de transporte porque Fortaleza não é uma cidade segura. Se fosse, eu mudaria pra uma moto ou bicicleta elétrica, facilitaria bastante. Mas infelizmente não me sinto segura pra isso”, lamenta.
O uso de transporte por aplicativo em carro saiu de 1% em 2017 para 11% dos deslocamentos em 2024. Esse é um dos fatores que tiraram o usuário do transporte público pro veículo individual, apesar de ser compartilhado.
Fernanda Rezende, que é também engenheira civil e mestre em transportes, acrescenta que “muitas vezes a falta de priorização, de corredor exclusivo onde o ônibus possa andar sem influência do tráfego, torna mais cômodo pra população usar o transporte individual”.
Ela destaca, ainda, que o transporte ferroviário, mencionado por Najla, poderia ganhar protagonismo e se integrar aos ônibus urbanos por uma mobilidade mais sustentável – mas, em Fortaleza, o modal ainda não tem a robustez necessária.
“O ideal seria que todas as cidades tivessem um eixo estruturante com metrô, VLT e até trens urbanos. Dotá-las de um serviço forte sobre trilhos, pra que o ônibus fizesse o papel de capilaridade, por conseguir acessar lugares mais difíceis”, analisa. “Num planejamento urbano, o ideal seria utilizar o sistema de ônibus para alimentar o metroviário das cidades.”
Em Fortaleza, o número de usuários de metrô e Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) é dez vezes menor do que o de ônibus. Por dia, pouco mais de 52 mil pessoas percorrem as estações das Linhas Sul e Oeste e do VLT Parangaba/Mucuripe, em 2025, segundo dados da Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos (Metrofor).
estações de metrô e VLT transportam passageiros nas Linhas Sul, Oeste e no ramal Parangaba/Mucuripe. A maior delas é a Linha Sul, com 24,1 km entre os municípios de Pacatuba, Maracanaú e Fortaleza.
A Linha Sul, maior em extensão e em número de estações (20), transporta, em média, 33,5 mil pessoas em dias úteis. O segundo mais utilizado é o VLT, que ainda opera de forma gratuita, com 13,5 mil passageiros por dia. Em terceiro, vem a Linha Oeste, com cerca de 5,4 mil usuários.
Já a Linha Leste, que deve complementar o sistema com bairros ainda não atendidos, teve obras iniciadas em 2014 e segue construção. O novo prazo para finalização é no fim de 2028, quase 15 anos após o início das obras.
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Opções para um futuro “verde”
Fernanda Rezende, da CNT, alerta que a “conta” da mobilidade sustentável – de fazer a transição de ônibus a diesel para elétricos, por exemplo – não deve cair somente sobre o transporte coletivo, mas ser cobrada também do individual.
“Hoje, as políticas de mobilidade estão voltadas aos veículos de massa – mas eles são os que menos poluem dentro da cidade. O carro e a moto poluem muito mais. O transporte público, pelo contrário, é fundamental pra que os grandes centros urbanos emitam menos poluentes”, reitera.
Apesar disso, as empresas têm um papel claro no cenário. Uma das iniciativas para tornar a operação mais limpa é o programa “Despoluir”, criado pela CNT há 18 anos. “Levamos um técnico até a garagem das empresas pra fazer a avaliação veicular ambiental. Medir se aquele veículo está desregulado ou não”, resume Fernanda.
avaliações veiculares foram realizadas pelo Despoluir no Ceará entre 2024 e julho de 2025. Nos últimos 4 anos, 17 cidades foram atendidas.
“Emitimos um laudo para que o veículo passe por manutenção e pare de emitir gases do efeito estufa de forma excessiva. Além disso, avaliamos a qualidade do diesel: quando é ruim, emite mais poluentes. Outra ação é incentivar a renovação de frota”, acrescenta a diretora, reforçando que tornar a frota elétrica não é uma solução a curto e médio prazos.
“Veículos elétricos são muito mais caros. Com a fuga da população, como você banca isso? Tem prefeitura do Brasil com ônibus elétrico parado na garagem porque não tem subestação para abastecê-los. Ônibus elétrico é ótimo, mas o planejamento tem que ser estruturado em toda a cadeia da geração de energia”, alerta.
Se você coloca um ônibus circulando na mesma faixa que os demais veículos, a população, se tiver oportunidade, vai comprar um carro ou uma moto. Vai andar com mais conforto e gastar o mesmo tempo.
Em setembro de 2023, a Prefeitura de Fortaleza autorizou a contratação de empréstimo junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no valor de R$ 50 milhões, para transição da matriz energética dos ônibus de diesel para elétricos.
De acordo com a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), “não foi dada continuidade ao feito, o que inviabiliza atualmente a aquisição de ônibus elétricos”.
Para Dimas, a discussão sobre mudanças climáticas e mobilidade está atrasada. “Mesmo que a gente zerasse as emissões hoje, levaria um tempo se ampliando até retornar ao normal”, lamenta.
“À medida em que a consciência da gravidade dessa emergência aumentar em toda a população, teremos recursos mais disponíveis para o transporte coletivo com preços mais baixos.”
O que diz o poder público
Em nota, a Etufor informa que “a aquisição de veículos novos pelas empresas é interesse do Município para que seja mantida uma frota com menor tempo de atividade, pois esses veículos apresentam a tecnologia favorável à redução da emissão de gases poluentes na atmosfera”.
“No entanto, a oferta do subsídio tarifário aplicado nos últimos anos comprometeu a renovação da frota, que tem sido aquém do esperado”, adiciona. A frota atual, segundo a empresa, já é composta 80% por veículos Euro 5 (1.071) e 16,6% por Euro 6 (222), “o que reduz a emissão de material particulado em 97%, e as demais chegam próximo de 90% de redução”.
Sobre o Plano de Acessibilidade e Mobilidade Urbana Sustentável de Fortaleza, sancionado em 18 de setembro de 2023, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) destacou que “prevê a construção de padrões de mobilidade mais justos e sustentáveis pelos próximos 10 anos”, em seis eixos:
- Segurança viária;
- Transporte a pé;
- Transporte cicloviário;
- Transporte público coletivo;
- Infraestrutura e circulação viária;
- Transporte de carga e logística.
Entre as medidas previstas, acrescenta a Seuma, estão a “priorização de deslocamentos não motorizados, estímulo ao uso de combustíveis renováveis e menos poluentes, melhorias no transporte público, com ampliação da cobertura e acesso; construção de mais corredores e faixas exclusivas para o transporte público”, entre outras.
Já entre as ações propostas pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) para mitigar os impactos ambientais da mobilidade, estão:
- Ampliação de incentivos financeiros visando o aumento da oferta e da melhoria da qualidade do transporte coletivo;
- Integração intermodal dos sistemas de transporte público, promovendo conexões eficientes entre ônibus, metrô e trens urbanos, de forma a ampliar o alcance e a conveniência do transporte coletivo para os usuários;
- Desenvolvimento de políticas públicas e planos de implementação orientados à promoção do uso de veículos coletivos; e
- Readequação de alíquotas de Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) para veículos individuais antigos e poluentes.