Mudar trajeto e não andar sozinha: 40% das cearenses alteram a rotina por medo de violência na rua
”Já passei por uma situação em uma rua bem movimentada de Juazeiro do Norte. Um rapaz passou de bicicleta e simplesmente apertou meu peito. Comecei a esculhambá-lo, joguei pedra, comecei a gritar e ele saiu como se nada tivesse acontecido.” O relato de uma jovem do Cariri cearense participante da etapa qualitativa da pesquisa "Mulher Coragem", cuja identidade será preservada, ajuda a explicar por que 68% das mulheres se sentem inseguras nos espaços públicos do Ceará.
O estudo mostrou que quatro em cada dez cearenses (40%) mudam a rotina ou hábito do dia a dia devido à falta de segurança por ser mulher. Esse sentimento condiciona a forma como elas decidem se locomover nas cidades: escolhem ruas iluminadas, espaços públicos mais movimentados, evitam sair sozinhas — especialmente à noite —, avisam a alguém de confiança quando saem ou chegam ao destino.
As informações constam na pesquisa “Mulher Coragem, os medos e demandas das mulheres cearenses por segurança”, realizada em 2025, como parte do Projeto Elas, do Diário do Nordeste, que publica a série de reportagens “Mulher Coragem”. O especial é todo baseado no documento, encomendado pelo jornal ao Instituto Patrícia Galvão e executado pelo instituto Ipsos-Ipec, com o patrocínio da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).
O levantamento também evidencia que as restrições se manifestam de formas diferentes por idade e território que habitam. Por exemplo: as mulheres mais jovens, de 16 a 24 anos (48%) e que moram na Capital (48%) têm mais costume de mudar a rotina do que aquelas com 60 anos ou mais (29%) e que moram no Noroeste do Estado (27%).
A pesquisa foi dividida em duas partes: a qualitativa, com seis especialistas participantes que são envolvidas direta ou indiretamente com o debate sobre direitos das mulheres e violência contra mulher, e com um grupo de mulheres com 16 anos ou mais. Já a quantitativa ocorreu de forma presencial e domiciliar com 2.032 meninas e mulheres de 16 anos ou mais de idade, moradoras de 77 municípios cearenses, entre os dias 1º e 14 de outubro de 2025.
Os trajetos desse público para casa, trabalho, academia, instituições educacionais ou locais de lazer são marcados pela hipervigilância e cálculos de rotas seguras. É uma realidade cheia de obstáculos que limitam a mobilidade e o direito das mulheres à cidade, bem como moldam o desenvolvimento psicológico e profissional delas.
“Se for uma rua escura, deserta, ou um local que passa por determinados lugares em que não se sente confortável, ela muda o percurso por ser mulher. É uma coisa que, para muitos homens, não faz o menor sentido. Isso não entra no planejamento de viagem deles”, reflete Camila Bandeira, arquiteta, professora e coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza (Unifor), em entrevista ao Diário do Nordeste.
A psicóloga Layza Castelo Branco reforça: a forma como o indivíduo se insere na cidade varia diante do gênero e das suas experiências. Ela traz o exemplo de que mulheres que foram vítimas de algum tipo de violência na rua podem perder a capacidade de sair para espaços públicos.
Por outro lado, aquelas que não sofreram violência direta, mas que tenham presenciado uma ocorrência ou sido impactadas por notícias, vão utilizar estratégias mentais para se deslocar com mais segurança “mesmo sem ter 100% de certeza de que alguma coisa não vai acontecer”.
Nos 77 municípios cearenses estudados pela pesquisa, as mulheres vivem os espaços públicos com mais medo e sentem menos a liberdade de ir e vir. O principal receio delas nas ruas, parques ou praças é o de serem assaltadas, roubadas ou furtadas (52%).
“Além do assédio, tem o assalto também. Eles visam a gente como um alvo fraco. Já fui assaltada umas quatro vezes. Eles percebem que é uma garota quase indefesa e xingam, levam suas coisas, tratam mal. É bem cruel”, relata um jovem de Juazeiro do Norte à pesquisa qualitativa.
Aquelas que moram na Capital apresentam patamar de insegurança maior nas áreas públicas do que as que vivem no Interior: 79% das entrevistadas de Fortaleza apontam que se sentem inseguras no dia a dia de modo geral e com frequência
Conforme dados da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp-CE), analisados pelo Diário do Nordeste, o Ceará registrou 252 casos de crimes sexuais até 28 de fevereiro deste ano. Desse número, 72 foram notificados só em Fortaleza — número que se iguala ao de casos registrados no Interior Norte.
Saúde mental pode ser afetada
A psicóloga Layza Castelo Branco explica que o medo estrutural pode levar a consequências emocionais e cognitivas. A psicóloga detalha que a exposição constante ao risco e às aflições que são intrínsecas mantêm o corpo em estado de alerta, liberando descargas contínuas de adrenalina e cortisol — o hormônio do estresse.
“Imagina uma mulher que está na parada de ônibus e um homem corre atrás dela. Mesmo que ela consiga entrar no veículo e nada aconteça, ela vai passar o resto do dia, o resto da semana, o resto do mês com aquela descarga de adrenalina no corpo dela. Porque no dia seguinte que ela vai de novo para a parada, o corpo vai liberar de novo aquele cortisol e aquilo vai afetar o desempenho dela no trabalho, vai afetar o raciocínio dela”, elucida.
Recente reportagem da série “Mulher Coragem” mostrou que 72% do público feminino cearense se sente inseguro no transporte público. São mulheres que temem serem importunadas sexualmente e assaltadas.
“Isso afeta inclusive cognitivamente. Se a mulher está tensa porque tem medo de um homem que, na semana passada, encostou nela e está ali dentro do ônibus de novo, aquilo vai ocupar a mente dela. Se ela estava raciocinando sobre uma reunião, ela vai parar de pensar nisso. Ela vai chegar no trabalho mais tensa, não vai se organizar direito”, acrescenta a psicóloga.
Situações como essas podem gerar traumas nas mulheres, principalmente quando ocorrem ainda na juventude, ditando o comportamento e as restrições de mobilidade por anos.
Medo de violência sexual na rua é o mais frequente entre meninas e jovens cearenses
Segundo a pesquisa “Mulher Coragem”, existem diferentes dinâmicas geracionais: a violência sexual é um medo generalizado, mas atinge maior percentual entre as cearenses com até 24 anos (78%) e tende a declinar gradualmente com a idade.
Jovens de 16 a 24 anos temem mais serem vítimas de importunação sexual (58%) e de estupro (52%) nas ruas do Ceará. Além disso, elas são as mais vulneráveis (31%) a sofrer ou presenciar algum tipo de violência no Estado.
Crianças e adolescentes do sexo feminino são, inclusive, a faixa etária predominante das vítimas de violência sexual no Ceará, segundo a Supesp-CE. As meninas de 12 aos 17 anos representam 31,29% dos casos, seguido da faixa dos 6 aos 11 anos (25,62%) e dos 0 aos 5 anos (18,17%).
É diante dessa realidade que as meninas crescem no Ceará: desde cedo, elas compreendem que não é fácil ser mulher e sabem quais são os riscos inerentes à condição feminina. Diferentemente de muitas mulheres mais velhas, elas crescem com o conhecimento do poder do próprio corpo e que certas violências não são normais.
“Elas entendem que são donas do próprio corpo e podem andar com a roupa que querem, mas sabem que existem situações que isso também a coloca em risco”, afirma Elayne Ferreira, assistente social que atua no Núcleo de Acolhimento às Vítimas de Violência (NUAVV), do Ministério Público do Ceará (MPCE).
Orientar as meninas sobre o deslocamento do cotidiano é necessário, mas a profissional reconhece que é uma linha tênue entre educar e amedrontar. “O fato de como os responsáveis abordam isso é muito importante, sempre trazendo [a ideia de que] o corpo é delas. Elas têm essa autonomia de se expressarem da forma que quiserem, mas que, às vezes, no mundo que a gente vive hoje, a proteção é necessária em alguns momentos”, detalha.
“Temos que educar também esses meninos e jovens que estão vindo agora [...] A própria sociedade assume essa responsabilidade [de] não só ensinar as mulheres a se protegerem, mas também educar o público masculino a nos respeitar”, completa.
“A maioria das mulheres violentadas e agredidas é porque disse 'não' ao homem. A gente tem direito de dizer não, a gente tem de ter esse direito”.
Na sociedade desigual em que estamos, ainda há predominância do masculino e da vontade dos homens sobre a das mulheres, prevalecendo a ideia de que o corpo feminino “é entendido como espaço público”. “Ele é visto como aquele que pode ser invadido, que pode ser tocado”, diz a socióloga Jennifer.
“O consentimento da mulher, o ‘não’ dela, não é considerado. A negativa dela é atropelada em detrimento do desejo que o homem está ali disposto a realizar naquele momento. É esse contexto que faz com que as mulheres se sintam realmente muito inseguras”, consolida a promotora de Justiça e coordenadora do NUAVV do MPCE, Lívia Rodrigues.
O que fazer para mudar esse cenário?
A socióloga Jennifer Dantas diz que a sociedade cearense surge, aos moldes da brasileira, com a hegemonia da autoridade advinda dos homens. Historicamente, os locais públicos e os espaços de poder foram ocupados pela população masculina, enquanto as mulheres se restringiam ao espaço privado — como as casas.
Hoje, mesmo que elas estejam ocupando os espaços, ainda precisam resistir a desafios "justificados" pelo gênero. “Por exemplo, nós temos que nos impor mais em determinados locais, passamos por violências de gêneros que não são comuns aos homens”, diz.
Então, as que resistem abrem caminhos para que outras não precisem passar por isso. “Estamos construindo formas de estruturar esses espaços para que eles sejam pensados para as mulheres de forma específica”, afirma.
Mudar a política urbana e a forma como ela é feita para que as mulheres conquistem mais segurança é fundamental. “Ela precisa se sentir segura, precisa ocupar o espaço que ela realmente merece em toda a sociedade”, diz a arquiteta Camila Bandeira.
Ao Poder Público, as entrevistadas da fase qualitativa sugerem investimentos em segurança pública, tais como:
- Aumento do policiamento nas ruas;
- Rondas noturnas em pontos de ônibus e em bairros periféricos;
- Melhoria da iluminação pública;
- Instalação de câmeras de segurança nas vias.
Camila Bandeira destava ainda o poder da educação. Porque, enquanto meninas são educadas para o medo e para a autoproteção, meninos ainda são incentivados à agressividade e à falta de empatia. “Se não começarmos a educar esses homens desde pequenos e a tratar o corpo feminino com respeito e não como objeto, continuaremos alimentando essa cultura do medo”.
“Precisamos ter uma sociedade que se posicione veementemente, que não normalize mais nenhum tipo de violência para não precisar mais um dia no futuro ensinar as meninas a terem medo”, dialoga a psicóloga Layza Castelo Branco.
A pauta precisa estar presente no cotidiano. “Universidades e organizações não governamentais poderiam trazer essa pauta para as escolas e incluir os meninos nisso, para crescerem como homens e saber que aquilo é errado”, diz uma jovem de Fortaleza à pesquisa.
Recentemente, os Três Poderes do País assinaram o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, um compromisso para focar em medidas de enfrentamento contra esse crime e pela garantia da vida das mulheres.
Sob o lema "Todos por Todas", o movimento tem como objetivo enfrentar o machismo estrutural e sensibilizar os homens na defesa dos direitos femininos e pelo fim da violência contra meninas e mulheres. Qualquer cidadão brasileiro pode se somar ao compromisso, compartilhando, divulgando e fiscalizando as ações.
No âmbito estadual, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Ceará oficializaram um pacto semelhante, com o intuito de garantir que a legislação já existente no País para o combate à violência contra a mulher seja efetivada na prática.