Gregorio Duvivier explora a poesia e a beleza da língua portuguesa em novo livro

Escritor e ator reflete sobre o significado de palavras diversas, como "pindaíba" e "quizumba", criando um dicionário poético próprio.

Escrito por Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
11 de Julho de 2026 - 07:00
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Legenda: Gregorio chegou a publicar outros livros, como "Ligue os pontos: poemas de amor e big bang" (2013), e "Soneos de amor e sacanagem" (2021).
Foto: Divulgação/Ana Alexandrino.

Se aventurar pelo livro “Aos pés da letra”, de Gregorio Duvivier, é como participar de um jogo. O leitor adentra um território de descoberta que se propõe a investigar o avesso das palavras. Jaçanã, despedida, mamata e capricho. Em cada virar de página, há um termo novo a se debruçar. 

Mas, longe de ser um dicionário ambulante, Gregorio foge do óbvio com esperteza e humor. Ao pensar na palavra “Pindaíba”, por exemplo, ele escreve: 

Que maneira gostosa de dizer uma coisa tão desagradável. A palavra revela a nossa habilidade de tornar saborosa ou divertida até a falta de recursos”. Isso porque “sabemos, como ninguém, dizer que estamos duros ou lisos, evitando o constrangimento de falar em miséria, penúria, falência”. 

Gregorio Duvivier questiona “o que há num nome?” para produzir seu novo livro.
Legenda: Gregorio Duvivier questiona “o que há num nome?” para produzir seu novo livro.
Foto: Divulgação/Companhia das Letras.

Em seu livro, Gregorio reforça um debate muito presente entre linguistas e estudiosos, a de que as línguas e seus vocabulários são moldados pelos lugares que habitamos e pelas experiências vividas em cada contexto. 

Ao pensar em neve, ele cita que as línguas inuítes, tradicionalmente faladas na região do Ártico, possuem muitas palavras para neve.

Para quem é do Brasil, talvez não tenha sido necessário criar tantos vocabulários para uma realidade distante da maioria dos moradores. Mas Gregorio pontua:

“Os inuítes percebem neves diferentes porque têm palavras diferentes pra ela, da mesma forma que os russos enxergam melhor as nuances de azull porque têm palavras diferentes para azul-claro e azul-escuro, e por aí vaí”. 

E, voltando pra Pindaíba, o escritor brinca, apontando que uma coisa é fato: a pindaíba não foi palavra que veio da Europa. “O português que se fixou aqui podia até estar na miséria, mas foi só depois de chegar que ele ficou na pindaíba”. 

Dimensão política e social das palavras

Ele pensa ainda a dimensão política que atravessa os nomes. Ao falar sobre os Estados Unidos da América, coloca que é um país sem nome, que parece pegar o que tinham à mão naquele momento. E, ainda assim, esse país se contrói como uma estrutura política que reivindica simbolicamente a própria América.

Enquanto o Brasil, cujo nome nasce da exploração colonial de um recurso natural, também carrega uma força nele. “Somos esse país que exauriu seu bem mais precioso, mas também um país incandescente, faiscante, ardente, fogoso”.

Como disse acima, a leitura é um jogo. O leitor se aproxima das palavras, as vê bem de perto, vira a cabeça como se para enxergar os elementos diferentes de uma fotografia. 

E são muitos os termos a se explorar: pobrema, grude, fora, de repente, dança, muçarela, chocho, broxa, xingamento, vacilão, desbunde, bunda, moleque, quizumba. Cansou? Ainda tem mais. Como o próprio livro se apresenta, essa é uma declaração de amor à língua portuguesa. Cabe ao leitor embarcar nessa jornada e aproveitar. 

Gregorio Duvivier em Fortaleza

Gregorio Duvivier, inclusive, estará em Fortaleza nos dias 23 a 24 de julho, com a peça “O céu da língua”. O espetáculo já ultrapassou a marca de 250 mil espectadores e segue em turnê pelo país.

Serviço

Livro "Aos pés da letra"
Quanto: R$ 69,90
Onde comprar: Companhia das Letras