Desde janeiro sem trabalhar, grupos de Maracatu em Fortaleza cobram apoio da gestão municipal

Mesmo com a realização do evento virtual "Nosso Maracatu", representantes explicam que iniciativa organizada pela Secultfor é insuficiente diante dos prejuízos acumulados desde 2020

Maracatu Rei Zumbi durante apresentação no evento
Legenda: Maracatu Rei Zumbi durante apresentação no evento "Nosso Maracatu"
Foto: Flávio Bertagnoli

Na última segunda-feira (21), a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor) iniciou o evento "Nosso Maracatu". Até 25 de junho, cinco shows com transmissão via YouTube reúnem os 14 grupos de Maracatu da capital cearense.

Vale a pena acompanhar os shows e prestigiar essa tradição que resiste no Ceará. Porém, a iniciativa da gestão municipal acontece em meio a severas críticas de profissionais do setor. As agremiações enfrentam e denunciam a falta de apoio financeiro desde janeiro. 

Em paralelo à necessária suspensão do Carnaval, explicam organizadores, veio o atraso na distribuição de recursos garantidos por lei. O maracatu é Patrimônio Imaterial de Fortaleza. A Lei Orçamentária Anual (LOA) aprovada para 2021, destina mais de R$ 5 milhões para o Ciclo Carnavalesco.  

Outro recurso importante no calendário são os R$ 123 mil reais voltados à realização do projeto “25 é Dia de Maracatu”. Desde 2020, essa ação foi suspensa. Três nomes ligados a importantes grupos de Fortaleza repercutem o difícil momento.  

Fundado em 2009, o Maracatu Nação Pici tornou se um ícone da comunidade onde atua
Legenda: Fundado em 2009, o Maracatu Nação Pici tornou se um ícone da comunidade onde atua
Foto: Flávio Bertagnoli

Para o presidente do Maracatu Rei Zumbi, Teonildo Lima, a ausência de uma ação concreta da Secultfor é notória ao longo de 2021. “Essa live dos shows acontece por conta de nossa reivindicação”, situa o entrevistado.  

Teonildo afirma ter participado de três reuniões com a secretaria guiada pelo vereador Elpídio Nogueira. "Seis meses já se passaram e em pleno período junino acontece o 'Nosso Maracatu', explica. 

Pela participação, cada grupo contou com o cachê de R$ dois mil reais. “Até menos, pois fomos obrigados a emitir nota fiscal e já saímos perdendo algo em torno de R$ 200”, estipula o presidente.  

“A pele do menor instrumento de percussão custa em torno de R$ 80 reais.  Um quilo de plumas é algo próximo de dois mil reais. Nos deslocamos do outro lado da ponte da Barra do Ceará para fazer esse evento. Desse valor pelas ‘live’ fica nada para investir no Maracatu”, observa Teonildo.  

Sem Carnaval em 2022  

Segundo o Coordenador do Maracatu Nação Pici, Carlos Brito, a lei deveria ser respeitada com o repasse das verbas provenientes do Ciclo Carnavalesco e do projeto “25 é Dia de Maracatu”. 

Não entendemos até agora qual é a política da nova gestão da Secultfor
Carlos Brito
Coordenador do Maracatu Nação Pici

Arte-educador, Carlos Brito interpreta como grave a situação. De acordo com o brincante, o aluguel da sala que abriga o material do Nação Pici está atrasado. O futuro é questionado.

“Para mim, não vamos ter nem Carnaval em 2022. Pelo andar da carruagem, com essas vacinações, não estaremos imunes até dezembro”, argumenta. 

Maracatu ameaçado 

Vice-presidente do Maracatu Vozes da África, Márcio Santos afirma que desconhece qualquer proposta da PMF em manter as agremiações. "O que nos ajudou nesse período foram os recursos da Lei Aldir Blanc, do ano passado ainda. Esse ano ainda não vimos nenhuma ação”, completa. 

Maracatu Vozes da África completou 40 anos em 2020
Legenda: Maracatu Vozes da África completou 40 anos em 2020
Foto: Flávio Bertagnoli

O Vozes da África, explica o gestor, é um ponto de memória vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Sua sede funciona como espaço museológico, com gastos voltados à manutenção do espaço.  

“Temos o acevo fotográfico, de fantasias históricas, tem o barracão.  Pagamos água, luz, internet, aluguel. Esses dois mil reais que chegou (e sabe se lá quando vai aparecer mais alguma coisa), para manter um espaço como o nosso, não dá nem para chegar", desabafa.  

Socorro bem-vindo 

O presidente da Associação Cultural das Entidades Carnavalescas do Ceará, Raimundo Praxedes, defende que o cenário é difícil. No entanto, estipula, qualquer ajuda no momento é necessária.  

“Tivemos um cachê de dois mil, recebemos o valor na hora, algo inédito até agora. Gravamos com uma estrutura de primeiro mundo, com todo o respeito ao maracatu”, aponta o representante. Praxedes descreve alguns pontos do recente diáogo com a PMF.  

“A Secultfor prometeu que quando terminar essa live, vamos continuar fazendo eventos. O Secretário de Turismo (Alexandre Pereira), prometeu fazer apresentações de maracatu no Estoril para turistas. Estamos aguardando. Vai melhorar. É preciso reconhecer quando a coisa acontece”, finaliza Raimundo Praxedes, 

Resposta da gestão

A Secultfor justifica que a ausência de amparo aos grupos de maracatu deve-se ao contexto de emergência sanitária. "Diante da calamidade pública, provocada pela pandemia da Covid-19, há necessidades eventuais de contingenciamento para uso desses recursos na Saúde, de forma emergencial"

Sem qualquer projeto voltado especificamente aos grupos de maracatu, a secretaria afirma que organiza o "Edital de Cultura Tradicional Popular". Segundo a gestão, o documento "está em fase de finalização" e deve contemplar "diversas expressões populares da capital cearense". 

"Os grupos de Maracatus serão contemplados com esta iniciativa. A data de lançamento e mais informações serão divulgadas em breve", traz o comunicado.

Questionada acerca da origem da verba responsável pela realização do "Especial Nosso Maracatu", a Secultfor afirma que a "ação foi executada com recursos próprios da pasta". O valor gasto com a produção do evento não foi divulgado.

 

 

 

 

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