Segurança

'Tomate, pimenta e colorau': advogados e presos negociaram por códigos migração para o CV

04/07/2026 - 09:00

Em menos de um mês, nove líderes da extinta facção criminosa Guardiões do Estado (GDE), presos na penitenciária de segurança máxima do Ceará, migraram para o Comando Vermelho (CV). A "mudança de casa" dos criminosos teria sido negociada, em grande parte, pelos 12 advogados investigados na operação "Mensageiros do Crime", deflagrada nesta semana pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público do Ceará (MPCE).

Na prática, o aumento do poderio de uma facção, qualquer que seja, causa impactos devastadores na sociedade, como a expulsão de moradores de suas casas, o aumento do medo e da opressão em comunidades mais vulneráveis, a cobrança diferenciada ou a interrupção de serviços como internet e transporte e a extorsão de comerciantes. Além disso, amplia a capacidade de criminosos enfrentarem instituições e autoridades públicas e interferirem diretamente em decisões e processos políticos.

A UP-Máxima foi inaugurada em agosto de 2021 e fica localizada em Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza.
Legenda: A UP-Máxima foi inaugurada em agosto de 2021 e fica localizada em Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza.
Foto: Divulgação/MPCE.

A debandada dos líderes da GDE para o CV foi registrada nas fichas criminais dos presos. No total, conforme documentos acessados pelo Diário do Nordeste, só no período entre 19 de dezembro do ano passado e 12 de janeiro deste ano, e coincidentemente após diversas visitas do grupo de juristas investigados, oficializaram o novo "endereço":

  1. João Paulo Calado de Sousa ("JP" ou "Professor"): influente no bairro Aracapé, em Fortaleza; 
  2. Francisco Robson de Souza Gomes ("Mitol): influente no bairro Vila Velha, em Fortaleza;
  3. João Vaz de Sousa Neto ("Kauê"): influente no bairro João XXIII, em Fortaleza;
  4. Francisco José Teodósio ("Manteiga): influente no bairro Colônia, em Fortaleza;
  5. Diego Belchior de Carvalho ("Playboy"): influente no bairro Vicente Pinzón, em Fortaleza;
  6. Zaqueu Oliveira da Silva ("Macumbeiro"): influente no bairro Aracapé, em Fortaleza;
  7. Edgly Dutra Barbosa ("Dudeca"): influente em Maracanaú, especialmente no bairro Pajuçara;
  8. Waldiney de Melo Lima ("Taxista"): influente no bairro Messejana, em Fortaleza;
  9. Erbson Emídio ("Bebel"): influente em Baturité.

Todas essas lideranças discutiram os detalhes do processo com os advogados às claras, no parlatório da Unidade Prisional de Segurança Máxima do Ceará (UP-Máxima), só que em linguagem codificada. Para não falar em migração, os criminosos conversavam sobre "aluguel de casa", "compra de casa", "mudança de casa" ou "pintura de casa".

O contexto da atividade doméstica era complementado por termos como "família", "crianças", "filhos", "colégios" e "escola". No entanto, o que a investigação do Gaeco apontou, é que, para os faccionados, os familiares representam os companheiros de organização, enquanto os filhos são seus subordinados e as escolas são unidades ou alas prisionais.

'É tomate, pimenta e colorau, né?'

Um dos diálogos que mais chamaram a atenção dos investigadores ocorreu entre o advogado Agnelo Alexandre de Souza Amorim e João Vaz de Sousa Neto, o "Kauê". Na conversa, monitorada por escutas ambientais autorizadas pelo Poder Judiciário, o defensor particular e o preso utilizam termos como "pimenta", "tomate" e "colorau" para se referir à cor vermelha e tratar sobre a migração para o CV. Veja:

Advogado: "Rapaz, tem nem muito o que enrolar, né."
Preso: "É."
Advogado: "Tem muito o que conversar, não. É sal ou é cena? É sal, só isso."
Advogado: "Aí tu pediu pra eu falar com a tua senhora pra ela mandar uma notícia... Ela tá esperando só o seu posicionamento de realmente confirmar."
Preso: "Macho, diz lá que tá sendo resolvido."
Advogado: "Mas por ele também tomate, pimenta e colorau, né?"
Preso: "Sim."
Advogado: "Macho, o que tem macho é a tal de uma massa lá na Caucaia. Num pedacinho da Caucaia. O que tem macho é um pedacinho duma massa lá no, na Messejana, né. É assim, só esperando mesmo por ser engolido, né."

O registro, que durou meia hora, data de 30 de dezembro de 2025, mesmo dia em que "Kauê" oficializou a sua "mudança de casa" para o Comando Vermelho.

'Colocar essas motos pra rodar de novo, né?'

Embora tenham preferido utilizar termos consolidados no universo do crime organizado para tratar das migrações entre facções, os advogados, no entendimento dos investigadores do Gaeco, estavam cientes das captações ambientais na segurança máxima e foram criativos no intuito de garantir que as mensagens seriam compreendidas pelos faccionados.

Em conversa com Francisco Robson de Souza Gomes, o "Mitol", a advogada Raissa Xavier Leitão falou em "motos" para pedir um posicionamento.

Advogada: "Colocar essas motos pra rodar de novo, né? Porque querendo ou não é a fonte de renda que consegue pagar os seus advogados, né?"
Advogada: "Mas ele disse que você precisava dizer se era pra alugar de novo ou não... Porque tá lá tudo parado. Esperando, esperando você dizer, entendeu?"
Preso: "Diga pra ele lá doutora que tô assim, entendeu, muito assim, entendeu. Muito pensativo. Porque o mundo aqui, são dois mundos diferentes."
Advogada: "Então tem o seu ok lá para conseguir locar tudo, né?"
Advogada: "Você não pode perder essas motos, não. Está tudo guardada, viu?"

Os dois conversaram na tarde de 29 de dezembro de 2025. No dia seguinte,  de acordo com a investigação do Gaeco, "Mitol" oficializou a troca de facção para o CV.

'Teu inquilino mudou'

Raissa também abordou Francisco José Teodósio, o "Manteiga", para pressioná-lo a tomar uma decisão sobre a "mudança de casa", afirmando que um terceiro, que os investigadores concluíram tratar-se de "Mitol", já havia feito o movimento.

Advogada: "O último atendimento que eu tive contigo, eu te... até ficou pendente um assunto para eu te falar. O teu inquilino da tua casa lá que estava alugada, ele mudou."
Preso: "Eu sei."
Advogada: "Viu? E aí, a gente vai botar para alugar de novo, o mesmo valor, fica a mesma coisa?"

"Manteiga" já havia confidenciado à jurista o desejo de "mudar de casa" e de "convívio" no presídio. A transferência foi formalizada em 12 de fevereiro deste ano, quando ele alterou seu vínculo para o Comando Vermelho e conseguiu a troca de cela.

'O que ele precisar da minha família, a gente tá junto'

A advogada Maria Jakelyne Albuquerque Almeida, uma das integrantes do grupo de causídicos que trabalhava para as facções na UP-Máxima, também atuou para garantir a ida de "Manteiga" para o Comando Vermelho. Um dia após a visita de Raissa Xavier ao custodiado, em 30 de dezembro de 2025, eles tiveram o seguinte diálogo:

Advogada: "Eu atendi um rapaz agora, lá no CDP, o nome dele, ele é até charada do meu marido, o Fabrício. Ele, eu falei assim, vou atender seu Manteiga. Aí ele: 'Ô rapaz, diga pra ele que eu gosto muito dele, que eu tô firme e forte com ele. Muito firme e forte com ele, 100%'."
Advogada: "'O que ele precisar de mim, eu tô por aqui, o que ele precisar da minha família, a família dele, a gente tá junto'."
Preso: "Fale pra minha esposa, pra mandar avisar meus parentes... que se mude também, entendeu? Que mandei desejar um feliz ano novo pra cada um deles, né. Apesar de chegando, vai dar tempo... Mas que peça pra eles também seguir, entendeu?"

Por fim, o custodiado afirmou à advogada que autorizava a "família" a "pintar a casa" e deixá-la organizada para ele "alugar".

'As crianças gostariam de poder continuar estudando'

No processo de cooptação de novos integrantes para o CV, os membros da GDE eram visitados por vários advogados e mais de uma vez. Quem também "atendeu" o "Mitol" foi Agnelo Alexandre, que argumentou com o preso que seus "filhos", ou seja, subordinados, gostariam de poder "continuar estudando".

Advogado: "As crianças gostariam de poder realmente continuar estudando, né? Mas... então, sem material escolar e não tem como progredir nos estudos assim. Então, realmente, melhor esperar realmente o ano acabar pra voltar pra escolinha do mesmo que time que tá ganhando, né?"
Preso: "Diga lá a doida lá, né? Que eu tô mandando um abraço, né? Tem uns dentes igual eu. Estou mandando um abraço. E que é isso mesmo, entendeu? Que eu tô mandando um...Fico feliz. E diga baixinha, né, doutor? Que eu tô pedindo a baixinha lá. Se realmente ela tinha lá uma possibilidade lá de… ver alguma coisa com meus filhos lá. Viu? Que eu resolvo com ela depois, isso aí. Viu? Diga, eu tô mandando um abraço. E que é isso mesmo, entendeu? Infelizmente."

Em meio à hegemonia do CV, 'mudar de casa' substitui 'rasgar a camisa'

No último domingo (28), poucos dias antes da deflagração da operação "Mensageiros do Crime", do Gaeco, um detento da Unidade Prisional Elias Alves da Silva (UP-Itaitinga 4) foi flagrado com um bilhete escrito à mão que garantia que o Comando Vermelho dominava 98% do território de Fortaleza e 92% de todo o Ceará. A mensagem foi assinada por outro interno identificado como "Mister M", mas a autoria do recado ainda é investigada pela Polícia Civil do Estado (PC-CE).

Bilhete (conhecido entre os presos como 'catatau') apreendido em penitenciária de Itaitinga, na região metropolitana de Fortaleza, dias antes da deflagração da operação
Legenda: Bilhete (conhecido entre os presos como 'catatau') apreendido em penitenciária de Itaitinga, na região metropolitana de Fortaleza, dias antes da deflagração da operação "Mensageiros do Crime".
Foto: Reprodução.

Embora não exista, oficialmente, essa estatística, ela coincide com o aumento da influência da organização criminosa carioca na capital cearense a partir da migração das lideranças de outros grupos. Nesse contexto, a mudança de facção passa a deixar de ser um evento raro e o ato de "rasgar a camisa" suaviza-se cada vez mais para um "mudar de casa".

'Rasgar a camisa', por muitos anos, no contexto das facções, aqui no Ceará, era uma atitude extrema que um membro tomava e ia sofrer graves consequências, ia ser caçado pela sua ex-facção. Mas, a partir do segundo semestre de 2025, tivemos um processo de crescimento do Comando Vermelho, sobretudo na região metropolitana de Fortaleza, e a ideia de 'rasgar a camisa', que era algo muito raro entre os faccionados, foi ficando mais comum. O CV foi tomando territórios, invadindo. E o CV tem, dentro da sua ideologia faccional, essa ideia muito forte de irmandade, de família, e aí foi construindo nos novos membros essa mesma força simbólica da construção de identidade enquanto uma irmandade".
Artur Pires
Doutor em Sociologia e pesquisador do LEV/UFC

Contudo, para o doutor em Sociologia Artur Pires, pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV/UFC), embora os códigos relacionados à "família" tenham base na construção de identidade familiar entre os faccionados, não deixam de ser somente mais uma estratégia de comunicação. "A linguagem cifrada, por meio de códigos secretos, sempre foi uma estratégia muito utilizada por grupos armados não estatais, por grupos em conflitos com a lei", pontua.

Com a presença recente da captação ambiental no presídio de segurança máxima, o pesquisador acredita que as facções encontrarão novas maneiras de burlar as tentativas de restringir sua comunicação. "Tem o 'catatau', por exemplo, em que eles [presos] escrevem em um papel e o enrolam até esse papel ficar de um tamanho minúsculo. Esse papel entra nos presídios entregues pelos advogados, pelas famílias. Mas, certamente, eles encontrarão estratégias e táticas para continuar a comunicação entre presídio e rua", entende Artur.

Para o pesquisador, a atuação de advogados nessa comunicação, como no caso dos "Mensageiros do Crime", escancara uma rede de "interdependência criminal" em que juristas são peça importante no estabelecimento do diálogo entre os grupos e na participação em outras atividades ilegais das organizações.

Controle do crime passa por isolamento de lideranças, entende MP

Na terça-feira (30), quando deflagrou a operação "Mensageiros do Crime", com apoio da Polícia Civil do Ceará (PC-CE) e da Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização (SAP), o Ministério Público detalhou, com a presença do procurador-geral de Justiça, promotor Herbet Gonçalves Santos, que prendeu 11 dos 12 advogados investigados, uma é considerada foragida, e cumpriu 17 mandados de prisão contra líderes de facções, sendo que 15 deles já estavam recolhidos no sistema penal cearense.

Naquele dia, em coletiva de imprensa na sede do MPCE, os promotores de Justiça do Gaeco à frente da investigação disseram que o trabalho só foi possível após a instalação de escutas ambientais no presídio de segurança máxima do Estado, a partir de um pedido do MP acatado no ano passado pelo Tribunal de Justiça (TJCE).

Promotores de Justiça conhecem as instalações da UP-Máxima.
O secretário da SAP, Mauro Albuquerque, apresenta o parlatório da UP-Máxima para os representantes do MPCE.
Legenda: Visita de membros do MPCE à penitenciária de segurança máxima do Ceará.
Foto: Divulgação/MPCE.

Conforme as investigações do Gaeco, o grupo de advogados era o principal elo entre lideranças do Comando Vermelho, do Primeiro Comando da Capital (PCC) e da Massa Carcerária, também conhecida como Tudo Neutro (TDN). Em linguagem codificada, eram eles que repassavam ordens e orientações a familiares dos faccionados, a outros presos e a criminosos em liberdade, possibilitando às facções, especialmente ao CV, que se reorganizassem e se expandissem territorialmente.

"Foi verificado, com as investigações, que havia advogados que trabalhavam para uma organização, especificamente, e outros não. Mas, todos se aproveitavam das visitas.Visitas diárias para levar informações acerca da logística dessas facções criminosas", resumiu o promotor de Justiça Jairo Pequeno Neto.

Para o coordenador do Gaeco, Oscar Stefano, houve um claro "abuso de direito" por parte dos advogados no acesso irrestrito aos presos, uma vez que muitos visitaram custodiados que não eram seus clientes. "É importante que se busque isolar as lideranças. De que adianta o policial militar arriscar a vida para prender o indivíduo altamente perigoso, a Polícia Civil fazer o seu trabalho, o Ministério Público denunciar, o Judiciário condenar, se aquele indivíduo que é tão nocivo para a comunidade, que não respeita a vida, que é responsável por esquartejamento... [...] continua dando ordens das mais abjetas possíveis, mesmo preso no presídio dito de segurança máxima?", questionou o promotor de Justiça.

Sobre a expansão do domínio do CV, especificamente, Stefano ressaltou o movimento migratório intenso dentro do presídio de segurança máxima. "Tem que ser analisado no contexto estadual e no contexto até de percepção da população, que determinada facção cresceu sua atuação no Estado. Não só cresceu, como passou, também, a extorquir moradores. O morador mais pobre passou a pagar mais caro pela internet, pelo gás, pela água. Tudo isso tem que ser analisado no contexto também do ambiente prisional", reforçou o promotor.

Veja a relação de advogados denunciados no esquema:

  1. Cintia Emanuela Daniel Alves (foragida);
  2. Raissa Xavier Leitão;
  3. Agnelo Alexandre de Souza Amorim;
  4. Francisco Jair Moreira Caetano;
  5. Debora Marny de Aguiar Parente;
  6. Francisca Leny Carneiro;
  7. Aniele dos Santos Moreira;
  8. Ana Flávia Martins Braga da Silva;
  9. Carina Brauna Bruno Sales;
  10. Maria Jakelyne Albuquerque Almeida;
  11. Tancredo de Lima Araújo;
  12. Rennier Martins Vasconcelos.

Segundo a Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará (OAB-CE), em nota enviada ao Diário do Nordeste na quarta-feira (1º), todos os juristas envolvidos no processo estão com seus registros profissionais suspensos cautelarmente. Sem fazer juízo de valor sobre o caso, contudo, a instituição repudiou "qualquer tentativa de criminalização do exercício profissional".

Apesar disso, OAB-CE afirmou que, se confirmada a participação dos advogados em "condutas incompatíveis com a ética e a dignidade da advocacia", "serão adotadas as medidas cabíveis no âmbito do Tribunal de Ética e Disciplina".

A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos advogados. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

Créditos

Luana Severo e Emerson Rodrigues, Reportagem | Emerson Rodrigues, Supervisor de Jornalismo | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | Lincoln Souza, Editor de Arte | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

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