Um bilhete apreendido com o preso Carlos Alberto Ferreira de Lima, 31, no último domingo (28), na Unidade Prisional Elias Alves da Silva (UP-Itaitinga 4), garante que o Comando Vermelho (CV) domina quase a totalidade da capital cearense e cerca de 90% do Estado. A mensagem é assinada por outro interno identificado como "Mister M", mas a autoria do bilhete ainda é alvo de investigação da Polícia Civil do Ceará (PCCE).
Carlos Alberto foi flagrado por um policial penal, durante uma visita, retirando o recado do bolso e tentando repassá-lo para fora da penitenciária com informações sobre o suposto avanço territorial do Comando Vermelho no Ceará e em Fortaleza.
O Diário do Nordeste teve acesso a documentos com detalhes da prisão de Carlos Ferreira e da mensagem apreendida com ele. A reportagem não conseguiu contato com a defesa do autuado.
"Referente as covardias da máquina, troquei um papo com a rua. Falei do desenvolvimento e do avanço do CV, expliquei que tudo o que nós tá passando é por causa das consequências das guerras, mas que a guerra foi necessária pra deixar o Estado 92% CV e a Capital 98% [sic]", dizia a mensagem.
Sem conseguir repassar o recado devido ao monitoramento dos policiais penais, quando retornou à cela, ele foi abordado pelo comportamento "suspeito" e conduzido à Delegacia Metropolitana de Itaitinga para o registro do flagrante.
No universo do crime organizado, bilhetes do tipo são chamados de "catataus" e geralmente são utilizados para transmitir ordens, ameaças e informações estratégicas sobre facções para o lado de fora dos presídios.
Preso tinha 'livre acesso' a diferentes alas da cadeia
Preso há oito anos e nove meses por tráfico de drogas e tentativa de homicídio, Carlos Alberto alegou, em depoimento, que estava na ala de alimentação quando notou o papel no chão e decidiu guardá-lo no bolso por curiosidade de saber do que se tratava. Ele afirmou ainda que não chegou a acessar o conteúdo da mensagem.
Segundo os policiais penais que o acompanharam à delegacia, por trabalhar na entrega de refeições, Carlos tem "livre acesso" a diferentes ambientes e custodiados da penitenciária, incluindo alas do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Na delegacia, o preso, inclusive, negou fazer parte de qualquer facção, apesar de estar abrigado na área do PCC, que exerce influência na cidade de Mombaça, de onde Carlos é natural. Contudo, na ficha criminal dele, o detento é classificado como membro do CV.
Veja trecho do manuscrito
"Referente as covardias da máquina, troquei um papo com a rua. Falei do desenvolvimento e do avanço do CV, expliquei que tudo o que nós tá passando é por causa das consequências das guerras, mas que a guerra foi necessária pra deixar o Estado 92% CV e a Capital 98%. E foi por consequência da guerra que as leis tão mais severas lá fora e as cadeiras tão acoxadas.
Aí entrei na parte do desenvolvimento, que a permanência agiu na inteligência convidando a todos pra se unir num crime só 'tudo vermelho' e que como diminuiu as mortes, os assaltos, sem confusão nos estádios de futebol, proibido pichação, proibido brigar em festas, com essas reduções que não contribuía em nada pro crime, quando hoje o Estado está se desenvolvendo no turismo, na economia, e com esse resultado + dinheiro no bolso dos cidadão pra gastar nas nossas bocada e menos atenção das autoridades em cima do crime. Ou seja, é só dá tempo ao tempo, pois a melhora pra dentro das cadeiras e pra liberdade é só questão de tempo. Essa é a real [sic]."