Facção pagava passagens aéreas para advogadas visitarem presos e repassarem informações do CV para o Ceará

Segundo a investigação, as advogadas eram orientadas pelos líderes da facção, como Noé de Paula Moreira, réu na Justiça como mandante da chacina das Cajazeiras.

Escrito por Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
01 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Investigação conduzida pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas, com sede em Fortaleza.
Foto: Divulgação/PCCE.

Entre os presos da operação da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE), que resultou em 56 mandados de prisão contra membros do Comando Vermelho (CV) nesta terça-feira (30) no Ceará e em outras unidades da federação, estão duas advogadas que atuavam como "porta-vozes" de líderes da facção que estavam presos. Elas tinham, inclusive, segundo a Polícia Civil do Ceará (PCCE), passagens aéreas custeadas pela organização criminosa para manter o fluxo de informações.

Entre esses faccionados estavam Noé de Paula Moreira, o 'Gripe Suína', réu na Justiça do Ceará como mandante da chacina das Cajazeiras, que matou 14 pessoas em 2018. 

"É importante, por exemplo, destacar que uma das condutas da advogada era ser custeada pela própria organização criminosa. Então, passagem aérea para visitar, por exemplo, esse preso que se encontrava em Brasília, era custeada pela organização criminosa. Demonstra que ultrapassa o limite da profissão, deixou de ser profissional do direito e passou a integrar a mesma organização criminosa e atualiza a liderança em tempo real", explicou o delegado adjunto da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), João Gabriel Cardoso. 

Além das duas advogadas, identificadas como Maria Viviane de Vasconcelos e Priscila Carvalho Melo, uma terceira profissional da advocacia foi alvo somente de busca e apreensão. Em nota, a Ordem dos Advogados do Brasil Secção Ceará (OAB-CE), informou que, até a publicação desta reportagem, "não foi comunicada oficialmente da operação".

"Ressaltamos que, caso seja confirmada a participação de advogado(a) em condutas incompatíveis com a ética e a dignidade da advocacia, serão adotadas as medidas cabíveis no âmbito do Tribunal de Ética e Disciplina (TED), nos termos da Lei nº 8.906/94. Conforme dispõe o § 2º do art. 72 do Estatuto da Advocacia, os processos disciplinares tramitam sob sigilo, sendo suas informações acessíveis apenas às partes, seus defensores e à autoridade judiciária competente. A OAB Ceará reafirma seu compromisso inegociável com a ética, a legalidade, o respeito da advocacia e a defesa da sociedade, não compactuando com qualquer prática ilícita ou conduta que comprometa a dignidade da profissão", disse a Ordem. 

A defesa das advogadas não foi localizada. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

Mandante de chacina comandava facção mesmo preso 

No total, vinte alvos já estavam recolhidos no sistema prisional, além de Noé de Paula, que está atualmente no Presídio Federal de Brasília, por conta de sua periculosidade. Noé chegou a passar também pela Penitenciária de Catanduvas, no Paraná, depois de ter sido transferido do Ceará. Ele dava ordens e enviava recados criminosos, mesmo recolhido. 

Ele ainda não foi julgado pela chacina originada de uma "guerra" entre GDE e CV, no antigo Forró do Gago, pois o processo está em fase de julgamento de recursos, após a Justiça do Ceará decidir pela pronúncia, ou seja, por levar ele e outros réus a julgamento. 

Noé possui uma série de antecedentes criminais ainda, por crimes como roubo, receptação, associação criminosa, adulteração de sinal identificador de veículo automotor, porte ilegal de arma de fogo e resistência, entre outros. 

Advogadas tinham meta de visitas para atingir

Segundo as investigações, por meio das advogadas, dos familiares e relacionamentos, os criminosos recolhidos no Sistema Penitenciário cearense determinavam onde deviam ser estabelecidos redutos criminosos, além de crimes de diversas naturezas. De acordo com o delegado titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), Thiago Salgado, eram dadas ordens para "quais bairros deveriam tentar tomar um grupo criminoso rival", além de "todas condutas relacionadas a esses crimes correlatos e violentos que essas organizações criminosas insistem em praticar aqui no estado do Ceará". 

No curso das investigações, que tiveram apoio da Polícia Penal, as condutas das advogadas e de outros integrantes, que foram classificados pelos delegados como integrantes de facção, foram reveladas à PCCE. A maioria das ordens foi repassada enquanto Noé estava preso no Ceará. As advogadas tinham metas de visitas a atingir para receberem honorários

O que se cumpre destacar é que o advogado se valeu da condição e da prerrogativa de ter acesso ao detento. As duas que foram presas, ficou claro que faziam visitas frequentes, inclusive tendo uma meta a ser atingida. E o intuito era só um: levar e trazer informações do crime organizado para os detentos no interior dos presídios aqui do estado do Ceará. E aí isso ficou bem claro na investigação, razão pela qual foram presos no dia de hoje [dia 30 de junho]
Ricardo Pinheiro
Delegado diretor do Departamento de Repressão ao Crime Organizado

Ainda segundo Pinheiro, as advogadas "ultrapassaram o limite do exercício profissional", pois se tornaram peças fundamentais na logística de comunicação do grupo criminoso. 

Ligação com mulher do alto escalão da GDE que foi assassinada 

De acordo com as investigações, detalhadas durante coletiva de imprensa nesta terça-feira (30), os suspeitos presos tinham ligação com a "conselheira final" da então facção GDE, Patrícia de Paula de Sousa Bezerra, a 'Fatare', líder de facção que foi morta a tiros em Pacatuba em outubro de 2025. Ela era conhecida das forças de segurança cearense, e só foi presa pela primeira vez no Ceará em novembro de 2024. 

As advogadas, principalmente, repassavam recados dos líderes para 'Fatare', enquanto ela estava solta. A mulher tinha uma condenação por tráfico internacional de drogas. 

"Essas advogadas mantinham contato com essa liderança já falecida e repassavam recados daquelas lideranças que estavam presas para fora do sistema prisional." E aí elas recebiam valores mensais pelas visitas e pelos recados [...]. Essa foi uma operação de grande envergadura, na qual nós conseguimos tanto mandado de prisão para essas lideranças que se encontravam presas, como também para familiares que facilitavam a interlocução", explicou o delegado adjunto da Draco, João Gabriel Cardoso. 

O diretor da DRC, Ricardo Pinheiro, destacou que a estrutura criminosa sofreu um "duro golpe", e ressaltou que a Draco de Fortaleza fechará o semestre com mais de 330 prisões realizadas no âmbito do combate às organizações criminosas. 

A investigação, que continua em curso, iniciou em 2024. A operação foi apoiada pelas equipes do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), Departamento de Inteligência Policial (DIP), do Departamento de Polícia Metropolitana (DPM), do Departamento de Polícia do Interior Norte (DPI Norte), do Departamento de Polícia do Interior Sul (DP| Sul), da Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização (SAP) e da Polícia Penal Federal. 

Nessa terça, a força-tarefa atuou em Fortaleza, Caucaia, São Gonçalo do Amarante, Maracanaú e Iguatu, no Ceará, além de Brasília (DF). 

A primeira fase da "Operação Impacto" foi deflagrada em janeiro deste ano, com o cumprimento de mandados contra dezenas de integrantes do CV. 

 

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