O suposto ato criminoso de um soldado da Polícia Militar do Ceará (PM-CE) teria sido o 'estopim' para as mortes de, pelo menos, um dos dois homens que tiveram partes do corpo encontradas em sacos plásticos na última sexta-feira (7), no bairro Jacarecanga, em Fortaleza.
O Diário do Nordeste confirmou a informação com três oficiais da corporação e dois praças, um deles sendo companheiro de batalhão do investigado. A reportagem também confirmou a história com um integrante do Ministério Público do Ceará (MP-CE) e com um investigador da Polícia Civil do Estado (PC-CE).
Conforme a apuração, um dos mortos foi "contratado" pelo PM para vender um fuzil apreendido por ele há algumas semanas no bairro Pirambu. O armamento pertencia à facção carioca Comando Vermelho (CV), que exerce influência sobre a área, e foi ofertado pela vítima à mesma organização criminosa, pelo valor de R$ 60 mil.
Refugiado no Rio de Janeiro, de onde segue dando ordens para crimes no Ceará, Carlos Mateus da Silva Alencar, o 'Skidum', um dos principais nomes do CV na Capital, foi informado sobre a tentativa de venda da arma apreendida e mandou executar o intermediador, que seria um "blogueirinho" conhecido na região do Pirambu. O nome da vítima ainda não foi revelado.
O secretário estadual da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), Roberto Sá, admitiu, em coletiva de imprensa na própria sexta, que 'Skidum' estava por trás dos assassinatos e que a Polícia já sabia a motivação do crime, mas não deu outros detalhes.
O que se sabe é que o PM que tentou vender a arma para o CV foi ameaçado de morte por 'Skidum' e tentou se livrar da arma no mesmo bairro em que a apreendeu, mas foi visto por moradores da região, que informaram o fato a policiais de outra patrulha.
Na última terça-feira (4), o policial foi transferido de batalhão dentro da Corporação.
A SSPDS foi questionada pela reportagem no sábado (8) a respeito do envolvimento do policial na apropriação ilegal da arma apreendida e na tentativa de venda. Também foi perguntado se foi aberto um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar a conduta do servidor e se a Secretaria confirma que um dos corpos encontrados no Jacarecanga pertence a um morador do Pirambu que teria intermediado a venda do fuzil.
A Pasta informou apenas que ainda investiga as circunstâncias do achado de cadáveres e que as vítimas não foram formalmente identificadas. "As investigações seguem em caráter de sigilo, a fim de não comprometer os trabalhos policiais", concluiu.
A Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD) também foi procurada no sábado, mas não respondeu à demanda naquele dia e nem nos dias seguintes, quando o Diário do Nordeste cobrou retorno.
Integrantes do CV reconheceram o fuzil apreendido
A reportagem apurou que o soldado estava com outros militares quando apreendeu um fuzil do CV no Pirambu. A equipe, no entanto, não registrou a ocorrência, e a arma ficou sob a guarda do PM.
Uma semana depois, o policial tentou vender a arma por intermédio de um morador do Pirambu, que faria o anúncio e a negociação.
O vendedor enviou uma foto da arma para integrantes do Comando Vermelho e a ofertou por R$ 60 mil. Os faccionados reconheceram o fuzil e informaram a situação a 'Skidum', líder da organização na região, que os instruiu a fechar negócio apenas para atrair o homem para uma suposta "negociação" presencial que resultaria em sua morte e esquartejamento.
Pelo celular da vítima, os criminosos chegaram ao nome do soldado que estava com o fuzil e relataram a 'Skidum'.
Depois, o que se sabe é que o traficante fez uma chamada de vídeo com o PM ameaçando o irmão dele com uma faca no pescoço. 'Skidum' teria sido ainda mais incisivo e garantido que, se o policial não devolvesse a arma da facção, além do irmão dele, seriam assassinados a mãe, o pai e toda a família do militar. "Você vai ter a pior morte de todas", teria dito.
Tentativa de se livrar da arma
Depois de ser ameaçado, ainda de serviço, o policial teria ido de viatura até o Pirambu e tentado se livrar da arma, jogando-a em uma mata. Moradores da região flagraram o ato do PM e alertaram outros policiais que passaram no local em outra patrulha.
Não se sabe ainda se o fuzil foi restituído pela Polícia ou pelos integrantes da organização criminosa.
Achados de cadáver
Na sexta-feira (7), dois corpos do sexo masculino foram encontrados esquartejados em quatro sacos plásticos jogados em um riacho no Jacarecanga. Um dos sacos estava na mata, em avançado estado de decomposição, enquanto os outros foram achados dentro do córrego e resgatados pelo Corpo de Bombeiros (CBMCE) com auxílio de um anzol específico com cabo de nylon.
Nesse mesmo dia, questionado por repórteres que estavam em uma coletiva de imprensa no Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp), o secretário Roberto Sá atribuiu a autoria do crime a 'Skidum' e garantiu que já sabia a motivação do crime.