Do fim do plantão com colega ao corpo carbonizado: o que se sabe sobre a morte de soldado da PMCE

A investigação da morte violenta do PM iniciou após o corpo dele ser encontrado em um carro um chamas na Grande Fortaleza. Uma colega dele foi presa em flagrante por suspeita do crime.

Escrito por Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
12 de Agosto de 2026 - 17:25
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Legenda: Raphael ingressou na Polícia Militar em 2022 e exercia o cargo de soldado, lotado no 16º Batalhão, em Fortaleza.
Foto: Reprodução

O crime brutal contra o soldado da Polícia Militar do Ceará (PMCE) Raphael Sampaio da Silva, de 27 anos, que foi morto a tiros e teve o corpo carbonizado em Itaitinga, na Grande Fortaleza, segue em investigação, mas uma peça pode ter sido revelada. A prisão da colega de farda, a soldado Júlia Natália Girão Gomes, levanta suspeitas, pois ela teria sido uma das últimas pessoas a vê-lo com vida

Raphael foi morto após sair de um plantão às 2h da madrugada de terça-feira (11). Um chamado de incêndio que chegou via Coordenadoria Integrada de Segurança (Ciops) por volta das 04h08 levou o Corpo de Bombeiros Militar e a PMCE ao local.

O policial estava vestido com sua farda da PM e algemado com sua própria algema.

Ao debelarem as chamas, bombeiros notaram um corpo no interior do veículo, um Hyundai i30 pertencente ao PM. No local, foi achado um galão de combustível, indicando que o fogo foi criminoso e intencional, conforme consta em documentos obtidos pelo Diário do Nordeste. 

Após o corpo ser encontrado, foi solicitado que os colegas de batalhão de Raphael fossem ouvidos. Dois PMs foram à Delegacia de Homicídios, mas a terceira, Júlia Natália, não foi localizada, e foi assim que a investigação começou a tomar rumos

Como foram os últimos momentos do PM?

Segundo a reportagem apurou, Raphael, que era lotado no 16º Batalhão da PMCE, finalizou o serviço às 2h, quando ele e sua equipe, que contava com a soldado Júlia, entregaram os armamentos. 

O depoimento de Júlia dá conta de que ela havia pedido uma carona ao colega, e testemunhas confirmaram que os dois deixaram o batalhão no Hyundai. Júlia disse que seguiu distraída no trajeto, mexendo no celular, e, quando se deu conta, viu o carro ser interceptado por homens armados em um carro preto e uma moto

A PM disse ter ouvido um disparo e Raphael dizendo aos criminosos: "Não precisa disso". Ela conta que, em seguida, foi arrastada pelos cabelos, colocada em um porta-malas e mantida sob cativeiro. 

Versão conflitante com fatos  

Já nos momentos iniciais da investigação, a versão de Júlia teria começado a perder forças. Ao tentarem reconstruir os passos da suposta sobrevivente, ela disse que ficou em cárcere até por volta de meio-dia da terça-feira, quando foi libertada em um matagal no distrito de Croatá II, em Aquiraz. 

A soldado disse que foi amarrada. Quando foi encontrada, ela estava com uma roupa diferente e não soube dizer onde havia ido parar seu fardamento. 

A versão dela foi rebatida após diligências da polícia acharem um vídeo de câmera de segurança que mostra a mulher em uma oficina por volta das 08h52, caminhando livremente e usando a mesma vestimenta. 

PM usou o mesmo vestido à tarde, durante o depoimento, de quando foi capturada pelas câmeras de segurança às 8h52.
Legenda: PM usou o mesmo vestido à tarde, durante o depoimento, de quando foi capturada pelas câmeras de segurança às 8h52.
Foto: Reprodução.

A distância entre o local da filmagem de segurança e a região onde ela foi supostamente abandonada amarrada fica a cerca de 28 quilômetros de distância. 

Os investigadores da DHPP entenderam haver uma "profunda contradição" entre os fatos apresentados. Ao ser questionada sobre mais detalhes da madrugada, Júlia se reservou ao direito de somente responder perguntas em juízo e esperou seu advogado. 

A defesa da mulher, representada pelo advogado Walmir Medeiros, afirmou que não há provas contra sua cliente, apenas "presunções". 

Quem é a PM que teria visto o colega ser morto? 

A soldado Júlia Natália era colega de batalhão do soldado Raphael e ingressou na Corporação após ser aprovada no concurso público de 2021. Segundo a SSPDS, ela foi convocada em 2022 e concluiu a investigação social em fevereiro de 2022, "sem registros de reprovação".

A soldado Júlia ingressou na PMCE em 2024.
Legenda: A soldado Júlia ingressou na PMCE em 2024.
Foto: Reprodução

Por estar grávida, ela teve de postergar o Teste de Aptidão Física (TAF).

Após realizar e ser aprovada no exame físico, a candidata seguiu nas demais etapas do certame. Júlia Natália concluiu o Curso de Formação de Soldados em 2024 e passou a integrar o efetivo da Polícia Militar na graduação de soldado em novembro do mesmo ano.

A SSPDS pontuou que a entrada dela na Corporação ocorreu antes do cometimento dos crimes pelos quais ela passou a ser investigada.

Prisões realizadas 

Até a publicação desta matéria, duas prisões haviam sido feitas após a morte do PM: a da soldado Júlia Natália Girão, após o depoimento controverso, e a do marido dela, Antoneudo Ribeiro Lima Júnior. Antoneudo, entretanto, não foi autuado pela suspeita de morte do policial, mas sim, pois a polícia achou munições, placas veiculares adulteradas e células de identidades suspeitas na residência onde ele mora com a esposa. 

O casal deve passar por audiência de custódia nesta quinta-feira (13).

Conforme a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), Júlia possui antecedentes criminais por estelionato, lavagem ou ocultação de bens e integrar organização criminosa. Ela foi indiciada pela Polícia Civil em setembro de 2025, em um inquérito da Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos.

Já Antoneudo responde por estelionato, falsa identidade, lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, integrar organização criminosa, receptação e posse irregular de arma de fogo de uso permitido.

O homem já esteve preso no âmbito de um inquérito por lavagem de dinheiro, estelionato e organização criminosa, referente a um esquema criminoso de fraudes digitais de contas de aplicativo de transporte particular. Ele usaria documentos de terceiros para abrir diversos perfis. Essa investigação é a mesma pela qual foi indiciada Júlia. 

A soldado atuava "como colaboradora, cedendo dados pessoais, além de instrumentos financeiros e de comunicação, para viabilizar as atividades criminosas do grupo", segundo nota da SSPDS. 

Quem são os executores do crime?

Até esta publicação, não havia informações sobre quem seriam os indivíduos envolvidos na morte e na tentativa de ocultação do cadáver do PM Raphael. 

Segundo o relatório da Polícia Civil, ainda não se sabe a quantidade exata de pessoas envolvidas, nem suas características físicas, vestimentas e veículos utilizados. 

Ainda não há também informações conclusivas sobre como o corpo da vítima foi parar carbonizado na região do Ancuri, em Itaitinga. 

Qual a motivação do crime?

Uma das linhas de investigação da morte do soldado seria vingança por uma traição, mas a polícia não descarta outras versões. O Diário do Nordeste apurou que o PM de 27 anos teria se relacionado com uma mulher comprometida e acabou sendo atraído para a própria morte.

O assassinato teria sido planejado pelo companheiro da mulher com quem o soldado da PM se relacionava.

Uma segunda informação, repassada pela PMCE à PCCE, é a de que o soldado Raphael Sampaio teria se envolvido em uma briga, há menos de um mês, na qual deu um soco na cara de uma pessoa. 

Foi relatado que, após esse caso, Raphael teria passado a sofrer ameaças. A DHPP frisou no documento obtido pela reportagem, entretanto, que, até o momento, não há confirmação de que essas ameaças sejam relacionadas ao homicídio. 

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