Só o camarão de Acaraú derruba o tarifaço de Trump

Quem já provou, em Miami ou Nova York, não aceitará, sob hipótese alguma, a chantagem tarifária do império norte-americano

Escrito por
Xico Sá producaodiario@svm.com.br
Legenda: Camarão da Costa Negra é encontrado no litoral oeste do Ceará
Foto: Honório Barbosa

Mais forte do que toda a diplomacia do Itamaraty, mais firme do que a soberania defendida pelo presidente Lula, mais resiliente do que a paciência do ministro Fernando Haddad e mais temperado do que a temperança do vice-presidente Geraldo Alckmin...

Sim, o bicho é tudo isso, sem modéstia geográfica, e será nosso herói cearense na peleja internacional contra Donald Trump — quando o imperador do mundo se der conta que o tarifaço inclui tal excelência nordestina, vôte, vai zerar a taxa em cima da bucha e se maldizer até o apocalipse.

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Do aço ao caju, o Ceará exporta um sortimento de produtos para os EUA. Tem lagosta, lagostim, tilápia e toda uma diversidade de peixes e crustáceos. Só no mundo dos invertebrados aquáticos, faça as contas comigo, são US$ 52,8 milhões no apurado da balança.

O que vai levar Trump ao arrependimento, porém, é o camarão da Costa Negra, no litoral oeste alencarino, capaz de fazer o mais exigente dos estrangeiros lamber os beiços, cessar-fogo e pedir bis.

Quem já provou, em Miami ou Nova York, não aceitará, sob hipótese alguma, a chantagem tarifária do império norte-americano. Primeiro crustáceo com Denominação de Origem no mundo, só é um legítimo Costa Negra se for da turma de carcinicultores dos municípios de Itarema, Acaraú, Cruz e Jijoca de Jericoacoara.

Nem o mais cruel dos mandatários ou déspotas do globo terrestre resistiria a um espetinho desse camarão cearense. Sim, evidentemente preparado ao estilo brochete, com limão e folha de seriguela no arremate, como se come até perder a decência.

Aquém, muito aquém dessa crônica gastronômica, é bom lembrar que a cobiça pelos crustáceos cearenses gerou um episódio que ficou conhecido mundialmente como "A guerra da Lagosta" — um excelente documentário com este mesmo título, dirigido por Chaim Litewski, está disponível na internet para os curiosos e curiosas.

A contenda se deu entre 1961 e 1963, quando Brasil e França travaram uma peleja diplomática devido à invasão e pesca ilegal de barcos franceses na costa do Nordeste.

A tensão geopolítica quase levou os dois países a um conflito bélico.

Foi por pouco.

Muita paz e camarões da Costa Negra aos homens e mulheres de boa vontade. Até a próxima coluna.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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