A falta de amor e a mudança no lema da bandeira nacional

Bandeira do Brasil com as palavras Amor, Ordem e Progresso
Legenda: Movimento fará mobilização no Dia da Bandeira por inclusão da palavra "Amor"
Foto: Tiago Soban/Movimento Amor na Bandeira/Divulgação

Que o amor está em falta, no varejo e no atacado, quase todo mundo concorda. Além de raro, o amor parece também vítima da carestia reinante na praça. Inflacionaram até o mínimo gesto de carinho, se é que você me entende. Em algumas capitais mais frias, acabou de vez, no sentido coletivo do termo: “Não existe amor em SP”, havia denunciado o profeta Criolo, “os bares estão cheios de almas tão vazias”. Segue o drama.

Tem, mas ficou só o cheiro, como dizia tio Gualter, na sua imponente e sortida bodega em Nova Olinda. E de tanto faltar, o amor saiu de moda. Só dá as caras nas letras bregas de dor de corno — diante do medo do chifre, qualquer um aplica em vão o seu santo nome. Tem, mas quem usa na prática? Cadê aquele ser humano melhorado — sensível, inoxidável e banhado em ouro 18 — que nos prometeram para depois da quarentena?

A falta é tanta que pretendem colocar o sentimento até no pavilhão nacional. Pense numa carência. Sério. Ficaria bordado assim: Amor, Ordem e Progresso. O projeto é de um grupo dito suprapartidário, com ativistas de várias correntes políticas, que aproveita a data comemorativa do Dia da Bandeira, o 19 de novembro, para espalhar a ideia.

Os líderes do movimento recorrem à frase original do filósofo positivista francês Augusto Comte para lastrear a mudança: "O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”. Na hora do resumo, depois da proclamação da República, em 1889, o amor acabou dançando nas mãos de redatores austeros e autoridades nada românticas.

É algo simbólico, mas o pessoal acha que botar o amor no meio pode reduzir, inclusive, o ódio que domina as discussões políticas. Boa intenção à parte, não resisti à possibilidade da sátira. Além do amor, o humor também é mercadoria que rareia nas prateleiras dos pegue-pagues do mundo.

O que você escreveria, amiga e amigo, na bandeira? Treta (funaré em livre tradução para o cearês), osso e fake news? Gabinete do ódio e retrocesso? O de cima sobe e o debaixo desce? Mamata e motociata? Ora direis, ouvir estrelas, como no verso do Bilac? Ou simplesmente um limpo e prosaico Arre Égua? 
Deixo apenas modestas propostas motivadoras de uma trovoada de lemas. Cartas, bilhetes e frases para as redes deste cronista.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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