A patrulha é pior que a censura

Legenda: Difícil caminhar e não esbarrar em um componente da patrulha, a fazer imediata referência à proeminência de sua barriga de estimação
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Depois dos anos de chumbo no Brasil e com o retorno da democracia, instalou-se no país uma coisa abominável chamada patrulha ideológica, mais odiosa que a censura.

As rotulações e estigmatizações comeram de esmola, em todos os setores da vida brasileira, eivadas da mais pura hipocrisia.

Como reprimir no próximo o que não se reprime em si próprio?

O tempo passou, as patrulhas continuaram e, hoje, dedicam suas abjetas “atividades” aos que gostam de comer e beber.

Nem por isso deixaram de ser educadas (nem sempre), por fora, e perversas, por dentro, em suas abordagens.

Difícil caminhar e não esbarrar em um componente da patrulha, a fazer imediata referência à proeminência de sua barriga de estimação.

Seguem-se conselhos de uma alimentação regrada e a sugestão de uma academia ideal para eliminar a banha.

O estigma maior do patrulheiro tem como endereços preferidos os devotos das bebidas, sejam fermentadas ou destiladas.

A cruzada da patrulha se intensifica ao desfiar as vantagens de quem não bebe, ilustrando o fato de uma vida mais longa e saudável.

Para apimentar o assunto, gostaríamos de saber qual a celebração considerada completa, sem comida e bebida.

Sim, porque a patrulha se refere ao ato de beber e comer como “excessos etílicos e gastronônicos”,  prazeres que devem ser sacrificados, em nome de um tempinho a mais de vida.

Não manjam sequer que, na verdade, estão contra a vida e não a favor dela.

Ora, comer, de preferência, sem moderação, é prazer maior, que dá sentido à vida; as preocupações com as medidas do corpo ficam para depois.

Nelson Rodrigues dizia: “Como é sublime a gordura humana”.

E arrematava: “Todo mau caráter é magro”.

Sobre o ato de tomar uns tragos, Antonio Maria, jornalista, poeta e compositor pernambucano, dizia que “no beber, há um mistério, uma sabedoria e um recolhimento, que nos leva a um estado de graça”.

Jean Nathan, critico e diretor de teatro americano, confessou: “Bebo para tornar as outras pessoas interessantes”.

Aqui, para nós, não fossem os perigos do nosso fígado virar um picadinho acebolado, aconselharíamos que as pessoas bebessem mais intensamente.

Do alto dos meus sapatos, afirmo que não devemos eleger a negação do prazer e a renúncia ao gosto de viver como forma de viver.

A Vida foi feita para ser gasta. E ponto final.

Ah, a última investida da patrulha se deu contra a estátua de Borba Gato, em São Paulo, um bandeirante do século XVII.