Os principais insights de Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos EUA, sobre a economia global

Ex-presidente do Federal Reserve falou sobre inflação, política fiscal americana, dólar e criptoativos em evento da XP.

Escrito por
Victor Ximenes. producaodiario@svm.com.br
Legenda: Janet Yellen, em painel na Expert XP mediado por Caio Megale.
Foto: Paulo Bareta.

A ex-presidente do Federal Reserve Janet Yellen, uma das principais atrações da Expert XP 2026, em São Paulo, compartilhou no evento sua visão sobre alguns dos temas mais relevantes da macroeconomia global. A Coluna Victor Ximenes resumiu os principais tópicos do painel, mediado por Caio Megale, economista-chefe da XP. Yellen comenta sobre inflação, riscos fiscais e dólar como moeda de reserva.

Da era de inflação baixa aos choques de oferta

  • Durante seu mandato no Fed (2014-2018), o desafio era elevar a inflação, não contê-la, efeito da crise financeira de 2008, que levou os juros a zero e ao desemprego próximo de dois dígitos.
  • A pandemia trouxe uma sequência de choques de oferta: gargalos de logística, escassez de semicondutores e mudança abrupta do consumo de serviços para bens, o que elevou a inflação além do previsto.
  • Segundo Yellen, o Fed nunca chegou a estabilizar a inflação em 2% após a pandemia: as tarifas impostas por Trump, os conflitos no Oriente Médio e agora a demanda por infraestrutura de IA formam uma sucessão contínua de choques. "Agora estamos olhando para cinco anos, e contando, com a inflação significativamente acima da meta de 2% do Fed", disse.

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Petróleo e Oriente Médio como fator de risco

  • Yellen citou a oscilação do petróleo — de US$ 100 a US$ 70 e de volta a US$ 100 o barril em dois meses — como fonte de incerteza para a condução da política monetária.
  • Para ela, a intensificação do conflito no Oriente Médio tende a manter a inflação elevada por pelo menos mais um ano. "A inflação provavelmente vai permanecer elevada por pelo menos o próximo ano ou mais", afirmou.
  • Na avaliação da ex-secretária do Tesouro, se as tensões geopolíticas persistirem, é provável que o Fed volte a elevar juros para conter a inflação. "Se eu fosse apostadora, apostaria que veremos pelo menos algumas altas de juros destinadas a conter a inflação", declarou.

Inteligência artificial: mais inflação do que ganho de produtividade

  • O investimento em infraestrutura de IA está pressionando os preços de semicondutores e eletricidade, refletindo até no preço de eletrônicos de consumo, como o iPhone.
  • Yellen traçou um paralelo com o fim dos anos 1990, quando Alan Greenspan resistiu a pressões para subir juros apostando em ganhos de produtividade — aposta que se confirmou.
  • Diferença em relação a hoje: ainda não há evidência de ganho agregado de produtividade vindo da IA, o que hoje pesa mais como pressão inflacionária do que como alívio. "Agora mesmo, a IA está claramente elevando a inflação, e não o contrário", disse Yellen.

Dólar perde espaço, mas segue sem substituto

  • A participação do dólar nas reservas globais caiu de mais de 70% para pouco acima de 50%, um processo gradual de erosão, segundo Yellen.
  • Ela associou parte desse movimento ao congelamento dos ativos russos após a invasão da Ucrânia, que teria gerado receio em outros países sobre os riscos de manter reservas em dólar.
  • Ainda assim, avaliou que não há substituto à altura. "Não existe outro mercado com essa profundidade e liquidez, com Estado de direito e respaldo institucional", disse, sobre o mercado de títulos do Tesouro americano.

Risco fiscal nos EUA

  • A dívida pública americana está em torno de 100% do PIB, e o déficit fiscal em 6% do PIB — patamar que Yellen considera incomum para uma economia fora de recessão. "Isso é muito incomum", disse.
  • O problema estrutural, segundo ela, é o envelhecimento da população, que eleva os gastos com aposentadorias e saúde. "Não há solução indolor. Isso vai exigir alguma combinação de impostos mais altos, pensões menores e menos suporte para gastos médicos", afirmou.
  • Ela citou o aumento da participação de fundos hedge no financiamento da dívida americana como sinal de que os mercados já monitoram o tema de perto, e destacou que gastos crescentes com defesa e energia tendem a agravar o quadro fiscal nos próximos anos.