Em meio a novas tarifas, México tenta ampliar negócios com o Ceará

Embaixador Carlos García de Alba destaca interesse em infraestrutura aeroportuária, irrigação agrícola e intercâmbio energético com o Brasil

Escrito por
Victor Ximenes producaodiario@svm.com.br
Legenda: Embaixador Carlos García em visita à redação do Sistema Verdes Mares.
Foto: Thiago Gadelha

Recém-empossado, o embaixador do México no Brasil, Carlos García de Alba, escolheu o Ceará como um dos destinos prioritários para fortalecer as relações bilaterais. Em visita a Fortaleza, o diplomata destacou a intenção de descentralizar os vínculos tradicionalmente concentrados no eixo São Paulo-Cidade do México e abrir espaço para o Nordeste.

“Temos que descentralizar, desconcentrar nossas relações. Os governos subnacionais têm que participar mais”, afirmou. Segundo ele, o México está pronto para ampliar sua presença no Nordeste, com foco em setores estratégicos como energia, agricultura irrigada, turismo e infraestrutura aeroportuária.

Ele frisou que a relação Ceará-México ainda é tímida, tendo gerado US$ 61 milhões em negócios no ano passado. Desse montante, US$ 58 milhões foram de exportações do Ceará para o México.

O desafio da aproximação se torna maior com a decisão do governo mexicano de aplicar tarifas de até 50% sobre produtos de diversos países, incluindo o Brasil.

Infraestrutura, irrigação e energia no radar

Conforme o embaixador, o grupo mexicano ASUR, que recentemente adquiriu as operações de diversos aeroportos no Brasil, tem apetite para novas aquisições, e o Nordeste pode ser um alvo. "Se houver oportunidade de compra ou operação de aeroportos no Nordeste, esses grupos estão prontos para começar", disse. Além dos terminais, há também interesse no setor de duty free, hoje em grande parte controlado no Brasil por empresas mexicanas.

Na agricultura, empresas mexicanas especializadas em irrigação estão dispostas a investir no semiárido nordestino. “Se houver oportunidade de irrigação de produtos agrícolas, esses grupos estão interessados e prontos para atuar”, destacou o embaixador.

O setor energético também é visto como estratégico. Em reunião com o presidente da Fiec, Ricardo Cavalcante, o embaixador destacou que o México pretende importar a expertise brasileira em diversificação de fontes e uso eficiente da energia, especialmente na produção de etanol, tecnologia ainda inexistente no México. “Teremos uma missão mexicana no Brasil no fim de janeiro para aprender essa experiência e iniciar a produção de etanol no México”, afirmou.

Comércio pouco explorado

Apesar de representarem juntas 65% do PIB da América Latina e 62% das exportações da região, Brasil e México mantêm um intercâmbio comercial modesto, perfazendo US$ 16 bilhões por ano. “Isso é muito pouco. Precisamos, no mínimo, dobrar esse volume”, avaliou o embaixador.

Atualmente, a pauta é dominada pelo setor automotivo, mas há negociações em curso para diversificar o comércio bilateral com foco nos setores químico, aeroespacial, agroindustrial, farmacêutico, pesqueiro, serviços financeiros e telecomunicações.

A revisão dos acordos de complementação econômica (ACE 53 e 55) está prevista para o primeiro semestre de 2026. A meta é incluir mais setores e atualizar os instrumentos de cooperação comercial entre os dois países.

Conectividade aérea e turismo

A ausência de voos diretos entre o México e capitais nordestinas, como Fortaleza, também foi mencionada como um entrave ao aumento do fluxo turístico. “Não há voos diretos para nenhuma capital do Nordeste. Só São Paulo. Isso limita a expansão do turismo”, disse. Como solução, o México pretende substituir o visto físico por um visto eletrônico a partir de fevereiro de 2026, facilitando a entrada de brasileiros.

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