Por que precisamos ser mães 24 horas?

Quem de vocês, mulheres-mães que leem esse texto agora, não já foi indagada pela ausência dos filhos?

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Legenda: As cobranças da maternidade são exploradas no filme A filha perdida, em cartaz na plataforma Netflix
Foto: Foto: YANNIS DRAKOULIDIS/DIVULGAÇÃO NETFLIX

- Você tem filhas? E onde elas estão?

Qual mãe nunca foi questionada pelo paradeiro das filhas e filhos por familiares, amigos, amigas ou por alguém que acabou de conhecer. Há vários tipos de perguntas, é claro. Muitas vezes, é um interesse real pelas crianças ou jovens, mas há a pergunta que traveste uma cobrança da maternidade. Essa cobrança é muito bem mostrada no filme A filha perdida, em cartaz na plataforma Netflix.

As perguntas que abrem esse texto vêm de uma conversa casual, que se passa no filme, entre Leda, a protagonista, e uma mulher que ela acaba de conhecer. Quem de vocês, mulheres-mães que leem esse texto agora, não já foi indagada pela ausência dos filhos? A quem pergunta, parece óbvio que uma mãe deva estar com seus filhos por perto ou, no mínimo, saber onde eles estão. A qualquer instante do dia, da vida. É como se esses seres fossem nossas próprias extensões.

No filme, a protagonista não responde a pergunta. Ao contrário, nos transmite uma sensação de incômodo com ela. Esse incômodo de Leda nos faz perguntar sobre quão invasiva pode ser essa pergunta. Por que invasiva?, vocês podem se questionar. Não é natural que uma mãe se orgulhe de falar dos seus filhos, de dizer onde eles estão, de estar com eles?

Respondo com a pergunta, quantas vezes vocês direcionaram essa pergunta a homens-pais? Quem de vocês encontra um amigo homem no futebol ou na cerveja pós-expediente e pergunta com quem ficou seu filho? A nós, mulheres, cabe a responsabilidade de cuidar dos filhos e dar conta de suas existências. É sobre naturalizar essa responsabilidade materna que precisamos pensar.

A filha perdida traz a história de uma mulher adulta, com 48 anos de idade, mãe de duas filhas, que sai sozinha de férias pelo litoral. Nessa viagem, Leda nos conduz a muitas reflexões sobre a maternidade. Essa naturalização da mãe estar sempre com suas crias é um dos muitos caminhos que a protagonista nos faz seguir. Mas há outros: a sua própria maternidade nos mostra a difícil missão de criar duas meninas enquanto se sonha com uma carreira de sucesso, uma realização profissional.

Quando a protagonista revisita as decisões que tomou ao longo de sua vida muitas de nós se verá ali. Dói na personagem e dói também na mãe que passou por aquela situação ou esteve muito perto disso. São as dores e delícias da maternidade, esse lugar delicioso e transformador, mas que precisa ser visto com boas doses de realidade.