A importância de ouvir a sua voz

Escrever para o leitor, com sensibilidade para dar atenção ao mundo que nos cerca, é o que esta coluna se propõe a fazer

A voz sempre atraiu de uma forma muito forte a minha atenção.

É claro que as primeiras lembranças vêm do meu pai. Ele tinha um vozeirão, com tom alto e um sotaque português que, sem querer, tive que, logo cedo, acostumar o meu ouvido a compreender suas palavras e expressões.

Bom orador e excelente contador de histórias, prestava mais atenção em todos os detalhes (nele e nos outros que o assistiam) que o faziam atrair a atenção da sua “plateia”: carisma, impostação e tom da voz, postura, etc.

Já fui “gasguita”. Como uma boa cearense, falo arrastado e acentuo os “O's” e os “E's”. Não tem nada de mal nisso. Somos assim.

Contudo, trabalhar com vídeo exige um certo treino na voz para conquistar carisma e autoridade. A minha voz passou por muitas sessões de fonoaudiologia que, somadas àquelas situações vivenciadas no passado, foram o combo certeiro para aquilo que seria minha melhor amiga: a comunicação.

Tempos depois, a comunicação virtual, presenteou-me com uma nova forma de expressar-me sem dizer uma palavra, mas usando outro tipo de “voz”!

Escrevendo para você, a coluna está conquistando cada vez mais leitores fiéis, a ponto de estar entre as mais lidas do Diário do Nordeste. E olha que a menina SiSi ainda é uma bebê! Muito obrigada, viu?!

Assumir um colunismo social dentro de uma pandemia, sem eventos sociais, sem desejos comerciais, sem assuntos, normalmente, tratados nesse espaço, e quando um problema gravíssimo estava acontecendo no mundo, concorda que parecia não ter sentido algum? Só se não pudesse mostrar que a SiSi seria aquela menina que iria fazer a diferença no mundo.

Não poderia ser alheia a tudo aquilo! Não seria eu quem ouviria a voz de quem falava e observaria a minha volta sem nada fazer.

No comecinho de maio desse ano, um domingo, já estava quase dormindo, quando o meu marido chamou minha atenção para uma notícia do Fantástico: “pobreza menstrual”.

Fiquei impressionada. Coloquei na pauta da SiSi para escrever na semana seguinte. Tentei buscar alguns elementos e, no dia 13 de maio, saiu, no jornal a primeira matéria sobre o tema.

Chamou a atenção de “três gatos pingados”, mas já foi o primeiro alerta.

Insisti para que gerássemos impacto naquela iniciativa e levantássemos a bandeira. Busquei informações dessa questão da pobreza menstrual junto às amigas da área jurídica (questão em presídios, escolas, ICMS, lei para inclusão em cestas básicas, etc), de pessoas que fazem trabalho social e, até uma prima, que trabalha há “mil” anos em um posto de saúde para saber se eram distribuídos absorventes para mulheres em situação de vulnerabilidade. Ah, fui além: vi a questão da sustentabilidade para saber se havia outro produto mais sustentável, que embarreirou na problemática do saneamento básico. Enfim, ouvi muita coisa e muita realidade.

Depois disso, achei que o nome "dignidade menstrual" seria o mais apropriado a situação e, assim, senti a necessidade de tocar no tema, novamente.

No dia 6 de junho, trouxe para o “Dominguemos, Amém!” o tema “Menstruação: Esse é o nosso sangue!”.

A repercussão foi maravilhosa! A nossa coluna cumpriu um papel social de grande relevância, quando o Presidente da OAB/CE, Dr. Erinaldo Dantas, em Sessão na Assembleia Legislativa, entregou um ofício citando a nossa coluna e pedindo iniciativa da Casa, para providenciar um projeto de Lei referência à questão da Dignidade Menstrual.

Imediatamente, o presidente da AL, Deputado Evando Leitão, com anuência do procurador Hélio Leitão, encaminhou a solicitação e foi com muita alegria que vimos, nessa semana, o anúncio que o governador do Ceará, Camilo Santana, encaminhar um projeto de Lei para a Assembleia Legislativa, de modo que a Casa autorize a aquisição e distribuição de absorventes íntimos higiênicos para estudantes de escolas e universidades da rede pública do Estado.

Após essa notícia, senti um forte pulsar no meu coração e uma alegria incontida. Minha “voz”, usando a força das palavras, num espaço que dispunha no jornal de grande circulação digital, foi “ouvida”. Pude fazer com que sentissem a minha energia de modo positivo!

Inevitável não lembrar da música do Gonzaguinha, “Sangrando”. Soltei a minha voz, entreguei com força, raça, emoção e, literalmente, como mulher, sangrando.

Vi, nas pessoas, empatia em compartilhamento de gestos e nas mudanças de atitudes, como essa da Dignidade Menstrual que vem sendo implementada pelas autoridades competentes do nosso Estado.

É como tivesse visto a nossa menina SiSi menstruado...virado moça! Desabrochado. Que emoção!

Nossa coluna social vai continuar registrando e brindando vidas, momentos, alegrias e grandes conquistas, porque esse é o jeito diferente da SiSi: ser voz.

E uma voz que sangra, tem força!

Dominguemos, amém!



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