Em 'A Odisseia', Nolan navega por Homero para falar com magnitude sobre culpa e humanidade; resenha
Longa estreia nos cinemas nesta quinta-feira (16) como o grande lançamento mundial desta semana.
Cada lançamento de Christopher Nolan traz um certo alvoroço. Há quem o critique ferrenhamente, há quem o adore acima de tudo. Agora, com "A Odisseia", lançado nesta quinta-feira (16), algo deve ter um quê de unanimidade entre esses públicos: o longa é, até agora, neste ano, a melhor experiência dentro de uma sala de cinema.
A afirmativa vai além do "bom ou ruim" costumeiro quando falamos de um produto audiovisual. A obra de Nolan deve levar milhares às salas de cinema em todo o mundo e, sem dúvidas, impactar de alguma forma os que a assistirem. Poucos duvidaram disso, inclusive quando o cineasta anunciou, lá em 2024, que adaptaria a obra de Homero.
Fã de obras ambiciosas, parecia quase certo que ele trouxesse uma jornada épica clássica para a própria filmografia, que já é tão próxima das histórias clássicas da jornada do herói. Para esta releitura, Nolan apostou na grandiosidade das câmeras IMAX, em um elenco superestrelado, em cenários grandiosos, mas também em uma história que pode fazer refletir sobre o livre-arbítrio dos seres humanos ou a culpa que nos reveste a cada decisão que tomamos.
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A adaptação de "A Odisseia" revive uma das histórias mais antigas da literatura ocidental, escrita por Homero, acompanhando as aventuras do herói grego Odisseu (Matt Damon), ou Ulisses, no retorno para casa, em Ítaca, após a Guerra de Troia. O herói enfrenta criaturas míticas e deuses na jornada de retorno para casa, onde o aguardam a esposa Penélope (Anne Hathaway) e o filho Telêmaco. Entretanto, muitos fatores se interpõem a este objetivo.
Interpretado por Matt Damon, o Ulisses da versão de Nolan é quase uma espécie de semelhante dos protagonistas anteriores das obras dele. É possível enxergar nos dilemas vividos pelo herói um pouco do já visto em Interestellar ou Oppenheimer, por exemplo. Um homem mergulhado em culpa, ressentido pela quebra das próprias crenças e do povo que diz representar.
A surpresa de muitos pode residir no fato da capacidade de Nolan em trazer às telas o drama que permeia todo o poema de Homero, enquanto busca um paralelo conosco, tantos anos à frente da mitologia grega. Enquanto alguns dos filmes do diretor são cercados de certa frieza, "A Odisseia" consegue, em muitos momentos, emocionar, arrepiar ou trazer uma inquietude ao espectador.
Outro ponto positivo, acrescentando um tom mais soturno à obra, está na mistura de gêneros tão clássicos na obra. Nem só de batalhas épicas vive a versão. Quando se utiliza do horror para cenas tão cruciais na história – como na ida de Odisseu ao Hades – Nolan traz o inesperado para o trabalho, concedendo alguns dos momentos com atuações mais fortes do filme.
O vai e volta do tempo, por exemplo, uma das marcas dele, faz bastante sentido por aqui. É assim que ele une as tramas de Telêmaco (Tom Holland), Penélope (Anne Hathaway) e Antínoo (Robert Pattinson) à de Odisseu, trazendo uma certa expectativa pelo retorno certo do herói para casa.
Veja trailer de A Odisseia
Atores surgem confortáveis
Nem todo o mérito vai para o diretor, diga-se de passagem. Matt Damon mostra que é um dos grandes nomes de Hollywood, construindo um Odisseu atormentado, confuso, mas consciente do porquê é tão adorado.
Já Anne Hathaway não deixa dúvidas da capacidade de transformação a cada novo projeto, uma das poucas figuras femininas na história e tão importante para o ao final do longa. Outros destaques, reforçados pelo roteiro, vão para Tom Holland e Pattinson. O primeiro pode até receber algumas críticas por aí, mas parece ter entregado bem próximo do que já era esperado por Nolan, enquanto o segundo retorna a um arquétipo semelhante aos que interpretou anteriormente, sobressaindo-se mais uma vez.
Não à toa, o que há de humano no filme impacta tanto. Os diálogos sobre as condições humanas diante dos desejos divinos, do livre-arbítrio das nossas escolhas ou até da discussão sobre as decisões irreversíveis diante de guerras tão árduas devem perdurar por algum tempo.
No fim das contas, Nolan se finca como um dos nomes importantes para o reforço de que o cinema é e precisa ser visto como algo grandioso, tal qual uma batalha épica. Ele faz isso com uma certa frequência, apesar de nem sempre com tanta qualidade, mas brilha em "A Odisseia" como um grande nome de seu tempo.