Por que o desperdício de energia custa caro ao Brasil?

País tem rede de transmissão insuficiente, o que leva à restrição da geração de algumas usinas.

Escrito por
Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
Legenda: Infraestrutura de transmissão brasileira é insuficiente para dimensão da matriz energética.
Foto: Shutterstock/Zoteva.

A abundância da geração de energia no Brasil, que à primeira vista pode ser considerada um fator positivo, é causa de um dos principais problemas do sistema elétrico. Isso porque a infraestrutura de transmissão é insuficiente e ainda não há formas de armazenamento.

Na prática, o Brasil produz muito mais do que consome, mas não consegue distribuir toda a energia nem armazená-la. O cenário aflige principalmente o Nordeste, responsável pela maior parte da geração renovável (eólica e solar fotovoltaica).

Para não sobrecarregar o sistema elétrico, as usinas renováveis são obrigadas a interromper a geração e acumulam prejuízos, fenômeno chamado de curtailment

O excesso de geração de energia só se torna um problema porque não é possível usá-la, armazená-la ou vendê-la, destaca o professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV), Jaque Paes.

"O que temos são momentos em que produzimos mais energia, em que a demanda é menor, e precisamos levá-la para regiões em que o consumo é maior. Quando a rede não consegue fazer esse escoamento na mesma proporção, parte dessa energia não pode ser aproveitada", explica.

No início da noite, horário de pico do consumo de energia, as usinas renováveis já não estão operando em larga escala, o que leva frequentemente ao acionamento de termelétricas.

Com isso, a energia que poderia ter sido gerada ao longo do dia não está disponível no horário de maior consumo. Além disso, o acionamento de térmicas eleva a conta de luz via bandeiras tarifárias.

DISPARIDADE ENTRE GERAÇÃO E CONSUMO 

A capacidade de geração brasileira é superior à carga necessária. Ou seja, o País é autossuficiente, mas a disparidade intensifica a complexidade da rede de transmissão.

A matriz energética brasileira soma 256 GW, principalmente da fonte hidrelétrica. Já o consumo previsto em todo o território para este ano é de 85 GW médios, segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS).

A projeção é de um crescimento do consumo de 4,1% neste ano, segundo balanço da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). O País deve chegar em 2030 a uma demanda de 101 GW médios.

O Sudeste concentra mais da metade da carga (consumo energético). Já o Norte corresponde à menor fatia de demanda por energia.

A projeção para 2030 é que a capacidade de geração deve chegar a 269 GW, sendo que desse montante cerca de 60 GW serão de usinas eólicas e fotovoltaicas centralizadas.

Ou seja, a energia produzida ainda será mais que o dobro do necessário para abastecer o sistema

Uma das apostas de redução da lacuna entre consumo e oferta é o desenvolvimento do mercado de data centers de larga escala, que são eletrointensivos.

O consumo estimado desses equipamentos levou a revisões para cima na projeção de demanda dos próximos anos.

GERAÇÃO CRESCE MAIS QUE A INFRAESTRUTURA DO SISTEMA 

Investimentos contínuos na expansão do parque renovável, positivos sob a ótica da transição energética, mostraram os limites do sistema brasileiro

"Podemos ter energia abundante e barata na origem sem que essa redução chegue na mesma proporção à tarifa do consumidor. O desafio deixou de ser apenas produzir energia. É conseguir aproveitá-la", comenta Jaque Paes.

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A principal dificuldade do setor é fazer a capacidade do sistema acompanhar a velocidade com que a matriz muda. 

O descompasso entre produção e uso efetivo da energia deve permanecer por alguns anos, já que os investimentos no sistema de transmissão ocorrem de forma mais lenta que a expansão da rede de geração. 

A construção de uma usina geradora é muito mais rápida do que a instalação de linhas de transmissão ou subestações, ressalta o professor de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Ceará (UFC), Raphael Amaral. 

"Ainda tivemos um crescimento muito acelerado da geração distribuída, os painéis solares fotovoltaicos nos telhados de casas e empresas. O Brasil ainda deve conviver com esse problema. Eu não diria ao longo de décadas, mas ao longo dos próximos anos, sim", avalia. 

O Operador Nacional do Sistema identificou a necessidade de adição de 5,3 mil quilômetros de linhas de transmissão no Brasil até 2030. O Plano Decenal de Expansão até 2035 prevê R$ 120 bilhões em investimentos na infraestrutura. 

Uma das intervenções mais importantes será a construção da subestação Angicos, no Rio Grande do Norte, que será ligada à subestação Itaporanga 2, de São Paulo. 

SOLUÇÕES INCLUEM ARMAZENAMENTO EM BATERIAS

O dilema do excedente de energia não é uma exclusividade do Brasil. Não há relatos de países com desperdício zero de energia, mas o Brasil pode se inspirar em soluções ao longo do globo, segundo Raphael Amaral. 

"A Dinamarca, por meio das interligações que tem com outros países e mercados, está enviando energia em excesso. A Austrália e a China são outros exemplos que reduziram o curtailment significativamente", comenta. 

A integração dinamarquesa permite que o país venda o excedente para Noruega, Suécia e Alemanha, e importe energia quando necessário, complementa Jaque Paes. 

Outro caminho para tornar o excedente de energia uma ferramenta vantajosa é consolidar sistemas de armazenamento de energia por baterias. O Brasil terá o primeiro leilão para construção de empreendimentos em dezembro.

A expectativa é que os sistemas entrem em operação em 2028, com prioridade para estados do Nordeste. O setor espera novos leilões nos próximos anos para atender à demanda de armazenamento. 

Com a tecnologia, a energia produzida pelas usinas solares ao longo do dia pode ser injetada na rede à noite, no período de maior consumo. A longo prazo, as baterias devem reduzir a necessidade de acionamento de termelétricas e baratear a conta de luz.

As associações de geradores renováveis defendem que o armazenamento é a principal solução para o curtailment e proporciona potência, flexibilidade e maior eficiência operativa.

A contratação de 2 gigawatts de capacidade em baterias pode representar uma economia de R$ 3,2 bilhões por ano em encargos, segundo projeção da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae).

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