Fiação subterrânea deixa energia mais resistente a chuvas, mas custo dificulta expansão no Ceará

Menos de 1% das redes de distribuição do Brasil são enterradas.

Escrito por
Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
Legenda: Substituição de fiações elétricas aéreas por subterrâneas exige planejamento técnico e financeiro, segundo especialistas.
Foto: Kid Jr.

A substituição das fiações elétricas aéreas por subterrâneas é uma medida importante para aumentar a resiliência do sistema elétrico, sobretudo diante da crise climática. Apesar de avanços nesse sentido no Ceará, as trocas não devem ocorrer em todo o Estado. 

O principal empecilho para enterrar a fiação em todos os municípios é o custo do serviço, que pode superar em até 10 vezes a rede aérea equivalente, segundo a Enel Distribuição Ceará. 

“Na nossa visão, o enterramento integral da rede de todo o estado não se apresenta atualmente como uma alternativa técnica nem economicamente viável. Qualquer custo de investimentos deve ser alinhado com as iniciativas governamentais, a fim de evitar que haja impacto tarifário”, afirmou a empresa. 

As intervenções dependem, portanto, do equacionamento de gastos por meio de programas governamentais. Isso para que os investimentos não levem a aumento na conta de luz, já que os aportes realizados pelas distribuidoras compõem a base de remuneração e são incorporados gradualmente às tarifas. 

A Enel possui aproximadamente 153 km de redes subterrâneas em sua área de concessão no Ceará, o que corresponde a cerca de 0,09% da extensão total das redes de distribuição, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). É válido ressaltar que o dado é de dezembro de 2023, da última Base de Dados Geográfica da Distribuidora (BDGD). 

Fortaleza tem um programa de transição da fiação aérea para subterrânea, com previsão de internalizar toda a rede elétrica até 2034. Serão priorizadas regiões centrais, históricas e turísticas.

A gestão estadual, via Secretaria da Infraestrutura, também tem projetos de internalização da fiação elétrica, com foco "na segurança, melhoria do espaço urbano e na redução da poluição visual". 

No centro histórico de Barbalha, as intervenções estão em 80% de execução e devem ser concluídas em março de 2027. A obra abrange a substituição por 10 mil metros de fiação subterrânea e retirada de 245 postes. O investimento é de R$ 15,4 milhões. 

Em Fortaleza, a internalização da fiação no Polo Gastronômico da Varjota teve investimento de R$ 2,1 milhões e deve ser finalizada em 2027. Serão retirados 96 postes das ruas Frederico Borges e Ana Bilhar. 

A Avenida Desembargador Moreira, também na Capital, recebeu mais de dois mil metros de redes subterrâneas e teve a retirada de 68 postes, com empenho de R$ 715 mil. Os recursos das intervenções integram o Programa de Investimentos Especiais em Energia Elétrica (PIE).

MENOS 1% DA REDE DE DISTRIBUIÇÃO BRASILEIRA É SUBTERRÂNEA

Apenas 0,4% da rede de distribuição de energia elétrica no Brasil é subterrânea, segundo a Aneel. A adoção de redes subterrâneas é uma escolha das distribuidoras.

A agência abriu consulta pública, no fim de agosto, para avaliar a adoção de metas para que as concessionárias façam a troca de suas infraestruturas. 

O relatório de Análise de Impacto Regulatório (AIR) elaborado pela agência aponta que as redes enterradas levam a menos interrupções no fornecimento e reduzem as ocorrências de furto e fraude. 

Por outro lado, o estudo aponta como desvantagens o alto custo para o enterramento e necessidade de obras para instalação de dutos subterrâneos. 

“Nos casos de distribuidoras que escolhem o enterramento de parte das redes, esse investimento entra na tarifa de energia elétrica cobrada na fatura dos consumidores (conta de luz). Caso a Aneel determine o avanço no uso dessas redes, com metas de transferência das redes aéreas (em postes) para baixo da terra, o investimento será repassado em grande medida para a tarifa”, projeta a agência. 

Os benefícios do enterramento tendem a compensar os investimentos a longo prazo, mas não necessariamente em todo lugar, conforme a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). 

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"A discussão precisa considerar onde o investimento realmente faz sentido. Hoje, não existe um único custo médio aplicável a todo o país. Ele varia muito conforme densidade urbana, tipo de solo, necessidade de obras civis, configuração da rede e carga atendida", afirma.

Rio de Janeiro e São Paulo estão entre os estados mais avançados na utilização de redes subterrâneas. Brasília também se destaca devido ao planejamento da cidade nesse sentido, segundo a associação. 

Investimentos nesse segmento já estão no radar das distribuidoras, com o objetivo de encontrar soluções que ofereçam mais segurança e qualidade ao menor custo possível, segundo a Abradee. 

RESILIÊNCIA DO SISTEMA ELÉTRICO EXIGE CADA VEZ MAIS ATENÇÃO

Diante da crise climática e da previsão de um El Niño forte, que aumentam as chances de desastres naturais e chuvas irregulares, especialistas alertam para a necessidade de fortalecer as redes de distribuição de energia.

A substituição por fiações subterrâneas surge como uma das principais soluções, já que elimina os riscos de queda de energia por incidência de raios e queda de postes devido a chuvas, aponta o professor do Programa de Engenharia Elétrica da Coppe/UFRJ, Edson Watanabe. 

O pesquisador chama atenção para a necessidade de reforçar a rede elétrica de forma igualitária, sem beneficiar exclusivamente regiões turísticas e de alto nível de renda. 

Caso as distribuidoras decidam por investimentos próprios na renovação da rede de distribuição, um planejamento financeiro é essencial, já que a manutenção das estruturas subterrâneas também é mais cara e pressiona os custos das concessionárias. 

“A energia não vai ficar mais cara para quem tem rede subterrânea; é rateado na conta de luz. Se todo mundo paga, todo mundo deveria usufruir disso. [...] É preciso ver se vale o custo, porque já temos uma energia relativamente cara, não sei se vai ser fácil implantar”, afirma.

Mesmo com o desafio financeiro, o reforço das redes de transmissão deve ser uma prioridade, sobretudo em ruas que abrangem hospitais, escolas, indústrias e outros empreendimentos essenciais, segundo o especialista. 

“A transição energética significa que a gente vai usar cada vez mais energia elétrica. E usar mais energia elétrica com um sistema falho, fica difícil. As empresas vão precisar ter uma atenção mais cuidadosa”, explica. 

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