“De raiz” ao “Universitário”: o que aconteceu com a música sertaneja?

O passar do tempo não privilegiou o gênero musical tão popular no País e é preciso questionar essa categorização

Chitãozinho e Xororó
Legenda: Chitãozinho e Xororó em show transmitido pela TV Globo em comemoração dos 50 anos de carreira
Foto: Reprodução/TV Globo

Na última semana, uma das duplas sertanejas de maior sucesso no Brasil completou cinquenta anos de carreira. Falo de Chitãozinho e Xororó, cantores que conquistaram uma legião de fãs pelo País defendendo um estilo muito autêntico nosso. Um mega show na televisão foi exibido e, eles sim, merecem toda essa reverência.

Quando falamos do cancioneiro (popularíssimo) sertanejo, Chitãozinho e Xororó marcam uma fase de transição do gênero, que deixou de ser de toadas caipiras e modas de violas para ganhar uma nova roupagem. Mesmo em versões mais modernas, as composições não perderam a essência “rural” ou, se caminhavam na linha “urbana”, relatavam a vida do homem do campo com saudade de suas origens. 

Até aí tudo bem, mas devido a polêmicas noticiadas, lembrei da existência de nomes atuais do estilo como Gusttavo Lima, Zé Neto e Cristiano, Jorge e Matheus, Henrique e Juliano, além de muitos outros. Por não lembrar deles, junto da memória e de seus sons também me veio a questão: o que aconteceu com a música sertaneja?

Tudo bem, o mundo mudou e os grandes poetas e revolucionários acreditam que elas são nossas salvação, mas para toda regra existem exceções e no caso da Música Sertaneja, mais parece que o estilo se perdeu pelo caminho. Apesar de ganhar a alcova de “universitário”, a versão não parece não ter feito nem a “alfabetização” nas salas amplas de nossa sociedade.

Primeiros passos

Para justificar minha opinião musical (que sempre independe de ideologia) e por ser saudosista de um tempo que nem vivi, gosto de relembrar um pouco da nossa história. Antes desse termo “sertanejo” existir, denominação que acho até inadequada, a música brejeira era chamada de caipira.

Surgindo no interior do sudeste, a viola era a base fundamental das composições e que herdaram um alto teor cultural do que já se tocava no Centro-Oeste do País, principalmente, na região pantaneira. 

Outro fator histórico que merece ser ressaltado é que estou falando dos anos de 1910, quando a Capital Federal ainda era o Rio de Janeiro e Brasília ainda não era nem sonhada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costas. Estados como Mato-Grosso e Goiás eram dominados pelas estâncias pecuaristas, onde o desenvolvimento industrial passava longe. Baseado nos violeiros que já fazem parte do nosso folclore e viraram até tema de novela, surgem as duplas caipiras. 

No município de Piracicaba, por exemplo, surge uma figura como Cornélio Pires e sua turma e preconizam aquele estilo de som. A estranheza era tanta na época, que ao lançar um livro com a temática, o cantor foi altamente julgado por escrever para um público rural. Mal sabiam que ele estava abrindo espaço para outros artistas surgirem.

O encontro de vozes em duplas virou moda caipira na década de 1930. Quando as gravadoras já viam o valor comercial de cantores daquele gênero. Surgiram Arlindo Santana e Joaquim Teixeira; Jararaca e Ratinho; Raul Torres e Serrinha dentre outros. A consolidação no cenário musical brasileiro do gênero ocorreu em 1940, com sucessos de Tonico e Tinoco, Nhô Pai e Carreirinho.

Estamos falando dos cantores, compositores mas e as músicas? Posso citar as famosas “Ferreirinha”, “Canoeiro”, “Os Três Boiadeiros" e “Chalana”. Outras se imortalizaram no tempo, são elas “Tristeza do Jeca”, “Chico Mineiro", “Moreninha Linda” e “Beijinho Doce”. 

Com a apoteose do cinema nacional e a aparição do “Jeca Tatu”, personagem de Monteiro Lobato interpretado por Mazzaropi nos filmes. Aí estamos entrando na década de 1950, quando as mulheres também ganham espaço no meio. Exemplo disso são as “Irmãs Galvão” e “Inezita Barroso”. A televisão e o Teatro de Revista também ajudaram nesta fase, o humorístico da dupla “Jararaca e Ratinho” colaboraram com essa propagação na Praça Tiradentes, ao lado de Dercy Gonçalves.  

Mudanças radicais

Na década de 1960, os sertanejos sofreram um marasmo sem perder a fama. Agora, os anos de 1970 foram decisivos. O surgimento do “brega”, aquele estilo romântico mais pobre de melodia e bem popularesco chegou a esses artistas. A mistura se afastou do gênero brejeiro e inovou.

O romance sofrido passou a surgir, até os sotaques se transformaram. Nascem então Milionário e José Rico, Trio Parada Dura, João Mineiro e Marciano cantando agora sem esquecer o tom “nó de peito” e sem poupar coração. Nesse momento, brilhantemente é lançada a dupla Chitãozinho e Xororó. Ainda resgatando tempos anteriores mais tradicionais, Sérgio Reis sai da Jovem Guarda e adentra no estilo, assim como Renato Teixeira. 

Posso estar esquecendo nomes mas seria um pecado mortal não lembrar de programas de televisão como a “Viola, Minha Viola” e “Sr. Brasil” que ajudaram a propagar músicas como “Ainda Ontem Chorei De Saudade”, “Seu amor ainda é tudo”, “A Carta”, “'Decida” e tantas lindas composições.

No transcorrer dos anos o sertanejo mudou muito, apesar do surgimento de outros nomes de alta expressão no gênero.  O que temos hoje merece ser questionado quanto a sua categorização. Marília Mendonça, por exemplo, “Rainha da Sofrência”, carregava uma identidade da querida Roberta Miranda, o que lhe validava no “sertanejo”.

Não entendo essa denominação do tal “universitário” agregado ao sertanejo que ainda não é bem aceito na minha cabeça. Classifica essas novas versões que só abordam ostentação, bebida e traição. Difere muito da proposta primária que não pode ser desprendida da essência real. A guerra por quem tem maior latifúndio se tornou mais importante que a música e os bolsos cheios sobressaem à arte.

 


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