Cem anos de Bibi Ferreira resgata a beleza de uma vida somada a arte

A artista que chegaria ao centenário neste junho marcou vidas, inclusive a minha, e resgatar a sua história é comungar da cultura de todo um país

Bibi Ferreira
Legenda: Bibi Ferreira foi uma das mais importantes e completas artista deste país
Foto: Rayan Ribeiro/Divulgação

A arte brasileira tem fortes representantes em várias gerações, agora poucos conseguiram esbanjar talentos nas mais diversas áreas de atuação. De longe, quando falamos de palco seja cantando, atuando ou dirigindo espetáculos, o primeiro nome que vem na cabeça de muita gente é de Abigail Izquierdo Ferreira, ou simplesmente Bibi Ferreira, que completaria cem anos nesta semana.

A atriz foi o Chaplin do nosso País e continua sendo reverenciada por uma legião de fãs e colegas que a consideram a maior de todos os tempos. Em seus mais de setenta e cinco anos de carreira, ela fez de tudo e conquistou o respeito internacional de quem sabia o que era realmente a responsabilidade do ofício de ser artista.

Muito será dito sobre a filha de Procópio devido ao seu centenário. Eu poderia fazer também, mas é difícil descrever uma pessoa da dimensão de Bibi Ferreira…É quase impossível!

Vou descrever neste artigo a Bibi que vivenciei no palco e nos bastidores, estrela com que pude sentir um dos momentos mais bonitos da minha vida.

É preciso dizer que conheci Bibi em sua última fase e talvez a mais decisiva para sua consagração como imortal. Depois de 70 anos de vida, a atriz foi precursora de muitos momentos mágicos das nossas artes. Ela interpretou Amália Rodrigues, Carlos Gardel e Edith Piaf de forma magistral. 

Depois reuniu sua vida no espetáculo “Histórias e Canções” onde contava seus causos no auge de sua saúde aos 90 anos. Espetáculo, inclusive, que foi ovacionado nos Estados Unidos, no templo sagrado da música norte-americana que é o Lincoln Center, aplaudida de pé por Liza Minelli que falou para a artista naquele momento: “Eu nunca vi nada igual. E olha que eu já vi muito! Você mudou a minha vida esta noite”. 

Por toda minha vida

Não foi só Liza Minelli que foi fisgada pela intérprete. No dia 1º de Setembro de 2016, Bibi Ferreira em turnê pelo Brasil, veio à Fortaleza com um brilhante espetáculo em que cantava as músicas de Frank Sinatra. Claro que eu estava com minha cadeira comprada para garantir o sonho de assisti-la pela primeira vez. É importante frisar que, devido um contato prévio com o seu empresário Nilson Raman, havia a promessa de que eu, como um fã jovem, iria ser recebido por ela depois do show, no camarim. 

Às 21 horas, sem qualquer atraso, as cortinas abrem e Bibi, com bem mais de noventa anos, aparece conduzida por seu maestro, de vestido de alça e com um decote enorme. Que ousadia! Ela era Abigail Izquierdo Ferreira, e as lágrimas foram inevitáveis, afinal sou um canceriano fiel. O show foi impecável por vários motivos, desde a atuação no palco como a escolha do repertório e orquestra. O espetáculo era tão fascinante que dias depois foi apresentado em Nova York.

Cortinas fechadas, mas as portas não! Promessa feita e cumprida. Sua equipe me levou para uma saleta depois do show, junto de minha mãe, onde seríamos os únicos a cumprimentar a estrela maior, afinal, a idade pesava e ela precisava se recompor um pouco. A espera foi de quase duas horas até que ela veio ao meu encontro, coberta de um blazer chiquérrimo, um lenço branco estampado e óculos escuros. As falas não podiam ser muitas, a emoção não permitia. Falei sobre minha caminhada de pesquisa musical e ela só sorria simpática.

Já em tom de despedida, eu disse: “Bibi, posso lhe fazer um pedido? Posso beijar sua mão?”, ela simpática estendeu o braço e permitiu aquele gesto de carinho e respeito. Depois do ato, ela me olhou fundo e disse “Posso lhe fazer um pedido? Posso lhe dar um abraço?”. 

Ah, amigos, neste momento não deu para controlar o choro e perpetuamos um abraço longo e, para a minha surpresa, Bibi também chorava assim como todos ao nosso redor. Depois nos afastamos, ela colocou a mão no meu peito, me olhou novamente, ainda com semblante marejado e disse: “Deus te abençoe, meu filho”

Naquela hora, entendi mais uma vez o que a arte pode representar e que eu estava no caminho certo. Senti que ali nos reencontramos sem sequer termos nos esbarrado anteriormente. Foi um “sim”, o percurso deveria ser este e sigo caminhando por ele e a grande prova é que estou aqui, defendendo a música que acredito ser de qualidade, sendo ela também motivo da minha existência. 

Ah, Bibi, se soubesse o bem que te quero…

Ainda tive a oportunidade de assistir Bibi Ferreira uma outra vez. Apesar de também ter sido uma apresentação impecável, entendi que ali seria a nossa despedida e foi. O peso do tempo chega para todos. Ainda que a memória e a voz esbanjassem brilho e magnitude, o corpo mostrava fragilidade.

A atriz passou por uma internação, depois ainda fez algumas apresentações de sua nova turnê chamada de “Por toda minha vida”, mas não deu tempo e após alguns shows afirmou por meio de carta em suas redes sociais “saber a hora de parar é ser inteligente”. Ali sairia de cena uma das mais competentes artistas de todos os tempos.

Sua última aparição pública foi assistindo “Bibi - Uma vida em musical”, espetáculo de grande elenco e vários cenários. Até que em uma tarde de fevereiro ela resolveu sair por outros planos e se despediu definitivamente de uma existência primorosa e de tanto louvor. No momento que soube da notícia, quis chorar mas celebrar Bibi é um desejo maior e o reforço agora em seus cem anos de vida.

Legenda: Bibi Ferreira atuando em Gota D´água" em 1977
Foto: Reprodução/Facebook

Mesmo em versão “extra-oficial”, Abigail contava que a música “Dindi” foi feita para ela. Apesar de Aluísio de Oliveira afirmar ter feito para sua mulher Sylvinha Telles, a quem dava esse apelido, a versão da atriz é que ele queria mesmo dizer “Bibi”, mas dizia que a letra “B” não era fonética e também não podia falar o nome da amada pois era casado. 

Verdade ou não, ele foi um de seus muitos maridos e os versos sempre serão eternos na nossa Música Popular Brasileira. Hoje os reproduzo e digo: ah, Bibi, se soubesses o bem que te quero o mundo seria Bibi, tudo Bibi, lindo Bibi”...Naquela noite não foi nosso primeiro encontro e nem será o último! Sua benção? Nos encontraremos. 

 


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