Aposentadoria? As canções são sonhos e jamais envelhecem

A saída dos palcos de Milton Nascimento transcende um sentimento de que, mesmo distantes, certos artistas permanecerão presentes na história de seu público

Capa do Disco Clube da Esquina
Legenda: Capa do disco "Clube da Esquina" que marcou o início de carreira do compositor Milton Nascimento
Foto: Reprodução

“A hora do encontro é também de despedida”, este é o tema da última turnê do compositor Milton Nascimento em 2022. De nome “A última sessão de música”, Bituca promete circular o Brasil com shows que marcarão sua saída dos palcos. A notícia que mescla a alegria e tristeza faz pensar na efemeridade da vida e dos nossos ídolos.

O mineiro já vem enfrentando há alguns anos uma série de problemas em sua saúde, mas uma aposentadoria deixa os corações apertados. Na última terça-feira (26), quando assistiu o amigo completar 79 anos, Caetano Veloso afirmou: Milton Nascimento é o nome dentro da música mais importante da minha geração.

Tudo faz parte de um ciclo, mas será que os produtos culturais podem ser incorporados dentro dessa abrangência temporal? Com certeza não, as artes vão muito além de sua época! Narram vidas, amores e histórias. Percorrem estradas, corpos e continentes, aguçando diferentemente o senso afetivo de cada um.

Muitos artistas já anunciaram aposentadoria, outros até resolveram caminhar para palcos de outras atmosferas, independente da saída de cena, seus nomes sempre ficarão lembrados dentro de mentes inquietas pelo mundo afora. No caso da música, elas prevalecem nos sonhos e esses jamais envelhecem.

Operários da arte 

Muitos artistas no Brasil resolveram falar de aposentadoria e se arrependeram. A última que provou disso foi a Rainha do Rock, Rita Lee. Mesmo diante das diversidades do tratamento severo de um câncer, lançou no último setembro um single “Chance” em parceria com o músico e esposo Roberto de Carvalho. O trabalho vem depois de quase uma década de reclusão, quando anunciou que iria pendurar as chuteiras.

Mesmo que fosse verdade, convenhamos, uma pessoa como Rita Lee jamais será apagada da música popular brasileira. Sua inovação sempre será referência para as futuras gerações que continuam lhe admirando com todo o brilho no qual a roqueira merece. 

Outro nome que voltou atrás quanto a suas decisões foi a cantora Nana Caymmi, que após seis anos de uma despedida dos palcos admitiu ter errado quanto à decisão. A música é maior que qualquer falha do corpo, e a cantora voltou a fazer shows em 2013. Posteriormente lançou dois discos, um interpretando as músicas de Tito Madi e outro as parcerias de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Nem todos os desfechos possibilitam retorno, é o exemplo da magnífica Bibi Ferreira que teve de se ausentar de seu público aos 96 anos em 2018. Em pronunciamento nas redes sociais na época, a decana afirmou: “Nunca pensei em parar, essa palavra nunca fez parte do meu vocabulário, mas entender a vida é ser inteligente. Fui muito feliz com minha carreira. Me orgulho muito de tudo que fiz”.

Infelizmente, sem possibilidade de retorno, a voz da decana se calaria para sempre no ano seguinte. O que prova que as artes, seja no canto, interpretação ou direção era seu motivo maior de resistência e sem ele não havia razão de viver. Ainda assim, seu nome segue lembrado em teatros, prêmios, peças e espetáculos. O que mostra sua impossibilidade de substituição no que fez tão bem.

A chama que não se apaga

Encerrar a carreira se tornou recorrente nos palcos brasileiros e também mundiais. Até novas celebridades como a cantora Anitta, já afirmaram que não irão prolongar sua trajetória musical por muito tempo. Será verdade? Nesse caso, ninguém sabe se a afirmação não vai além de uma boa jogada de marketing. Independente disso, o público lamenta isso.

Quando citamos Milton Nascimento e outros astros da nossa constelação, o desejo é que essa turnê chegue logo para que possamos assisti-lo pela última vez. Mesmo distante das plateias, o compositor jamais estará longe do público em suas mais diversas formas. Se existir possibilidade, majestades podem mudar de pensamento e a alegria de uma volta sempre será enorme.

Sigo dizendo que, na música, todos seus “operários e defensores” são insubstituíveis e isso só agrega para uma produção cultural de qualidade. Com suas marcas e identidades, a Música Popular Brasileira vai seguir sempre, por universos inimagináveis, porém firmes e fiéis diante a proposta de emocionar, cativar, fomentar e compartilhar com seus admiradores o que há de melhor.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.