Vou desligar o telefone: é hora de começar um novo livro

Mas continuarei por aqui, às terças-feiras

Foto: Javier Ruiz/ Shutterstock

Quando trabalho em livro novo, prefiro escrever pelas manhãs. A cabeça está leve, após a noite de sono — e já desperta por uma boa caneca de café com leite quente. Dedico as tardes à tarefa de revisar, reescrever, eliminar palavras desnecessárias.

Procurar o termo mais preciso para expor uma ideia, construir uma cena, definir uma situação, reconstituir um cenário. Buscar clareza e ritmo, extirpar possíveis mal-entendidos, corrigir períodos frouxos, confusos, truncados.

Não sei escrever à noite, muito menos de madrugada, como faz boa parte dos colegas escritores. Nessas horas mortas, não rendo, não avanço, cada frase é um fardo; cada parágrafo, uma impossibilidade.Afasto-me do computador, pego um livro a esmo na estante, de preferência romance policial. Literatura amena, essencialmente narrativa. Isso me reabastece e, caso não acarrete a insônia, garante-me sonhos fecundos.

No dia seguinte, enquanto trabalho, evito interrupções. Desligo o telefone, ignoro o correio eletrônico, fico longe de qualquer aplicativo de mensagens. Redes sociais, nem pensar. Preciso do silêncio, da concentração, da porta fechada, da imersão completa no texto.

Se demoro a responder aquele e-mail que você me enviou, se o deixo no vácuo lá no WhatsApp, se não curto sua foto no Instagram ou dou joinha para aquela postagem no Facebook, perdoe-me. Mil desculpas. Estou trabalhando pesado. Até cancelei a conta no Twitter, esse vampiro de tempo, energia e juízo.

Estabeleço jornadas de oito a dez horas diárias, com exceção dos sábados, domingos e feriados, reservados ao descanso, à família, ao ócio, ao sono, às leituras ainda mais diletantes, aos longos almoços domésticos espichados tarde adentro. De segunda a sexta, regresso à oficina, abro a caixa de ferramentas, dedico-me à carpintaria do texto.

Mas toda essa rotina de escrita vem depois de meses de investigação em arquivos, consulta a obras de referência, leitura de dicionários de época, construção de bases de dados, acúmulo e seleção de fontes. Com apoio no oceano de informações, cumpre então arquitetar a espinha dorsal do futuro livro, desenhar um mapa mental do encadeamento das tramas, conceber o formato e a extensão dos capítulos, transformar matéria bruta em estrutura lógica.

Mas a pesquisa nunca se encerra, por completo, para dar lugar a uma suposta fase exclusiva de escrita. Uma e outra se retroalimentam. A proporção que o texto avança, questões surgem, lacunas despontam, dúvidas emergem. Exige-se o retorno contínuo aos documentos e às fontes.

Escrever não ficção é montar uma espécie de puzzle, exercício de paciência e permanente descoberta.

Ao final de um, dois ou três anos de trabalho, vem a materialização da obra: os originais a serem enviados à editora. Até lá, apenas um grupo pequeno de amigos teve acesso a certos trechos e capítulos, lidos de preferência com olhos críticos — e a partir do compromisso de devolvê-los com anotações à margem. Na mesa do editor, enfim, aquele cartapácio de centenas de páginas começa a se transformar em livro.

Tenho sorte de contar com um editor tão sensível quanto criterioso, tão enérgico quanto magnânimo. Recebo de volta o texto com comentários e sugestões em caneta, quase sempre pontuais, mas invariavelmente precisos. A partir desse instante, toda uma equipe de profissionais — preparadores de originais, revisores, diagramadores, capistas — começa a preparar a viagem do livro até as mãos do leitor.

É para ele, leitor, que escrevo — e não para satisfazer o ego, pontuar no Lattes, participar de confrarias. Umberto Eco observou, com acerto, que a única coisa que os autores devem escrever para si próprios são as listas de compras do supermercado. “Não pertenço àquela laia de maus escritores que dizem escrever apenas para si mesmos. Tudo o mais, incluindo o rol de roupas para lavar, são mensagens a outrem. Não são monólogos, mas diálogos”.

Estou prestes a iniciar um novo livro. Assim, com licença, vou desligar o telefone. Posso, também, demorar mais tempo a responder e-mails. Vou dar uma sumidinha dos grupos de WhatsApp.

Mas continuarei por aqui, às terças-feiras, nestes breves bate-papos semanais em forma de crônica, enquanto preparo nosso próximo diálogo de maior fôlego. Até lá. Até já.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.