Os "Liras": das agruras de ter homônimos incômodos

Arthur Lira
Legenda: Mas o que nos últimos tempos tem me tirado do sério, na verdade, é ler, na imprensa brasileira, manchetes como esta: “Para Lira, ainda não há circunstâncias para impeachment”
Foto: Câmara dos Deputados

Já estou até acostumado. Quando o interfone toca, lá vem a voz dos carteiros, mensageiros ou entregadores, anunciando-me que chegou encomenda para a “Sra. Lira”. Isso mesmo, “senhora”, no feminino. Vou lá fora e, então, divertindo-me com o ar desconcertado do sujeito diante de minha cara barbada, apresento-me como a “Sra. Lira”. “Sou eu mesmo, quer ver minha carteira de identidade?”, pergunto, em tom gaiato.

Em geral, a cena termina com um pedido constrangido de desculpas, por parte do interlocutor, e, da minha parte, com um sorriso e uma rápida explicação. Apesar de ter recebido na pia batismal o nome “João”, desde criança que ninguém na minha família tratou-me assim, pelo prenome. Em casa, meus pais e irmãos, sei lá por qual motivo, sempre me trataram pelo sobrenome. Assim ficou.

Na época da escola, quando trocava de colégio, vinham as inevitáveis brincadeiras dos novos colegas. Nunca me importei com isso; do contrário, por medida preventiva, teria pessoalmente adotado o inequívoco “João”, em vez do dúbio “Lira”. Assim, quando encomendo compras pelo correio ou telefone, identifico-me pela forma como desde sempre me assinei.

Mas o que nos últimos tempos tem me tirado do sério, na verdade, é ler, na imprensa brasileira, manchetes como esta: “Para Lira, ainda não há circunstâncias para impeachment”. Ou esta: “Bolsonaro entrega a Lira proposta de privatização dos correios”. Dias desses, deparei-me com um artigo de opinião com o seguinte título: “Lira é Bolsonaro, Bolsonaro é Lira”. Isso, sim, me deixa embaraçado.

Aproveito a ocasião para dizer que, pelo menos ao que eu saiba, não tenho nenhum laço de parentesco com o deputado e agropecuarista alagoano, ora presidente da Câmara, que, fazendo-se de morto, está sentado sobre uma pilha de pedidos de impedimento do presidente da República. Embora, por coincidência, o pai dele tenha o mesmo nome do meu — Benedito —, não somos irmãos. Felizmente, cabe dizer.

Aviso também aos leitores mais incautos que, por favor, não sou eu o autor de certos livrinhos religiosos que andam por aí, intitulados “Como edificar o ministério do louvor” e “Oração diária: o segredo de uma vida vitoriosa”. 

É que um certo pastor, vice-presidente de uma igreja evangélica, igualmente alagoano como o tal deputado, assina tais obras com um nome idêntico ao meu: Lira Neto. Por mais uma vez, já tive de explicar a desavisados que não me converti e não tenho a mínima ideia de como se edifica um ministério do louvor — seja lá o que for isso.

Mas nada era pior do que naquele tempo em que meu time de futebol do coração, o Ceará Sporting Club, tinha um treinador chamado Lira — mais um alagoano, de algum ramo longínquo, extraviado e ignorado da família. Era profundamente desagradável ir ao Castelão ou ao estádio Presidente Vargas e ouvir a torcida do Fortaleza — e mesmo a do querido alvinegro, em caso de derrotas acachapantes — xingando e gritando, em um coro de milhares de vozes, os palavrões mais cabeludos contra mim. Quer dizer, contra o técnico.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.