Memórias involuntárias em torno das castanhas de caju

Legenda: Castanha de cajú é tradição no Ceará
Foto: Ricardo Moura/Embrapa

A primeira providência de meu irmão e de minhas irmãs era encontrar alguma lata vazia de querosene Jacaré, abri-la ao meio, desdobrá-la e fazer uma série de pequenos furos por toda a extensão dela, de modo a improvisar uma chapa de flandres. Depois, catávamos lá no fundo do quintal uma boa quantidade de galhos, gravetos e folhas secas, acomodando-os entre duas pequenas pilhas de tijolos.

Com a chapa assentada sobre aquela estrutura mal-ajambrada, ateávamos fogo na base. Quando o arremedo de tacho ficava quente, colocávamos ali as castanhas de caju cruas. De preferência, estas deviam estar bem secas, após dois ou três dias ao sol. Diminuía-se assim o risco de que o “leite” existente no seu interior estourasse longe, acarretando-nos dolorosas queimaduras. Em segundos, atiçado pela oleosidade natural, o fogaréu crescia e as envolvia por completo.

Ouvíamos o chiado característico do óleo das castanhas fervilhando. Sentíamos o cheiro bom invadindo o quintal, o que já nos deixava com água na boca. Admirávamos a labareda e a fumaça subindo até que, de acinzentadas, as castanhas tornavam-se pretas feito carvão. Com uma vara, à cautelosa distância, as revirávamos de quando em quando, para garantir que ficassem assadas de maneira uniforme.

Poucos minutos depois, chegava o momento de resgatá-las ao fogo. Com a mesma vara ou algum pedaço de pau, emborcávamos rapidamente a chapa de flandres, para que as castanhas, ainda em chamas e fumegantes, se esparramassem no chão. Em grande alarido, cobríamos tudo com areia, para interromper o processo de queima e, assim, evitar que passassem do ponto ideal.

Numa única tarde, fazíamos várias fornalhas semelhantes e sucessivas. Depois que arrefecessem um pouco, começava a melhor parte daquele esfuziante ritual familiar — pelo qual eu, meu irmão e minhas irmãs havíamos aguardado o ano inteiro.

Cada um munia-se de pedras, bandas de tijolos, pesos ou martelinhos e, todos juntos, sentados em círculo ao chão, quebrávamos as castanhas torradas, para extrair-lhes a deliciosa amêndoa assada. Nossas mãos e unhas ficavam tisnadas, mas a trabalheira valia a pena. Nem esperávamos para comê-las mais tarde. Entre sorrisos e exclamações de deleite, devorávamos tudo de imediato, ali mesmo, com elas ainda mornas, o que ajudava a lhes conferir sabor ainda mais pronunciado.

Nas semanas anteriores, diga-se, havíamos nos fartado de caju, este consumido das mais diversas formas. Os pedúnculos adocicados eram chupados in natura, às vezes cortados em rodelas no prato. Mas nossa mãe também preparava com eles uma infinidade de variações: sucos que bebíamos às talagadas durante o almoço, doces em calda que comíamos em grandes bocados como sobremesa.

Enquanto isso, as castanhas cruas tinham sido guardadas, reservadas para um período próximo ao final da safra, quando finalmente as expúnhamos ao sol para a grande cerimônia de assá-las no fundo do quintal. Isso tudo acontecia em Caucaia, onde moramos durante boa parte de minha infância. Mais tarde, quando mudamos para Fortaleza, minha mãe alugou-nos uma casa na avenida Mister Hull — por coincidência, bem em frente a uma indústria de beneficiamento de castanhas.

O cheiro de castanha de caju assada, portanto, faz parte indissolúvel de minhas lembranças infanto-juvenis. Quando hoje compro um pacotinho delas em algum supermercado, abro a embalagem e, por alguns milésimos de segundo, deixo que aquele aroma me remeta a reminiscências fugidias, que pareciam arquivadas em algum desvão da memória.

“O odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação”, escreveu lindamente Marcel Proust, no célebre trecho do primeiro volume de “Em busca do tempo perdido”.

Como se sabe, o escritor francês descrevia a misteriosa e mágica sensação despertada pelo mordiscar de um pequeno bolinho chamado madeleine molhado em chá, em tudo idêntico aos que, tempos antes, sua tia Leónie lhe oferecera: “Sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teria desancorado a uma grande profundeza; aquilo sobe lentamente, sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas”.

É exatamente o efeito que experimento, mas que jamais conseguiria expor de forma tão sensível e bela como Proust. As castanhas de caju são minha madeleine cabocla. Evocam-me memórias involuntárias do menino que fui — e que ainda insiste em morar em mim.



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